Leia aqui a coluna quinzenal de Cacá Diegues no jornal O Globo do Rio de Janeiro

A coluna é publicada aos sábados, na página de opinião do jornal, em seu primeiro caderno. Confira os artigos já publicados.

A dor dos outros

 

 

Cacá Diegues     -  -  -  -  -  -  4 out 13

 

 

Semana passada, andei uns dias por Marechal Deodoro, cidade histórica de Alagoas, antiga capital do estado, acompanhando a IV FLIMAR (Festa Literária de Marechal Deodoro), organizada pelo prefeito Cristiano Matheus e por seu secretário de cultura Carlito Lima, meu amigo de infância. Dias de reencontro com tanta coisa.

 

 

Durante a FLIMAR, redescobri, graças a Ricardo Ramos Filho, seu neto, a extraordinária carta de Graciliano Ramos a Cândido Portinari, publicada em 1946. Um verdadeiro manifesto que, em nossa juventude de esquerda, líamos como amargo chiste do velho Graça, ao qual não tínhamos que dar tanta atenção. E no entanto devíamos ter levado mais a sério o que nosso escritor dizia ao pintor seu amigo, para o bem de sua geração e das gerações de artistas que os sucederam.

 

 

“Caríssimo Portinari”, escreve Graciliano, “(...) receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. (...) se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você mostrou (...), o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza. Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela (...)”.

 

 

Gostaria muito de pensar, e faço sempre um grande esforço para isso, como Bachelard, filósofo francês: “O mundo é belo antes de ser verdadeiro, o mundo é admirado antes de ser verificado”. O que significa que descobrir e se encantar com o que está à nossa volta deve ter primazia sobre ouvir o que se diz sobre o que está à nossa volta. Esse talvez seja o principal conflito da inteligência humana, a disputa eterna entre cultura e conhecimento. Os artistas sofrem com isso.

 

 

De que dor e de que mundo devemos falar quando nos deparamos com um desastre como esse de Lampedusa? Mais de 300 imigrantes ilegais, fugindo pelo Mediterrâneo de países africanos em crise, tentam chegar ao sul da Itália e morrem no naufrágio previsível de um barco sem condições de fazer os 350 km da viagem, controlado por gerentes da miséria humana que cobravam mais de 1.500 dólares por cada um dos 500 passageiros, número de viajantes impossível de caber em seus poucos 20 metros de extensão.

 

 

Eu sei que isso não é novo, nem raro. Eu sei que já aconteceu com albaneses que tentavam chegar ao norte da Itália, com mexicanos que atravessavam a fronteira para os Estados Unidos, com cubanos que remavam em direção à Florida. Eu sei que isso não deixará de acontecer enquanto houver fome, miséria, opressão e guerra por aí afora, enquanto houver seres humanos desejando com desespero viver outra vida. Mas não quero me acostumar a isso, não vou me acostumar a isso.

 

 

A dor a que Graciliano se refere e não deseja suprimir faz parte da natureza humana, está sempre dentro de nós e no mundo ao nosso redor, temos que contar com ela. Nascemos para parir e parimos com dor. Os animais, as plantas, a terra toda, tudo à nossa volta vive fugindo dela, viver é tentar escapar da dor. Mas a dor de Lampedusa, dos que morreram sem conhecer a felicidade, dos que sobreviveram inutilmente e dos que, como nós, assistem perplexos a esse espetáculo brutal, essa é uma vergonha e pode muito bem ser suprimida. Como disse Francisco, acertando mais uma vez, ela é o resultado da “globalização da indiferença”.

 

 

Devemos prestar atenção à dor dos outros, para tentarmos atenuar a nossa. Vejo o desastre de Lampedusa e penso, por exemplo, nessa irracional reação corporativista aos médicos estrangeiros que querem trabalhar no Brasil. Nossas corporações são mais importantes do que o bem estar e a saúde dos outros, num país miserável como esse?  Como penso também em nossos professores em greve. Destruir equipamentos públicos, como estação de metrô, transportes coletivos, pontos de ônibus, placas de sinalização, cabines de telefone, equipamentos que servem ao resto da população, sobretudo aos mais pobres que não têm nada a ver com isso, faz parte de suas reivindicações corporativas?

 

 

Nesse e em outros exemplos mais e menos modestos, que se dane o resto, aquele que não sou eu, o outro?

 

 

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Uma correção relativa ao artigo do outro sábado. O primeiro universitário da PUC-RJ a ser eleito presidente da UNE foi o estudante de direito José Baptista de Oliveira, durante o biênio 1956-57. Arthur Poener, em "O Poder Jovem" (ed. Civilização Brasileira, 1968), escreveu que a gestão de José Baptista “assinalou a formação da primeira frente única de católicos e comunistas no movimento estudantil, autêntica precursora do pensamento ecumênico em nosso país".

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 Uma alma em fogo

 

 

 

 

 

Cacá Diegues    - - -   20 set 13

 

 

 

 

 

Conheci Aldo Arantes quando éramos ambos estudantes de Direito, na PUC-RJ. Nascido em Anápolis, goiano atuante e dedicado, eu tinha feito questão de contar com Aldo na chapa em que fui eleito presidente de nosso Centro Acadêmico, por seu talento político e sua correção pessoal. Com papel fundamental na organização da esquerda católica na AP (Ação Popular), Aldo tornou-se, no ano seguinte, o primeiro aluno da PUC a ser presidente da UNE.

 

 

 

 

 

Nessa eleição, articulou e representou ampla, rara e histórica união da esquerda do movimento estudantil, uma composição política  que ia de trabalhistas a comunistas, de social-democratas a trotskistas, de católicos progressistas a liberais moderados. Um exemplo bem sucedido do que deveria ter sido procurado no Brasil, naquele início dos anos 1960. Isso nunca mais aconteceu.

 

 

 

 

 

Na UNE, Aldo criou a Editora Universitária, a revista Movimento, o Centro Popular de Cultura (CPC), a UNE Volante, com esse mesmo espírito aliancista, sem discriminações ideológicas. Dessas entidades, saíram os melhores intelectuais e artistas brasileiros do período.

 

 

 

 

 

Agora Aldo está lançando um livro, “Alma em fogo”, pela Editora Anita Garibaldi. Nele nos conta sua vida pessoal e política, desde Anápolis até sua atual especialização em Meio Ambiente, passando pela UNE, pelo Partido Comunista do Brasil, pela clandestinidade, prisão e tortura, Anistia, Constituinte e volta ao Congresso. Uma vida marcada pelo desprendimento, pela generosidade, pela coragem pessoal e política, sempre colado à história do país.

 

 

 

 

 

Preso em 1976 pela ditadura militar, Aldo narra em seu livro as sessões de tortura nos DOI-CODI de São Paulo e do Rio, onde foi esmurrado e “torturado na chamada ‘geladeira’, nu, algemado, encapuzado e sem me alimentar”, como está a partir da  página 204. Depois foi levado à Cadeira do Dragão, “uma cadeira recoberta de metal para ampliar os efeitos dos choques elétricos (...) aplicados no pênis, na língua, na orelha, em partes sensíveis do corpo”. Vou poupar os leitores do resto da descrição, uma sucessão de horrores selvagens. Mas não devemos esquecer nunca que isso um dia aconteceu no Brasil.

 

 

 

 

 

Mesmo cometendo equívocos como, entre outros, a oposição ao Plano Real e os elogios ao regime norte-coreano, a biografia desse homem de bem deve nos servir de exemplo da dedicação ao que se julga melhor para o outro. O título do livro é uma citação do “Fausto”, de Goethe: “Aquilo que não sentes, não deves pleitear; é preciso que o queiras com a alma em fogo”. Isso podia ter sido escrito pelo próprio Aldo Arantes

 

 

 

 

 

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Quem quiser que ache o quebra-quebra, o vandalismo, a violência que surgiu no meio de nossos protestos populares, manifestações espontâneas. Esse comportamento se espalhou pelo mundo, vestindo as mesmas máscaras, desde as manifestações decorrentes da crise de 2008, nos Estados Unidos e na Europa.

 

 

 

 

 

John Zerzan, professor e filósofo  norte-americano de 70 anos, é o pai do anarco-primitivismo inspirador dessa atitude, uma teoria que deplora a civilização e a tecnologia, afirmando que a humanidade só foi feliz enquanto viveu na pré-história, em sociedades na “plenitude da liberdade”, sem a “domesticação” de linguagem, arte, ciência, pensamento simbólico e conceito de tempo. É preciso voltar a este mundo primitivo, mesmo que à força.

 

 

 

 

 

Zerzan publicou livros sobre o anarco-primitivismo, sendo o mais conhecido “The twilight of the machines” (O crepúsculo das máquinas), editado justamente naquele ano crítico de 2008.

 

 

 

 

 

Ele começou a ficar famoso a partir da segunda metade dos anos 1980, quando sua obra, uma salada de Rousseau, Thoreau, Marcuse e Debord, entre outros, se tornou coqueluche em círculos universitários americanos e europeus. E se consagrou em 1995, quando o célebre Unabomber o citou como sua principal referência, em seu manifesto publicado no Washington Post, antes de ser descoberto e preso por ter enviado 16 bombas pelo correio que deixaram três mortos e 23 feridos.

 

 

 

 

 

Zerzan é o teórico dos primeiros Black Blocs americanos, inspirando a participação deles em manifestações públicas para causar destruição, medo e insegurança, capazes de abalar a paz social. Sendo os Black Blocs muito poucos para produzirem manifestação própria, devem pegar carona infiltrados em movimentos de estudantes, operários, mulheres, gays, negros, o que for. Como tentaram fazer com o Occupy Wall Street, em Nova York, de onde foram expulsos sumariamente.

 

 

 

 

 

Ah, sim. O demônio declarado de John Zerzan e do anarco-primitivismo é Steve Jobs. Mas é através das redes sociais na internet que as manifestações são convocadas.

 

 

 

 

 

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Eu também queria que esse julgamento do mensalão acabasse logo. Acho que nem os réus devem estar aguentando mais essa tensão. Mas não exageremos. A justiça tem que julgar segundo as leis vigentes, não devemos desejar que as decisões do STF sejam plebiscitárias. Se entregarmos a Justiça à emoção da opinião pública, estaremos correndo o risco de vivermos trocando Cristo por Barrabás. Bem, isso não significa que eu esteja comparando os réus do mensalão ao nazareno. Longe de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

Vamos tirar a máscara

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues    - - -     6 setembro 2013

 

 

 

 

 

 

Sábado passado, quando o sol generoso desse fim de inverno carioca iluminou a cidade, troquei o almoço por um mergulho na praia e me deparei com rapazes e moças jogando altinho na beira do mar.

 

 

 

 

 

 

Os jovens eram os donos daquela faixa de areia dura, a equilibrar nos pés a bola que jogavam um para o outro sem deixá-la cair. Nenhum banhista ousava passar pela barreira do jogo, mesmo sabendo que o altinho só está liberado na areia mole, perto do calçadão e depois de certa hora da tarde.

 

 

 

 

 

 

Embora ninguém arriscasse reclamar, estávamos todos conscientes de que seria difícil passar impune pelos craques. Até que um menino pequeno levou distraído uma bolada na cabeça e correu chorando para seus pais. Nem assim os boleiros interromperam o jogo proibido.

 

 

 

 

 

 

Imaginei que aqueles rapazes e moças a jogar altinho fossem os mesmos que à noite, saindo das baladas a que têm direito, usam seus aplicativos em celulares para descobrir onde se encontram os postos da Lei Seca. Os mesmos que, eventualmente apanhados ao volante alcoolizados, não hesitariam em oferecer propina ao policial do flagrante.

 

 

 

 

 

 

Muitos deles deviam ser também parte dos que foram às formidáveis passeatas que começaram em junho, para manifestar seus justos protestos contra a corrupção dos políticos e a violência da polícia. Alguns devem ter protestado contra o voto secreto no Congresso, com seus rostos escondidos por máscaras afim de garantir anonimato.

 

 

 

 

 

 

Violência e corrupção só podem ser combatidas com um compromisso comum de toda a sociedade, sem direito a exceções. É claro que ganhar comissão de empreteira em obra pública é bem mais grave do que jogar altinho em local proibido. Mas os dois malfeitos ilustram uma mesma cultura, segundo a qual vale tudo que nos favoreça, ainda que em prejuízo dos outros.

 

 

 

 

 

 

Assim como os políticos se surpreendem indignados por estarem sendo acusados de usar bens e verba públicos para seus interesses pessoais, os jovens do altinho se ofenderiam com quem lhes sugerisse interromper o jogo proibido. Tanto uns quanto outros, reagem como se estivessem sendo inibidos na prática de um direito natural deles, o de ocupar o espaço público em benefício de seus desejos.

 

 

 

 

 

 

Para nós brasileiros, “brasileiro” é sempre o outro, o otário que se deixa frustrar por obstáculos que são impostos ao exercício de sua vontade. E não sentimos culpa de nada, pois as leis são feitas para os outros e não para nós. Só cidadãos de segunda classe se submetem a elas, se inibem diante delas por falta de poder ou por falta de malandragem.

 

 

 

 

 

 

Sentimo-nos injustiçados, como se os outros estivessem se metendo em nossas vidas privadas, quando reclamam do sinal vermelho que acabamos de atravessar, do lixo que jogamos nas ruas, da música alta que não deixa nosso vizinho dormir. O outro é uma figura de retórica, não reconhecemos sua existência, como se habitássemos um vazio em que a multidão à nossa volta fosse invisível. Não existe pecado quando se está sozinho no mundo.

 

 

 

 

 

 

O povo também era invisível para os aristocratas da corte francesa do século 18 que viviam às custas dos impostos pagos pela plebe e dos privilégios que os reis lhes concediam. Eles bailavam isolados no luxo de Versalhes, a muitos quilômetros da Paris fedorenta e faminta que garantia sua existência. Como exemplo a todos, Brasília é a nossa Versalhes republicana, lá está a nobreza secular de nossa vida pública, a bailar ausente do que se passa no resto do país, se sentindo injustiçada se algum ingrato reclama do uso indevido do que não é deles. Da Praça dos Três Poderes, não se vê a Bastilha cair.

 

 

 

 

 

 

Esse é o exemplo com o qual se identificam os rapazes e moças do altinho, com suas máscaras do baile social. Só um pacto sincero entre todos os níveis da sociedade, decidida a cumprir as regras estabelecidas para a convivência entre seus membros, poderá acabar com as distorções que tanto combatemos nas manifestações de rua.

 

 

 

 

 

 

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“Rosto” é o nome do primeiro CD de um jovem músico que me impressiona muito. Sylvio Fraga Neto e seu trio nos fazem ingressar num mundo novo da música brasileira, algo entre o rockn’roll e a bossa nova, entre a procissão mineira e o aboio nordestino, como se desejasse incorporar todos os sons já emitidos no Brasil. Aqui e ali, a gente encontra as influências de Milton Nascimento e João Bosco, referências às invenções rítmicas de Gilberto Gil ou ao minimalismo recente de Caetano Veloso. Mas essas citações servem apenas para nos guiar na vertigem de sons  provocada por um universo musical absolutamente desconhecido, o mundo novo de Sylvio Fraga. Além do mais, ele é casado com minha filha mais moça. Sorte dela.

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

Petrópolis mais Pacatuba

Cacá Diegues - 23 agosto 2013

 

 

 

 

 

 

 

A maturidade de uma cinematografia nacional se mede pela distância entre seus filmes. O contrário disso seria a sujeição a um único gênero, o tédio imperdoável da representação única de um país. Nada mais inapropriado para o cinema brasileiro, fabricado num vasto território cuja grande vantagem civilizatória é a diversidade de manifestações regionais, étnicas, culturais, suas diferentes geografias física e humana. Mais do que uma forçação de barra, seria um crime cometido contra nós mesmos. Um suicídio cultural.

 

 

 

 

 

 

 

Um exemplo dessa saudável distância em um mesmo universo, está em cartaz no país. De um lado, o belo e sofisticado filme de Bruno Barreto, “Flores raras”; na outra ponta desse mesmo espectro, “Cine Holliudy”, a surpreendente comédia antropológica de Halder Gomes.

 

 

 

 

 

 

 

“Flores raras” conta a história do encontro entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto), ganhadora do Prêmio Pulitzer de poesia, e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires), criadora do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro da passagem dos anos 1950 para os 60. Com uma encenação luminosa e delicada, Bruno Barreto não só nos narra a história dos sentimentos entre essas duas mulheres formidáveis, como nos traça também um impecável retrato da sociedade carioca e brasileira daquele momento de transição.

 

 

 

 

 

 

 

A Bishop cai na malemolente teia sedutora do Brasil quase que por acaso. Ela veio apenas visitar rapidamente uma amiga brasileira que, naquele momento, vive com Lota em Petrópolis, e acaba se apaixonando por essa. O que o filme nos mostra, não é apenas a densa história de amor entre as duas mulheres; mas também a difícil conquista da poeta contrariada, pelo país que observa com imenso espirito crítico, como alguém que reage à atração por algo que sabe que não lhe fará bem.

 

 

 

 

 

 

 

Essa droga cultural do excesso e do jorro vicia Elizabeth que, já vivendo no país, escreve esse verso irritado e contundente, no poema “Questões de viagem”: “There are too many waterfalls here” (numa tradução livre, “aqui tem cachoeiras demais”). Inaugurando sua carreira internacional no último Festival de Berlim, “Flores raras” ganhou o prêmio de público da sessão “Panorama”, repetindo a mesma premiação em Tribeca (Nova York), Los Angeles e San Francisco. Agora está em cartaz por todo o Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

Um filme que é também de Lucy Barreto, criadora do projeto e sua produtora, “Flores raras” é mais do que o retrato de duas grandes mulheres apaixonadas (no qual se destaca a interpretação visceral de Glória Pires). Ele é também a história de uma tragédia cultural, da incapacidade de alguém se entender com um mundo em mudança, diferente do seu. Com solidariedade crítica, Bruno Barreto nos dá esse belo filme em defesa da diferença e da necessária tolerância, do universo privado ao público.

 

 

 

 

 

 

 

Na outra ponta desse nosso cinema, Walder Gomes, cineasta cearense, dirigiu e produziu “Cine Holliúdy”, que por enquanto se encontra em cartaz apenas em Fortaleza e mais algumas cidades do Ceará, onde foi realizado na cidade de Pacatuba. Inspirado em curta-metragem de seu diretor, uma comédia que não tem nada a ver com as comédias urbanas do eixo Rio-São Paulo que estamos acostumados a ver, “Cine Holliúdy” re-inaugura com inteligência e perspicácia um gênero regional que já foi cultivado por Amácio Mazzaropi, por exemplo.

 

 

 

 

 

 

 

Falado em “cearensês” com legendas em português, esse filme nos conta a história de Francisgleydisson (“nome tão cearense”, diz um personagem), um amante de cinema que tenta resistir à chegada avassaladora da televisão ao interior do Brasil, naquele início dos anos 1970, outra data de grandes mudanças culturais.

 

 

 

 

 

 

 

Mais do que uma comédia desprentesiosa, “Cine Holliúdy” registra uma antológica coleção de personagens originais e seu comportamento. Francisgleydisson (Edmilson Filho, comediante digno da tradição cearense de Chico Anísio e Renato Aragão), instalando uma sala de cinema em Pacatuba, se cerca de moradores que vão do prefeito ao bêbado da cidade, do chefe da oposição ao cego que pretende ver o filme (um genial Falcão, o cantor, de cujo personagem alguém diz que “pelo menos ele não paga nada à vista”), num empolgante corte antropológico de certa civilização brasileira nem sempre visível a todos os olhares do país.

 

 

 

 

 

 

 

“Cine Holliúdy” já foi visto por quase 200 mil espectadores, só no Ceará, e chegará em breve às salas do resto do país. Com uma média de 2.300 espectadores por cópia, o filme de Halder Gomes bateu o recorde local de “Titanic”. Barato mas sem perder nada de sua qualidade técnica, cheio de curiosos efeitos especiais, “Cine Hollyúdi” é um exemplo de que o cinema se faz de várias maneiras e em todas elas o filme pode ser bom. Nesse caso, ele estimula a multiplicação dos editais de BO (baixo orçamento) promovidos pelo Ministério da Cultura, cada vez mais bem-vindos.

 

 

 

 

 

 

 

“Cine Holliúdy” e “Flores raras” são testemunhas excepcionais da vitalidade do cinema brasileiro e das diversas opções que ele tem pela frente. É preciso ir vê-los.

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notícias de um condenado

Cacá Diegues     - - - -    9 de agosto de 2013

Graças a um secretário de estado com consciência social e o sentimento do mundo, o Rio de Janeiro adotou uma política de segurança pública com a ocupação permanente das favelas por tropas de policiais militares preparados para isso. José Mariano Beltrame inventou as Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, que já ocupam dezenas de comunidades cariocas das quais foram afastados os traficantes de drogas com suas armas de guerra. Às UPPs devemos a contenção do crime organizado, a queda do número de homicídios nas favelas e o início de um exercício possível de cidadania por parte de sua população.

Bem antes dessa mudança, uma nova geração de moradores tomara consciência de que a favela não era o problema da cidade e sim o contrário – a cidade é que era o problema da favela. E começou a se manifestar em defesa de seus direitos e valores cidadãos, exigindo do estado saúde, educação, saneamento, emprego, segurança, cultura, enquanto prestava serviços diversos às suas comunidades. Organismos coletivos foram se organizando ao longo das últimas décadas, a maioria se impondo pela produção cultural poderosa que sempre acaba contaminando o asfalto com sua arte e seu comportamento originais.

Ao longo do tempo, acompanhei de perto algumas dessas organizações, quatro delas foram parceiras decisivas para a produção do filme “5XFavela, agora por nós mesmos”. Cada uma delas faz hoje sua travessia do abandono à afirmação cidadã.

Uma das mais antigas, a CUFA (Central Única de Favelas), surgiu na Cidade de Deus com atividades culturais. Celso Athayde, seu fundador, se ocupa hoje em montar uma holding de investimentos nas comunidades, incentivando seus moradores a se tornarem empreendedores. Ele identificou uma área de economia de favela que chamou de “Setor F”, um projeto de afirmação social, política e cultural, criando condições para que todos sejam, não apenas consumidores, mas também produtores dos bens que consomem. “A favela não é só um lugar de carências”, diz Celso Athayde,  “mas deve ser também um lugar de oportunidades”. Para isso, monta um instrumento de ação para incrementar essa “economia social compartilhada”.

O Observatório de Favelas, no Complexo da Maré, área ainda não beneficiada por UPP, ainda luta contra a violência simultânea do tráfico e da polícia. Em busca de traficantes, a PM invade sistematicamente as ruas e as casas da Maré e, sem distinguir o bandido do morador, acaba por criminalizar as associações locais. Esse tipo de lógica tem que mudar, “pois a defesa da dignidade humana e da vida são, acima de tudo, uma obrigação do estado”, como diz Jailson de Souza, coordenador do Observatório de Favelas. Apesar disso, crescem os serviços prestados por essa organização, inclusive na formação profissional de jovens daquela vasta comunidade de muitas favelas.   

Em contraste com essas dificuldades comuns a todas as favelas, Guti Fraga, responsável pelo Nós do Morro, coletivo sediado no Vidigal, acaba de ser nomeado pela ministra da cultura, Marta Suplicy, presidente da Funarte. O que deve ser saudado como um reconhecimento da importância do que tem sido criado nessas comunidades e da maturidade que essa criação alcançou.

A organização que mais precisa de nossa atenção nesse momento é o Grupo Cultural AfroReggae. O GCAR se destacou, ao longo de muitos anos, por seu trabalho na mediação de conflitos reconhecido em todo o mundo, inclusive pela UNESCO. Na ocupação militar do Complexo do Alemão para implantação de UPPs, o coordenador do grupo, José Junior, foi decisivo para evitar trágicos massacres de ambos os lados.

Nascido em Vigário Geral, o AfroReggae atua hoje em várias favelas do Rio de Janeiro, tirando bandidos do tráfico (sobretudo os jovens que para lá foram por falta de outras oportunidades). Ele administra um sistema de empregabilidade para os que deixam o crime ou estão saindo da prisão, ressocializando ex-bandidos e traficantes como, entre muitos outros, Fofo de Parada de Lucas, Tuchinha da Mangueira, Ziquinho do Acari, Claudio Piuma da Vila Cruzeiro.

É Piuma quem diz: “É realmente verdade que o ser humano consegue sobreviver e suportar qualquer tipo de miséria neste mundo, contanto que não lhe roubem a esperança de um dia ser feliz. Ser AfroReggae é ser do bem e fazer o bem, ajudar a todos sem discriminação de cor, raça ou religião”.

O AfroReggae precisa de nosso apoio objetivo. Seu coordenador, José Junior, um herói dessa cidade, foi “condenado” à morte por chefões do tráfico como Fernandinho Beira Mar e Marcinho VP. A sede do grupo na Vila Cruzeiro, onde são mantidos dormitório, creche, escola para crianças e atividades artísticas, foi cravada de tiros seguidos de ameaças de morte a quem participasse de suas atividades. Junior se recusa a fugir: “Se eu deixar o Complexo do Alemão, vou estar dando a vitória ao crime. Os tiros contra o AfroReggae não são um sinal de força e sim de fraqueza”.

O próprio Beltrame sempre nos advertiu de que as UPPs não vão resolver todos os problemas das favelas. Com elas, o tráfico perde seu poder sobre a comunidade. Mas para que a violência acabe de uma vez, é preciso que os serviços básicos, a que todos temos direito, também subam os morros. As UPPs são um patrimônio intocável da cidade mas, como diz Beltrame, “é preciso olhar para trás e ver o que melhorou, e também olhar para a frente e ver o tanto que ainda falta fazer”.  

A sociedade tem que proteger José Junior e abraçar a causa do AfroReaggae, como se estivesse abraçando e protegendo a ela mesma. Se não formos capazes disso, não mereceremos viver numa sociedade justa. Não se esqueçam de que não são apenas as armas, o dinheiro e o poder que mudam - as mentes também podem mudar o mundo.

 

carlosdiegues@uol.com.br

 


Uma jornada de encontros

Cacá Diegues   - - -   25 julho 2013

 

Tenho acompanhado a Jornada Mundial da Juventude ao longo dessa semana e, pelo menos até o momento em que escrevo esse texto, o faço com surpresa e admiração. Apesar das vicissitudes de transporte e circulação, há muito tempo não via as ruas da cidade tão alegremente movimentadas e coloridas. Mesmo por onde o papa não é esperado passar, bandos de moças e rapazes carregam bandeiras de seus países e cantam hinos em diversas línguas, num carnaval de rua cosmopolita, sereno e empolgante. Confesso que até me emocionei ao ver casualmente, no calçadão da avenida Atlântica, um inesperado encontro de confraternização entre um grupo de jovens iranianos com a bandeira de seu país e outro de americanos com a dos Estados Unidos.

Não é preciso ser católico, nem ter qualquer religião, para se encantar com o que está se passando no Rio de Janeiro. Estamos assistindo a uma experiência daquilo que o rabino Abraham Skorka, co-autor de livro em parceria com o Papa Francisco, “Entre o céu e a terra”, chamou de “cultura do encontro”. Um encontro não é uma adesão ao outro, nem mesmo a abertura de um diálogo em busca de alguma verdade única e absoluta. Um encontro é apenas isso mesmo, a aproximação entre pessoas, mesmo que elas não tenham as mesmas ideias, nem estejam dispostas a pensar sobre o que pensam.

Um dos aspectos mais relevantes da Jornada tem sido o dos diversos eventos inter-religiosos, uma busca sem tensão por alguma coisa em comum entre crenças tão diversas. A busca do abraço universal, do humano em cada fé. Assisti a reuniões de peregrinos católicos de vários países com praticantes da umbanda e do candomblé cariocas, no Estácio e em Caxias. E a uma mesa de debates na PUC, na Gávea, da qual participavam bispos, rabinos e xeques, com uma platéia lotada de jovens católicos, judeus e muçulmanos. Nesses encontros, o que se punha em discussão não era a verdade teológica de cada um, mas a necessidade de paz, de entendimento e de amor num mundo tão conturbado, inclusive por guerras religiosas.

Nunca acompanhei as Jornadas anteriores, nem sei mesmo do que cada uma delas tratou no passado, em Roma, Colônia ou Madrid. Mas imagino que as novidades comportamentais trazidas pelo novo papa tenham influenciado a atmosfera do que está acontecendo no Rio. Num livrinho de extrema pertinência sobre suas ideias, “Fancisco de Assis e Francisco de Roma”, Leonardo Boff, um dos principais pensadores da Teologia da Libertação, faz a pergunta que todos nós gostaríamos de poder responder afirmativamente: “Uma nova primavera na igreja?”. No seu discurso em Aparecida, o papa pode ter-nos respondido a pergunta, quando pediu aos jovens que se deixassem surpreender pela vida e que a vivessem em alegria. E ainda mais em sua fala militante na favela de Manguinhos, quando exortou a juventude a não perder a sensibilidade para as injustiças e para a corrupção. É como se tivéssemos atraído para cá e tornado universal a discussão do tema que hoje nos é mais caro.

A Igreja Católica, a primeira e mais antiga organização globalizada do planeta, precisa responder às ânsias de seu povo no século 21. Ela segue prisioneira de conceitos anacrônicos sobre política social, drogas, moral sexual, aborto, homossexualidade, celibato, pesquisas com células tronco e até “a forma de poder absolutista dos papas”, como diz Boff. Mas Francisco está certo quando diz que tudo começa com o encontro. E ele sabe promover esse encontro: que homem público brasileiro sairia ileso daquele engarrafamento que o papa enfrentou em sua chegada ao Rio, com a janela do pequeno carro aberta e a disposição de cumprimentar a multidão que se aproximava dele?

É ridículo e mesquinho reclamar de gastos públicos com a Jornada e a vinda do papa ao Brasil. Em primeiro lugar, porque o estado não está só cumprindo obrigação protocolar, mas também fazendo um investimento com retorno certo, produzido pelo que deixa no Rio a multidão vinda do exterior e de outras cidades do país. Além disso, o estado tem mesmo o dever de investir no ordenamento, segurança e atendimento médico das manifestações de massa realizadas na cidade, não importa de que natureza. Assim como nem todo brasileiro é católico, nem todo carioca é carnavalesco, e nem assim é justo contestar o que o estado gasta com o carnaval. Mas para alguns, Rei Momo pode; o Papa Chico, nem pensar.

Independente de qualquer profissão de fé, Francisco nos anuncia o projeto de um mundo mais simples e mais humano. Um mundo sem ostentação e sem pompa, sem a hegemonia irracional da riqueza e do consumismo delirante que destroi o planeta e a humanidade. Seu amor à esperança é comovente. “Não deixem que lhes roubem a esperança”, disse ele no Rio, aos participantes da Jornada Mundial da Juventude, “sejam vocês mesmos os portadores da esperança”. Não é pouco que um líder mundial de sua importância pense e fale desse jeito.

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

Bravo mundo novo

 

 

Cacá Diegues  ---  12 de julho de 2013

 

 

No dia 29 de setembro de 2010, o diário francês “Libération”, fundado por Jean-Paul Sartre, publicava denúncia que se tornaria um grande escândalo em toda a imprensa européia. Em sua primeira página, o “Libé” dizia que misterioso vírus invadira o programa atômico do Irã e o presidente Ahmadinejad responsabilizava os serviços secretos israelense e norte-americano pelo caos instalado em centrífugas nucleares e computadores que controlavam a infra-estrutura do país. O vírus era imune a qualquer programa para eliminá-lo e nunca se conseguiu determinar de onde ele de fato viera.

 

 

Embora alvo de justa indignação, a espionagem internacional através de sofisticados processos cibernéticos já deixou, há muito tempo, de ser novidade no chamado concerto das nações. Ela é apenas um avanço tecnológico no sistema de escuta que nações exercem sobre outras, desde sempre. Sobretudo quando as que espionam são mais poderosas e têm mais interesses fora de seu território do que as que são espionadas. Cada vez que surge um escândalo desse, nada muda no mundo, a não ser a venda de “1984”, de George Orwell, com seu Grande Irmão que tudo vê.

 

 

O que é novo e digno de atenção é que não se trata mais apenas de espionagem militar, política ou econômica, mas do escancaramento de um mundo em que a privacidade deixou de existir, desde que Tim Bernes-Lee inventou a internet, um sistema digital de relacionamento que pudesse sobreviver ao Apocalipse atômico, previsto como inevitável durante a Guerra Fria. O que quer que acontecesse, todos permaneceriam conectados para sempre, através da rede impossivel de ser desfeita. Como acabou acontecendo.

 

 

Quando você fala em seu iPhone, alguém que não está em contato com você poderá saber onde se encontra, em que língua está falando, quem é seu interlocutor. Nenhum de seus emails ou posts em rede social está isento de publicidade. Eles se acumulam, junto com nossos dados pessoais, na infinita memória das grandes empresas do ramo, como Google, Gmail, Firefox, Facebook, Apple, Microsoft, todos esses nomes que incentivaram involuntariamente uma nova forma de pensar e que nos deram, junto com o fim de nossa privacidade, nova oportunidade de desenvolver o conhecimento e praticar as relações humanas de um modo diferente.

 

 

Hoje, um fabuloso satélite como o Hubble 3D nos revela a existência de um planeta azul como a Terra, o HD189733, numa galáxia muito distante do Sistema Solar. No macro ou no micro, estamos condenados ao fim de todos os disfarces e mistérios.

 

 

Tudo isso nos leva a um mundo pós-industrial, onde os valores não são mais medidos pelos objetos que fabricamos, mas por algo que está se organizando através de novos modos de conhecer, pensar e agir. É sobre isso que devemos refletir, em vez de simplesmente estigmatizar, com justa ira, o olhar de Tio Sam sobre nossas jabuticabas. Assim como a invenção da indústria não eliminou a agricultura ou o artesanato, a teia pós-industrial não vai eliminar nada do que lhe veio antes. Vamos sempre acumular a experiência do que vivemos e fabricamos, com a do que passamos a fabricar e viver. 

 

 

Mesmo sendo um espaço desprotegido da irresponsabilidade, a internet é a celebração da liberdade individual e uma progressiva forma de relacionamento e confraternização. Não é desejável que ela sofra restrições, seja mantida sob controle de estados autoritários ou não, desapareça (o que já é impossível). Para isso, talvez estejamos pagando o preço do risco de exposição de nossas comunidades e de nossas vidas privadas. E é difícil encontrar um meio de evitar essa angústia, talvez tenhamos que aprender, não sei como, a conviver com ela.

 

 

Em vez de reclamar do poder dos outros, construamos nossa própria força. Tornemos a submissão de nossa identidade às grandes empresas capitalistas do ramo, uma garantia da liberdade conquistada através da internet. No Brasil, ainda estamos na infância cibernética, naquela idade em que mal aprendemos a ler. Mas não nos basta a alfabetização – precisamos ensinar nossos filhos a entrar no youtube, mas também e sobretudo a criar seu próprio youtube. Só podemos viver esse mundo novo através daquilo que ainda não sabemos.

 

 

Recentemente, meu neto de seis anos de idade perguntou de sopetão à mãe se era preciso casar para ter filhos. Apanhada de surpresa e desconcertada, minha nora balbuciou que não sabia. Ao que o menino retrucou firme: “Então entra aí no Google, mãe”.  Segundo o grande neurocientista Antonio Damásio, “nossa vida política faz parte da evolução biológica”. Se não conseguirmos compreender isso e construir nossa democracia em cima disso, o sacrifício pessoal de Edward Snowden terá sido em vão.

 

 

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Marc Beauchamps sempre foi um homem doce, gentil e generoso. Como produtor e distribuidor de filmes, ele foi fundamental na retomada da produção de cinema no Brasil, a partir dos anos 1990. A partir de certo momento, Marc sucumbiu às drogas pesadas, abandonou seu trabalho e perdeu tudo. Desde 2010, passou a lutar contra a dependência química e já está limpo há mais de dois anos. Pois exatamente agora, a polícia resolve prender Marc e atirá-lo no cárcere, ignorando seu tratamento e sua recuperação. Confundir uma pessoa doente com bandido é injusto, desumano e primitivo.

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

Meu coração não precisa de partido

 

 

 

Cacá Diegues  ----  28 de junho de 2013

 

 

 

O movimento sem nome ainda não acabou mas, aconteça o que acontecer, já é um movimento vitorioso. Desde o dia 6 de junho, as manifestações se sucedem pelo país afora, com mais ou menos gente. Elas já alcançaram certamente seu apogeu, mas nem por isso esgotaram seus temas.

 

 

 

Com os jovens do movimento, como escreveu Arthur Dapieve, “a libido voltou à política”. Exatamente o oposto do que os políticos fizeram com as duas. Para os de direita, aquilo que chamamos genericamente de povo é sempre ignorante e incapaz, serve apenas para elegê-los. Para os de esquerda, o povo é apenas um número em suas análises de classe, uma multidão. Para uns e outros, ele só existe quando eleitor.

 

 

 

No ocidente, o pensamento político tem sido uma caricatura do fundamentalismo iluminista, a ideia de que é possível entender nosso comportamento privado ou público apenas pelos instrumentos que a razão nos dá. Consagramos ser possivel reduzir a complexidade humana a mecanismos que geram um futuro inevitável e aí, enquanto esperamos pelo inevitável, o inesperado nos surpreende.

 

 

 

Precisamos fazer política pensando nas pessoas e não apenas em cidadãos sem rostos.  A felicidade de cada um deve ser o fim supremo de todos os gestos públicos, não importa sob que regime – embora só a democracia nos possa dar plenas condições para essa prática. Se criticamos o transporte urbano, não é em busca de votos para um partido, mas porque desejamos que as pessoas, dentro de sua capacidade econômica, viajem bem, com conforto e paz de espírito.

 

 

 

As moças e rapazes que estão indo às ruas com tanto humor, podem ser comparados a heróis de outras revoluções históricas. A revolução americana, que consagrou textualmente o direito à busca da felicidade, começou com uma esperteza lúdica de colonos da Nova Inglaterra que se disfarçaram de indígenas para jogar o chá inglês ao mar, em protesto contra os impostos praticados pelo Império Britânico. A alegria indignada é a arma mais moderna das revoluções.

 

 

 

Em 1964, 68, 84 ou 92, a voz da rua reivindicava a troca da política então vigente por outra. Hoje ela se manifesta contra a política. Nossos oradores, em passeatas ou tribunas, eram admirados, conhecíamos as ideias de cada um deles, seguíamos seus eventuais partidos. Hoje as manifestações não têm líderes, ninguém faz discurso, cada um se expressa através do cartaz de cartolina que imaginar. Um deles, que vi na Rio Branco, dizia: “Meu coração não precisa de partido”.

 

 

 

A democracia representativa está em crise no mundo todo e não podia ser diferente no Brasil. Mas como a democracia direta é a mãe do autoritarismo populista, precisamos encontrar um novo modelo de democracia participativa. Essas manifestações podem estar indicando um rumo nessa direção, mesmo que erradamente confundidas com a violência.

 

 

 

Ninguém aprova a violência praticada nelas, repeti-lo é quase uma platitude. Mas é preciso se dar conta da infiltração que o movimento vem sofrendo de quem não tem nada a ver com ele. Além de criminosos vulgares, há também os que desejam manipular as manifestações, direcioná-las para fins que não são os seus. Tenho visto muitos vídeos na Rede que nos mostram a ação e os equipamentos usados por infiltrados integralistas, neonazistas e skinheads, com suas suásticas, socos ingleses e manifestos guerreiros.  

 

 

 

Esses vídeos também nos revelam o arcaísmo cívico que é a existência de uma Polícia Militar no Brasil. Como diz Tulio Vianna, no blog da Revista Forum, ela é um contingente de soldados treinados para a guerra e abandonados na “frente de batalha”, a tratar como inimigos os cidadãos que devem proteger. Nossa Polícia Militar foi criada por D.João VI para proteger o rei do populacho da colônia. Se não acabarmos com ela, levaremos, quem sabe, mais um século para mudar sua ideologia.

 

 

 

Gosto muito de saber que a presidente e os políticos se manifestam sobre e até concordam com algumas das causas do movimento sem nome. O que é muito diferente, por exemplo, de Kadafi e Assad que responderam aos protestos em seus países provocando uma guerra civil. Ou de um Erdogan arrogante que não aceita preservar uma praça para atender seu povo. Embora não creia que os políticos tradicionais sejam capazes de entender direito o que se passa ou que estejam mesmo dispostos a abandonar seus maus hábitos, torço para que o diálogo continue e dê certo.

 

 

 

Como torço pela selecão brasileira, nessa e em todas as Copas, em nome da alegria e do amor ao futebol que não pode ser sufocado por razões mesquinhas e malfeitos dos outros.  Construir um estádio como o Mané Garrincha, numa cidade em que a última final de campeonato teve menos de 2 mil espectadores, é uma insensatez e um desperdício que nos faz desconfiar de quem o praticou. Além de desrespeito ao brasileiro exemplar que deu o nome ao estádio. Mas torcer por um time é um gesto de pertencimento e confraternização, uma coisa da qual o país precisa muito. Domingo vou vestir minha camisa canarinho com o número 10 às costas e pongar no bonde que leva a rapaziada pro Maracanã.

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

Uma crise de representação

 

 

 

 

Carlos Diegues  ---  14 de junho de 2013

 

 

 

 

Lá pela metade do século 20, por volta dos anos 1960, surgiram por aí diferentes movimentos contra o estado do mundo, com claros discursos pela construção de uma nova sociedade humana. Os beatniks, a primavera de Praga, os guerrilheiros latino-americanos, os panteras negras, o Solidariedade polonês, os hippies, os jovens americanos que se recusavam a ir para o Vietnam, os estudantes parisienses de maio de 1968, foram agentes explícitos de ideais programáticos e ideológicos que mobilizavam multidões.

 

 

 

 

Hoje não é mais bem assim. Talvez porque o mundo tenha perdido a esperança em mudanças radicais. Talvez porque a revolução tenha perdido prestígio para a mobilidade social. Talvez por não nos sentirmos mais representados por nenhuma força política.

 

 

 

 

Depois do movimento Occupy Wall Street, da chamada Primavera Árabe, dos combates na Siria, dos confrontos contra o governo na Turquia e na Grécia, das manifestações populares nas ruas de uma Europa em crise, os jovens do Movimento Passe Livre trazem agora para Rio de Janeiro e São Paulo esse novo estilo de contestação, típico do século 21 - uma contestação pontual, sem propriamente projeto de nação ou de sociedade.

 

 

 

 

Em outubro de  2011, visitei o acampamento do Occupy Wall Street, em Nova York, e escrevi aqui, nesse mesmo canto de página, que “todo mundo sabe porque foi parar no Zuccotti Park (local do acampamento dos manifestantes), mas parece que quase ninguém tem uma ideia precisa de para que serve o movimento, o que deve acontecer em seguida (...)  é como se um malestar estrutural estivesse substituindo os programas ideológicos (...) as ideias parecem sufocadas pelo malestar que tomou o lugar da luta política”.

 

 

 

 

Depois de ver na televisão um rebelde sírio arrancar o coração de um soldado governista, como é possível acreditar que sua revolta seja alimentada pela construção de uma sociedade mais justa? Quem pode nos garantir que a Líbia, depois da destituição e morte de seu ditador, esteja mesmo construindo um regime de liberdade? Depois da crise, para onde irão as manifestações pontuais de rua em Paris, Madrid ou Atenas?

 

 

 

 

Questionado sobre o que queriam seus ativistas, um desses movimentos americanos de contestação postou resposta esclarecedora em sua página no facebook: “O processo é a mensagem”. Ou seja, o ato de agir é a única razão da ação.

 

 

 

 

Todos esses movimentos se explicam pela ausência de representação de seus membros no campo da política. Como cada vez mais nos sentimos menos representados pelos que estão no poder (mesmo que eleitos por nós), só nos resta ir às ruas para ao menos mostrar que existimos. Nossas reivindicações podem ir desde o fim de um ditador até a luta contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus, tanto faz. Ainda no acampamento do Occupy Wall Street, no Zuccotti Park, vi uma senhora ativista fazer discurso de protesto contra a maneira pela qual era  tratada por seu marido.

 

 

 

 

Ninguém mais se sente representado politicamente, assim como nossos supostos representantes não se importam mais em representar ninguém. Há um enorme abismo entre nós e o poder que devia agir em nosso nome, um desinteresse em nos representar. O processo eleitoral não tem nada a ver com a representação que devia ocorrer depois dele. Os eleitos só pensam em continuar eleitos e em proteger a instituição a que pertencem, para que ela exista para sempre, com eles dentro. Os acordos partidários, as manobras de sobrevivência, os interesses pessoais e, às vezes, as vantagens pecuniárias, são fatores hegemônicos na atividade do “representante”.  Outro dia, o ex-presidente Lula disse que “às vezes, tenho a impressão de que partido é um negócio”.

 

 

 

 

Hoje o termo “democracia representativa” diz mais respeito a um regime que, eleito pelo povo, interpreta um determinado papel. Ela é “representativa” no sentido teatral da expressão, no sentido da representação dramática. Não há nenhuma justificativa programática ou ideológica para seus gestos. Apenas ação. Como podemos nos identificar com eles? Então vamos às ruas para nos representar a nós mesmos, nem sempre sabemos bem para que.

 

 

 

 

A resposta à crise da democracia representativa não pode ser o autoritatismo que elimina a liberdade de escolha e é contra a natureza humana. Nem a ilusão da democracia direta, mãe do populismo e da ditadura. Como tudo que é humano, a democracia não é um regime perfeito, mas pode ser aperfeiçoada sempre. (Em “Sabrina”, filme de Billy Wilder, o pai da heroína, motorista particular de família abastada, diz que a democracia é muito estranha: embora o contrário seja comum, quando um pobre casa com um rico, nunca se ouve dizer do pobre que ele foi “muito democrático”).

 

 

 

 

Enquanto não encontrarmos coisa melhor, não podemos abrir mão da democracia. É sagrada e insubstituível a beleza do voto que deve garantir o poder da maioria e os direitos das minorias que, daí a quatro anos, terão outra oportunidade de se tornarem maioria. E isso com liberdade permanente para todos irem às ruas ou não.

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br 

 

Se até o papa peca

 

 

 

 

 

Cacá Diegues     -     31 de maio de 2013

 

 

 

 

 

Vivemos num mundo em que a obsessão pela perfeição técnica conflitua com o cada vez maior descaso pela perfeição moral. Não estou me referindo à moral religiosa dogmática, intolerante e muitas vezes criminosa. Estou falando da necessidade de um mínimo de acordos humanos respeitados universalmente para que o progresso não destrua a civilização.

 

 

 

 

 

No último e fascinante best seller de Dan Brown, “Inferno”, essa crise de nosso tempo é vista como resultado do crescimento demográfico e da competição entre os homens pelo que sobra no planeta. Uma versão catastrofista e sem saída para a espécie. Ao longo da história humana, já vivemos graves crises de escassez e sobrevivemos. Hoje, ao contrário, vivemos uma cultura de abundância (na informação, na criação técnica, nos meios de sobrevivência, na duração da vida) que certamente nos fará encontrar a saída para a superpopulação.

 

 

 

 

 

Como nos diz o professor Denilson Lopes, em seu livro sobre a delicadeza, é preciso “caminhar diante do peso das coisas, com a leveza na alma”. Ou, dito de outro modo, levar tudo a sério sem perder nunca a alegria. Algumas fantasias podem nos levar à desgraça. Mas se cultivamos uma fantasia que nos ajuda a viver melhor, por que nos descartarmos dela em nome de uma racionalidade que não nos faz feliz? Temos portanto o direito de sonhar com o gênio solitário que encontrará soluções para qualquer desses nossos problemas físicos e materiais.

 

 

 

 

 

A crise moral, no entanto, não pode ser resolvida por um homem só. Ela necessita da pregação e do entendimento entre todos, um contrato acordado, mesmo que virtualmente, entre 7 bilhões de pessoas. Moral é tudo aquilo que permita a esses 7 bilhões conviver um com o outro, sem provocar prejuizo um ao outro.  Ela começa pela aceitação da diferença entre os semelhantes e pelo respeito aos direitos do próximo. Como ensinava Rosa de Luxemburgo, “a liberdade é sempre e fundamentalmente a liberdade de quem discorda de nós”. A moral começa portanto pela consagração da democracia.

 

 

 

 

 

Quando o papa Francisco diz ter muitos pecados mas confia no perdão divino, como declarou essa semana, ele está produzindo uma revolução na hierarquia e desafiando o dogma de infalibilidade de sua religião, em nome de um novo humanismo não triunfalista, em que os homens reconhecem sua natureza imperfeita e é dela que vão construir sua grandeza. Para quem não acredita em Deus, o perdão divino é o consenso moral dos homens a seu favor.

 

 

 

 

 

Na mesma semana em que fomos iluminados por esse exemplo de humanismo, lemos nos jornais que outro homem poderoso, o ex-ditador da Argentina, general Jorge Videla, responsável pela prisão, tortura e morte de tantos “desaparecidos”, morreu no cárcere, sentado no vaso sanitário de sua cela. Ou seja, morreu fazendo cocô, necessidade natural de qualquer outro ser humano, de qualquer outro bicho desimportante do planeta.

 

 

 

 

 

A declaração do doce papa Chico nos atualiza com o comportamento dos dois papas João XXIII. O primeiro João XXIII, Baldassare Cossa, eleito em 1415, durante o longo cisma da Igreja, foi logo deposto pela Cúria, com o apoio dos nobres católicos de toda a Europa, por afirmar a igualdade entre os homens e viver essa experiência durante seu curto papado. Depois de sua deposição, a Igreja riscou seu nome da lista dos papas, só corajosamente retomado, em 1958, pelo cardeal Angelo Roncalli, o grande e definitivo João XXIII, reformador político e social da Igreja, com repercussão em todos os grupos religiosos e em todo o mundo.

 

 

 

 

 

Para os crentes dogmáticos, o nosso é um mundo provisório, onde devemos sofrer para termos direito ao paraíso que nos espera depois da morte. Tudo que nos der prazer na vida está proibido, como se nossa natureza tivesse sido criado para o pecado e assim devermos evitá-la e sufocá-la. O “pecado” que todos nós, mesmo um papa, estamos sempre a cometer justamente por ele fazer parte de nossa natureza.

 

 

 

 

 

Em vez da punição do passado, o perdão de nossos pecados deve servir à construção do futuro, como uma celebração moral da sociedade em que vivemos. Na organização dessa sociedade, temos que pensar no bem estar comum como condição para nosso próprio bem estar. Uma concepção includente da riqueza produzida por todos, dificil de ser aclamada mas indispensável à nossa paz.

 

 

 

 

 

De nosso acordo moral universal deve fazer parte nosso direito à nossa natureza, sem medo dela e sem usá-la para oprimir o outro. A base essencial dessa moral é a tolerância e a consciência de nossos direitos iguais. É isso que Francisco, nome de um santo suave e megalômano, o que mais amava e o que mais sofria, quis nos dizer ao se afirmar um pecador como qualquer um de nós.

 

 

 

 

 

O perigo é, daqui a pouco, toparmos com alguns desses políticos marombeiros a argumentar que, se até o papa peca, por que se sentirem culpados do que fazem?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

O Brasil em cartaz

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues     -    3 de maio de 2013

 

 

 

 

 

 

A semana cinematográfica está repleta de filmes brasileiros recentes em cartaz. São nada menos que dez títulos, o que seria impossível de acontecer até poucos anos atrás. Junto com a boa notícia do aumento da produção (estamos fazendo cerca de cem filmes anuais), chega-nos também a de outras virtudes do conjunto desses filmes.

 

O cinema brasileiro foi sempre elemento de destaque no nosso tradicional complexo de viralata. As elites nacionais sempre duvidaram de nossa capacidade de fazer filmes, apesar de o povo nunca deixar de vê-los, sempre que tem oportunidade. Mesmo filmes que se destacam pela qualidade artística, em geral só são respeitados depois de reconhecidos e premiados no exterior.

 

Nosso cinema nunca teve uma história fluente, sempre viveu de ciclos que se abriam e fechavam, durando sempre muito pouco. Para ficarmos apenas nos ciclos mais recentes, a chanchada foi absorvida pela televisão, a Vera Cruz faliu por má distribuição de seus produtos, o Cinema Novo foi amordaçado pela ditadura militar, a Embrafilme fechada pela mesquinharia trágica de Fernando Collor.

 

Hoje vivemos o que se convencionou chamar de “retomada”, período de produção cinematográfica crescente e intensa que já dura cerca de 20 anos e que esperamos não seja mais um ciclo, e sim o início da história de nosso cinema como atividade permanente no país.

 

Inventado na virada do século 19 para o 20, o cinema é uma arte complexa capaz de absorver as outras e uma produção híbrida de artesanato e indústria. Digamos que o cinema não tem caráter, embora tenha muita personalidade. Em confronto com a grandeza do cinema americano do século passado, nossas elites sempre viram o cinema brasileiro esbarrando em falta de preparo intelectual e em fragilidade técnica irreparáveis.

 

Hoje vivemos uma prática universal do audiovisual e o Brasil acompanha bem essa nova forma de conhecimento humano.  Filma-se em todo lugar do mundo e em todas as camadas sociais de cada país. A televisão, o digital, a internet, os games, o celular, se tornaram meios hegemônicos de comunicação entre os jovens, inclusive no Brasil. E é isso que está determinando o futuro da cultura global.

 

Como o avozinho patriarca dessa família, o cinema continua merecendo o respeito que lhe é devido, se tornou um espaço nobre dessa revolução audiovisual, sempre consultado e referido quando há dúvidas no ar.  O cinema, como o conhecemos hoje, não vai acabar nunca, mas é claro que o futuro dele será necessariamente outro.

 

A multiplicação dos meios de difusão provocou grande diversidade na produção do audiovisual e o cinema brasileiro acompanha esse tropo universal com naturalidade. Num país tão diverso como o nosso, não poderia ser diferente. O que é um filme brasileiro? Aquele que é feito na floresta amazônica ou na Avenida Paulista? Nas praias do nordeste ou nas cidades coloniais de Minas? Nas favelas do Rio ou no Pampa gaúcho? O que é essa entidade “filme brasileiro”?

 

Os filmes em cartaz nos dão belo exemplo dessa complexa diversidade. Ao lado de um filme rigoroso e melancólico, como “O abismo prateado”, de Karim Ainouz, temos uma comédia carioca com astros do youtube, como “Vai que dá certo”, de Maurício Farias. Do documentário político que nos ilumina momento grave na vida do país, como “O dia que durou 21 anos”, de Camilo Tavares, podemos passar a “Somos tão jovens”, de Antonio Carlos da Fontoura, biografia de Renato Russo, um momento seminal de nossa música popular.

 

Ao lado do veterano Reginaldo Farias, diretor de “O carteiro”, temos Tata Amaral, talento revelado há pouco tempo, diretora de “Hoje”. Do doce “Meu pé de laranja lima”, de Marcos Bernstein, inspirado no clássico infantil de José Mauro de Vasconcelos, a “Uma história de amor e fúria”, animação barroca e distópica de Luiz Bolognesi. De um documentário social, como “Doméstica”, de Gabriel Mascaro, ao documentário musical de Eduardo Escorel, “Paulo Moura – Alma brasileira”, na tradição de filmes recentes que abordaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Cartola, e outros.

 

Vi alguns, mas não todos esses filmes. Provavelmente nem todos farão sucesso, nem todos atrairão grande público, nem todos são bons. Os melhores serão sempre minoria - é assim em todas as cinematografias do mundo, será sempre assim em qualquer assunto, em todo o planeta. Mas o que importa isso? Importa mais sabermos que temos muitas estradas a seguir para entendermos melhor quem somos, comunicando-nos uns com os outros através do cinema. Deve ser mesmo insuportável viver num mundo em que todos são gênios e que nenhuma surpresa, boa ou má, nos aguarda na esquina.

 

 

 

 

 

 

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Dois mil e quatorze

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues   -  19 abril 2013 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não sou supersticioso, prefiro confiar no acaso. Mas também só entro em avião com o pé direito, procuro não passar por baixo de escada e, quando adolescente, só ia aos jogos com a mesma camisa número seis do Botafogo (a de Nilton Santos). Embora evite a superstição que nos imobiliza, gosto de brincar com números e, num desses jogos, me ocorreu uma certa magia no ano que vem. 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil, completaremos 50 anos do golpe militar que resultou na mais longa e cruel ditadura de nossa história nacional, iniciada em 64. E 64 anos do golpe cruel da Copa de 50, quando os uruguaios nos venceram, naquela histórica final no Maracanã que resultou em longa depressão nacional, iniciada com o gol de Ghiggia.

 

 

 

 

 

 

 

São 64 anos de 50 e 50 de 64. Datas e números que dizem provavelmente pouco aos nossos jovens, mas que têm significado profundo para aqueles que viveram grande parte de suas vidas durante a segunda metade do século 20.

 

 

 

 

 

 

 

No “maracanazo” de 50, iniciamos a exposição pública de nosso complexo coletivo de viralata, num sofrimento nacional do qual não consigo me lembrar de outro igual (talvez por ser tão criança na época). Obdulio Varela, o valente capitão uruguaio, cuspira no rosto de Bigode, nosso lateral mulato, sem que esse reagisse, e levara seu time à vitória aos gritos, contra brasileiros acovardados em campo e conformados em silêncio nas arquibancadas. Era assim que nós mesmos descrevíamos a tragédia.

 

 

 

 

 

 

 

Desde ali, os brasileiros se tornaram um povo sem flama, incapaz de reagir à desgraça à qual estava destinado. Por mais que tivéssemos nacionais virtuosos, como Zizinho e Ademir, jamais seríamos uma coletividade vitoriosa. O sucesso nos escaparia sempre nos últimos minutos, por decreto do destino e impotência nossa. O Brasil estava condenado a adormecer eternamente em berço esplêndido, incapaz de se erguer para existir.  

 

 

 

 

 

 

 

No golpe de 64, o viralata foi convencido de que era mesmo ignorante e estúpido, na melhor das hipóteses ingênuo. Nem mesmo sabia votar, não merecia portanto o luxo da democracia e da liberdade. Militares insuflados pelos sábios que cuidavam de nossa incompetência e se substituíam à nossa incapacidade de gerir o país, tomavam às mãos a condução de nossas vidas, à revelia do que pensássemos disso. Haviam-nos roubado o direito de ganhar, agora nos levavam o de ser.

 

 

 

 

 

 

 

A partir do golpe, a tragédia se tornara cotidiana, o inaceitável passara a ser normalidade. Vivemos exilados em nosso próprio país, neutralizados pelo medo e pela conveniência. Passamos vinte e um anos com nossa vontade alienada, em nome da luta contra o monstro comunista que nos havia de devorar e que acabou ruindo sem muito ruído.

 

 

 

 

 

 

 

Quando eu era estudante, países como o nosso eram chamados simplesmente desubdesenvolvidos”. Ao longo dos anos 1960, esses países passaram a ter uma certa importância estratégica nos embates da Guerra Fria. A inteligência francesa deu-lhes então uma identidade política própria, chamando-os de Tiers Monde (Terceiro Mundo), nos presenteando com o orgulho da singularidade.

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, quando o Brasil e outros países semelhantes começam a ter certo peso na economia globalizada, sendo capazes de provocar crises ou de bem suportá-las na bagunça do capitalismo financeiro contemporâneo, somos elevados à categoria de países “emergentes”. Não sei dizer se essa evolução etimológica é parte de algum capítulo das ciências humanas modernas ou se é pura habilidade político-diplomática.  Mas pode também ser a tradução do inconsciente coletivo da humanidade a nos conduzir a uma nova identidade.

 

 

 

 

 

 

 

Desde a redemocratização do país, começamos a nos libertar dos fantasmas e carmas derrotistas. Seja qual for a opinião politica de cada um de nós, é evidente que viemos, ao longo dessas duas últimas décadas, aprendendo a confiar em nós mesmos. Nossos jovens não acham mais que estamos condenados ao fracasso e querem exercer sua justa vontade sobre o concerto da nação. Temos que acreditar sempre que isso seja possível.

 

 

 

 

 

 

 

Tomara que 2014 celebre, sem superstições positivas ou negativas, o enterro definitivo do viralata. Compreenderemos então que a mágica da realidade começa pelo exercício da vontade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma correção. Em meu artigo anterior, cometi um injusto equívoco para o qual fui alertado pelo deputado Chico Alencar, a quem respeito e admiro. Não foi apenas Jean Willys o único congressista a se manifestar, logo que o pastor Marco Feliciano foi indicado para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Segundo ele, outros sete parlamentares se manifestaram logo contra a aberração: Luiza Erundina, Érica Kokai, Domingos Dutra, Arnaldo Jordi, Nilmário Miranda, Ivan Valente e o próprio Chico Alencar.

 

 

 

 

 

 

 

Enquanto isso, o deputado Marco Feliciano continua responsável pela Comissão, mesmo que a cada dia nos surpreenda com novas e mais delirantes profissões de fé, como essa que incentiva o assassinato de nossos mais queridos artistas, em nome de não sei que deus, com o auxilio de anjos que pilotam aviões. Não se trata mais de conflito ideológico, mas de pura insanidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

A infelicidade de Feliciano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues  -  5 abril 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro dia, meu neto de sete anos me disse excitado que tinha um presente para mim. Era uma lata de Coca-Cola que havia encontrado com meu nome, Carlos, inscrito nela. Tive a sensação de que meu neto havia-me achado no meio da multidão e me propunha celebrar minha existência.

 

 

 

 

 

 

 

 

Como quando nomeamos alguém estamos identificando sua singularidade, me dei conta de que um dos produtos mais universais do planeta, um dos signos fundadores da globalização, havia sacado a necessidade de reconhecer a existência do indivíduo e sua diferença. A humanidade não é uma massa anônima e informe, mas o encontro entre seus indivíduos, a única coisa concreta que existe. O resto (lingua, sociedade, moeda, nação, estado, cultura, o que mais for) são abstrações necessárias que inventamos para poder melhor conviver com o outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

É claro que essa operação de marketing do produto que minha geração, em sua juventude irreverente e bem humorada, chamava de “a água suja do imperialismo”, é apenas uma fantasia que não vai melhorar a vida de ninguém. Mas é significativo que marca máxima de um modo de vida planetário reconheça a necessidade de lembrar nossa individualidade, nossa diferença, nossa singularidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

Somos indivíduos responsáveis pelos outros e essa responsabilidade começa pelo respeito ao que o outro é ou quer ser. A democracia é o único regime político em que esse comportamento se encontra em seu cerne. Sem ele, ela perde o sentido. Segundo Tocqueville, o grande pensador da democracia moderna na primeira metade do século 19, o regime democrático é uma ditadura da maioria, abrandada pelos direitos de manifestação das minorias. É tão simples e profundo quanto isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

Nosso Congresso Nacional está deixando que essas ideias indiscutíveis sejam negadas pela ação nefasta do deputado Marco Feliciano, à frente da Comissão de Direitos Humanos. E esse desastre não tem apenas o deputado como único culpado; grosso modo, a câmara inteira é responsável pelo grave erro.

 

 

 

 

 

 

 

 

A democracia representativa fica comprometida quando os partidos dão prioridade a seus arranjos funcionais, em prejuizo da representação popular. Apesar de grosseiro, medieval e inaceitável, o deputado tem o direito de pensar como quiser, para agradar seus eleitores específicos. Mas não tem o de impor, por delegação de seus pares, as consequências segregadoras desse pensamento sectário à população inteira, que inclui os que são discriminados.

 

 

 

 

 

 

 

 

Todos os partidos deixaram que isso acontecesse quando negociaram, segundo seus interesses táticos, a formação das diferentes comissões no Congresso. A culpa não é só do partido de Feliciano, o PSC, que o indicou; os outros também preferiram o conforto próprio, em detrimento da segurança social da população. Quando isso aconteceu, onde estava o PT e seus “progressistas”? Por onde andavam os “democratas” do PSDB? Que faziam os “socialistas” do PSB? E os “liberais” do DEM? O único congressista que vi se manifestar desde a primeira hora, com coragem e firmeza, sem se preocupar com as conveniências regimentais da casa, foi o deputado Jean Willys.

 

 

 

 

 

 

 

 

Suspeito que Marco Feliciano não seja um homem feliz. Ele deve viver atormentado pelos fantasmas do porre de Noé, do pecado de Cam, da maldição divina sobre a África e os negros. Feliciano não  pode gastar relaxado o dízimo de seus fiéis, enquanto houver no mundo aborto, homossexuais, casamento gay e gente que não pensa como ele. “Infeliciano” não deve dormir em paz. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas confesso que não admiro nem um pouco o modo de reação de alguns ativistas contra ele. Numa democracia, não se deve fazer política invadindo reuniões, subindo nas mesas, agredindo quem passa pela frente, impedindo o interlocutor de se manifestar. A democracia é também um processo civilizatório, como foi a justa manifestação recente na ABI, organizada por Jean Willys, com a presença de Caetano Veloso, Wagner Moura, Preta Gil e tanta gente que lotou aquele auditório para discutir o assunto.

 

 

 

 

 

 

 

 

É evidente que hoje, no mundo inteiro, vivemos uma grave crise da democracia representativa. Talvez pelo crescimento da população em todos os países; talvez pela distância cada vez maior entre representantes e representados; talvez até mesmo pela crescente superação do poder do estado pela força natural da sociedade. Não sei encontrar solução para essa crise. Mas ela não pode ser a democracia direta que nos leve à aventura irresponsável do populismo, nem o voto distrital que torna clientelista o resultado de uma eleição, eliminando o debate ideológico que organiza o futuro. É preciso começar a discutir uma reforma política democrática que contemple todas essas novidades.

 

 

 

 

 

 

 

 

Para certos crentes, nosso mundo real é sempre provisório, o paraíso se encontra muito mais à frente, bem adiante de nós. Depois é que é sempre bom e, para chegar lá, devemos suportar dor e sofrimento, afim de nos tornarmos merecedores da graça no futuro e punirmos os que ousam desejar ser felizes por aqui mesmo. Mas temos o direito de exigir que nos deixem ser o que somos, que nos garantam, aqui e agora, nossa felicidade de cidadãos, nossa “felicidadania”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A vida dos tiranos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues – 22 março 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho observado que, na imprensa, nos livros, ou em simples conversações, cada vez mais preferimos usar a palavra planeta para falar de onde nos encontramos. Arrisco dizer que esse é um progresso objetivo na história da humanidade. Universo é uma designação metafísica, envolve o que não sabemos. Mundo é abstrato demais, pode representar tanto um vasto território, quanto o pequeno espaço de nossa vida e de nossa imaginação. Planeta, não. Com planeta, não há equívoco possível, é nessa palavra concreta que vivemos, agoniados com o que acontece à nossa volta, sensíveis às suas circunstâncias, dentro dos limites dela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como é mesmo difícil viver, em qualquer época que seja, temos sempre a impressão de que estamos vivendo o pior momento da história da humanidade no planeta. É isso que gera a principal narrativa de conservadores e progressistas. Segundo Lévy Strauss, para os conservadores a idade de ouro está num passado cujo desaparecimento lamentamos melancolicamente. Para os progressistas, a idade de ouro está no futuro, em nome do qual devemos fazer sacrifícios no presente. Nenhum dos dois partidos se dá conta de que a idade de ouro é hoje, o tempo que nos foi dado viver no planeta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Shakespeare que, ao lado de Dostoievski, Proust e Machado, escreveu quase tudo que se precisa saber sobre a humanidade, deve ter percebido esse equívoco. Desconfio disso pela referência a “tempos difíceis” em várias peças passadas em tão diferentes épocas e lugares – Falstaff reclama do tempo em que vive (“Que tempos são esses?”), o Príncipe de Verona acusa o tempo presente pela tragédia de Romeu e Julieta, Hamlet se atormenta com o “nosso tempo fora do eixo”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desprezo esse tipo de acusação contra o pobre do tempo indefeso. Mas existem situações excepcionais em que ela se torna compreensível. Uma guerra, um desastre natural, uma peste, um regime de opressão. Esse último nos justifica dizer que, pelo menos para minha geração, os anos entre 1969 e 1974 foram os piores da ditadura e portanto os piores de nossas vidas. Um tempo que eu gostaria de não ter vivido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para vivermos um tempo como aquele, devemos estar preparados para enfrentar ou conviver com o fato de que tudo em nossa vida estará impregnado pelo desastre e pela tragédia que ele pode provocar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda sobre Shakespeare, o poeta Hans Magnus Enzenberger, um dos autores que andamos descobrindo durante aqueles anos de tantas  descobertas, dizia que em toda dramaturgia há sempre um protagonista e um ou mais antagonistas, como está convencionado desde os gregos. Menos em Hamlet, onde o herói se debate contra o mundo (eu não disse planeta). Ele não tem antagonistas pois seu obstáculo, a razão de sua loucura, dor ou tormento, é o próprio mundo em que vive. E como Hamlet se debate contra o mundo, ele não tem tempo para viver. Jan Kott, em “Shakespeare, nosso contemporâneo”, o melhor livro sobre o bardo e sobre Hamlet, abordado como um herói dos anos 1960, diz a mesma coisa com argumentos mais politizados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ditadura enviesou o caminho da cultura brasileiro em direção à metáfora e à alegoria, uma maneira de escaparmos do real que nos horrorizava. Não estou me referindo somente à repressão, à censura, à dor da perda de tantos amigos, de conhecidos ou desconhecidos, de gente que admiramos. Mas também à vida em permanente temor, à angústia cotidiana, à renúncia ao gozo, à extrema solidão de cada um de nós separados uns dos outros. Uma solidão que acabaria na praga de radical e generalizado individualismo, a única saída que parecia nos enobrecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E finalmente à auto-castração imposta por um super-ego repressor que cresce e incha na proporção exata de nosso medo e de nossa solidão, de nosso desamparo. Durante muito tempo, mesmo depois da redemocratização do país, ainda me flagrei pensando como se estivesse sob censura, com uma polícia e um ditador internalizados a me observar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é por pura coincidência que os maiores tiranos da história do século 20 foram, antes de serem tiranos, homens de vida ascética, às vezes mesmo monástica, como Hitler, Salazar, Stalin, Mao, Franco, Pol Pot, Pinochet e tantos usurpadores do poder em todos os continentes. Nem sempre o ascetismo é necessariamente ético. A tirania é antes de tudo esse desgosto da vida, a negação do prazer, o bloqueio do inesperado e do surpreendente, a necessidade de controle sobre a felicidade do outro. A vida sem graça, em todos os sentidos que essa palavra possa ter. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não adianta procurar o sentido da vida, ele não existe; mas essa busca é o único sentido que a vida pode ter. Como ela não é mesmo fácil de ser vivida, é até compreensivel que nos julguemos vivendo o pior dos tempos no planeta. Perdemos então o gosto de usufrui-la, tratamos apenas de tentar sobreviver. Como se sobreviver fosse suficiente e Jean-Paul Sartre tivesse razão ao lembrar a superioridade do ratinho vivo sobre o leão morto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ou, ainda melhor, como o destino da barata repelente, na prisão de “Glória feita de sangue”, filme de Stanley Kubrick, que sobreviveria à execução de Ralph Meeker se Timothy Carey não a destroçasse com a palma da mão. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br 

O canto dos pássaros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues  -    8 março 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A verdade não é uma bastarda pagã. Ela é filha da natureza com as circunstâncias, e afilhada de nossos interesses e opiniões. Nenhuma imagem, por mais concreta que seja, terá sempre o mesmo significado em diferentes circunstâncias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Presente do governo francês ao povo americano, a Estátua da Liberdade, na entrada do porto de Nova York, é um belo e nobre símbolo de princípio consagrado pela cultura ocidental. Mas idêntica Estátua da Liberdade, diante de shopping na Barra da Tijuca, é apenas ridícula manifestação de mimetismo e arrogância sub-culturais, que nos quer fazer crer que ali estamos em Nova York.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na história política do continente, Simon Bolívar foi tratado como aventureiro oportunista pelo insuspeito Karl Marx. E, no entanto, por seus feitos nas guerras pela independência da América hispânica, tornou-se símbolo do anti-imperialismo contemporâneo e pai da pátria venezuelana, assim consagrado por Hugo Chávez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim também, o próprio Hugo Chávez não pode ser tratado como mero e tradicional caudilho populista, imagem que nos vem à mente quando lembramos de seus gestos demagógicos, de sua carnavalização do poder e sobretudo de seus atos autoritários (embora confirmados pelo voto popular).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando Chávez vai a Cuba e elogia os Castro, não está abraçando uma ditadura hereditária que não implantou em seu país. Ele sabe que Cuba não tem mais nenhuma importância no jogo de poder internacional, mas precisa saudar o velho símbolo do anti-americanismo, ficar do lado que provoca a fúria do lado de lá. O ódio às vezes pode ser uma moeda de troca nos negócios internacionais.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O regime chavista manteve no país uma inflação alta, quase dobrou o valor da dívida pública, criou condições para o aumento da violência urbana, pôs a Venezuela na dependência exclusiva do petróleo, tentou controlar a imprensa. Mas também quase triplicou seu PIB per capita, diminuiu a pobreza extrema de 20 para 7% da população, baixou a taxa de desemprego pela metade, não fez nenhum preso político. E não se tem notícia de corrupção, roubalheiras praticadas pelo líder do regime.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum caudilho populista, apenas inescrupuloso ou demente, se interessaria tanto por seu povo, sobretudo pelos mais pobres. Nem seria tão amado por ele, do jeito que Chávez foi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No fundo, Hugo Chávez foi uma caricatura do que poderia ser a reação às evidentes frustrações causadas pela democracia representativa em nossos países, com seus Congressos de espertos e insensíveis legisladores, quase sempre corruptos, desinteressados da população. Em quase toda a América Latina, os Executivos nacionais têm merecido muito mais respeito do que seus Legislativos. E portanto mais poder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Farto de tanta teoria sobre seu trabalho, Pablo Picasso disse um dia que “todo mundo fala em ‘compreender a pintura’, mas ninguém fala em ‘compreender o canto dos pássaros’”. Foi a observação dos homens que fez o canto dos pássaros ser belo. Talvez tenhamos que desvencilhar a política de todas essas teorias ideológicas, para apreciar o que de verdade está por trás dela, em benefício da população.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Há dez anos os cineastas brasileiros lutam pela criação do Vale Cultura, mecanismo público em que o trabalhador de carteira ganha o direito de gastar, sem custo para ele, 50 reais mensais em consumo cultural, indo ao cinema, ao teatro, à livraria, aos concertos que bem entender. O centro das políticas públicas para o setor passaria a ser o interesse do consumidor e não mais, como sempre foi, o do produtor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com a notícia de que a ministra Martha Suplicy está incluindo, nesse consumo incentivado, o direito de uso do Vale Cultura para a assinatura de televisão paga, nossos esforços de dez anos foram frustrados. Mais uma vez, acordamos de um sonho para a dura realidade em que os mais poderosos acabam sempre levando tudo, mesmo que não precisem de nada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em pouco tempo, a televisão paga no Brasil passou de 8 para as atuais 20 milhões de assinaturas. E só tende a crescer, como signo de mobilidade social e ascensão de classe. Um crescimento que, por enquanto, só favorece a produção audiovisual estrangeira, a maioria absoluta de sua programação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mundo inteiro, a televisão compensa seu poder tecnológico na oferta de consumo cultural sendo a principal fonte de financiamento de filmes. Isso acontece dos Estados Unidos à Ásia (incluindo a China), da Europa a grande parte da América Latina (como Chile e Argentina). Sendo o primeiro país do mundo em que o cinema vai ajudar a financiar a televisão, o Brasil será certamente objeto de gargalhadas nos próximos encontros internacionais do audiovisual.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conhecendo o passado político de Martha Suplicy, temos esperança de que essa notícia seja um boato e que o Vale Cultura vá beneficiar apenas os produtores brasileiros de cinema, teatro, música, literatura, etc. Os que de fato precisam dele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Golpe contra novos rumos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues    -   22 fev 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é muito fácil, para uma pessoa da minha idade, falar sobre Cuba. Para minha geração, Cuba foi um modelo de sonho, esperança de um inédito socialismo democrático, com liberdades individuais, direitos e oportunidades iguais para todos, liderado por rapazes como nós, com menos de 30 anos de idade, num país miscigenado como o nosso, ao som de rumba, mambo e bolero.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nada poderia nos produzir mais euforia que a noite de Ano Novo em que Fidel Castro entrou em Havana e tomou o poder com seus guerrilheiros barbudos. Eu tinha 18 anos e estava nas ruas, com meus colegas da UNE e os companheiros do futuro Cinema Novo, celebrando a vitória da beleza e da justiça, como diria Paulo Martins em “Terra em transe”. Isso ninguém esquece. Mesmo que o sonho se transforme em pesadelo, permanece em nossos corações na sua forma original.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nossa proximidade afetiva e cultural com o cinema cubano alimentou, durante anos, nossa tolerância com o que de errado víamos acontecer na ilha. Os cineastas brasileiros sempre tiveram a absoluta solidariedade dos cineastas cubanos liderados por Alfredo Guevara, Tomás Gutierrez Aléa e Julio Garcia Espinoza. Nos piores momentos da ditadura militar no Brasil, nunca nos faltaram moralmente (apoiando nossos filmes e nossos projetos cinematográficos) e materialmente (recebendo alguns de nós em exílio ou na escola de cinema de San Antonio), sem nada em troca.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas, ao longo do tempo, foi ficando desconfortável defender Cuba. Era como se a mulher amada estivesse fugindo com outro, a dor de corno reprime o amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A agressão na Baía dos Porcos, a desumanidade do embargo comercial, a barbárie de Guantánamo, o terrorismo de estado (vejam “A hora mais escura”, de Kathryn Bigelow), os cubanos presos em Miami, todos os erros e crimes da politíca externa norte-americana não podem justificar o silêncio diante da falta de liberdade, do controle da vida dos cidadãos, da perseguição aos homossexuais, das misérias da ditadura de Fidel Castro. Não quero viver num mundo em que seja obrigado a escolher entre dois males. Prefiro continuar sonhando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em dado momento, a União Soviética se ocupou de Cuba, garantindo sua sobrevivência ao embargo. Com isso, o regime pôde investir correta e fartamente em educação e saúde, com resultados gloriosos. Mas de que serve ser alfabetizado se não posso ler o que bem entender? De que serve estar fisicamente bem se não posso levar meu corpo para onde bem quiser?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando a União Soviética desmoronou, deixando Cuba à deriva, o regime cubano tentou resistir por sua própria conta e o resultado foi um período de extrema miséria, cujas consequências eram o desejo de fuga em massa da população e o endurecimento do regime para conter o desagrado geral. Aí começou a história de Yoani Sánchez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Embora não seja nenhum Hermano Viana (um dos meus heróis do pensamento contemporâneo), uso a web com alguma frequência. Mas não tenho muita paciência, concentração e habilidade para estar acessando os muitos blogs interessantes ou que poderiam vir a me interessar. Não é que eu subestime a tecnologia, a tecnologia é que me superestima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim, nunca li uma só linha do blog de Yoani Sánchez, o Generácion Y. Mas, independentemente do que pudesse achar dele e dela, todos devem ter o direito de se manifestar pacificamente, em qualquer país ou circunstância, mesmo que sejam agentes do demônio (em Cuba, agentes da CIA são presos ou talvez fuzilados, não é provável que recebam passaporte e autorização para viajar). Essa é aliás uma grande contribuição da internet à civilização – ser quase incontrolável.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aí a moça vem ao Brasil e é recebida a pedra e pau. Como relataram os jornais, as TVs e o próprio senador Eduardo Suplicy, puxaram-lhe os cabelos, jogaram-lhe objetos, bloquearam sua locomoção, impediram que se projetasse o filme de Dado Galvão em que ela aparece (nem sei direito do que trata o filme, mas é uma pena que nossas associações de classe cinematográfica não se tenham manifestado a propósito dessa censura informal e selvagem contra um cineasta brasileiro).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os manifestantes, que também têm o direito de dizer o que quiserem, preferiram fazê-lo a cassetete, lembrando vulgares policiais da repressão. Como disse o senador Suplicy, deviam ter tido mais coragem de ouvir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É evidente que a autorização do governo cubano para que Yoani Sánchez viajasse, depois de suas 20 tentativas fracassadas, é sinal de um processo de abertura política gradual e de lenta transformação econômica. Estranho é que brasileiros sectários, supostamente em defesa de Cuba, provoquem uma reação que só faz prejudicar esse projeto de novos rumos no horizonte político do país. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Impedir pela força que a blogueira se manifeste, pondo em risco sua integridade física, não é só inaceitável gesto de intolerância, como também um golpe traiçoeiro nesse projeto de reaproximação de Cuba com a democracia, na convivência com o resto do mundo. É isso o que deviam desejar aqueles que ainda têm Cuba no coração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu caro senador

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues   -  8 de fevereiro de 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Parece absurdo falar de ética em pleno carnaval, uma festa dita bárbara, com fama de tudo permitir sem restrição alguma. Não é bem assim. Como o carnaval foi inventado por seres humanos em sociedade, há sempre um contrato de comportamento mútuo entre os que desfrutam dele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Experimente, por exemplo, namorar a mulher do passista de sua escola, enquanto vocês desfilam. Ou tocar o pandeiro fora do ritmo do animado bloco de sua rua. Experimente interromper o baile à fantasia para propor uma oração em memória de ente querido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nem sempre os acordos morais se baseiam nos mesmos preceitos, eles devem respeitar inúmeras circunstâncias. Mas está necessariamente fora do alcance dessas circunstâncias aquilo que chamamos de direitos humanos, um conjunto de princípios universais que devem valer para qualquer época, espaço, regime, cultura, religião, o que for.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É a incorporação desses direitos humanos em nossa cultura que nos causa horror quando lemos no jornal, como se deu essa semana, que o xeque saudita Fayan al-Ghamdi maltratou, torturou e estuprou sua filha de 5 anos, para se vingar da mulher que o abandonara. Não há interpretação de hadith (preceitos religiosos deixados pelo profeta) que justifique o direito de um pai matar a filha e que o criminoso se livre da justiça ao pagar 50 mil dólares de indenização à mãe da menina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acho que já escrevi aqui, nesse pé de página, que é uma ilusão pensarmos que todo homem nasce livre. Como qualquer outro animal social, já nascemos dependendo uns dos outros. Primeiro de nossos pais e de nossa familia, depois da tribo a que pertencemos ou da escola que vamos frequentar. E finalmente da sociedade em que estamos inseridos, com seu estado, suas leis, seus hábitos, sua cultura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A liberdade não é uma condição natural do ser humano. Ela é uma conquista que fazemos no tempo, o exercício de nosso desejo num acordo de respeito ao desejo e consequente liberdade do outro e de cada um. Segundo o Karamazov, criado por Dostoievski, a perspectiva de liberdade é uma angústia que muitas vezes não suportamos e desejamos nos livrar dela, depositando-a aos pés do primeiro tirano sedutor que aparecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Igualmente Também nada natural é a igualdade entre os homens. O mito da igualdade absoluta gerou os piores regimes que a humanidade moderna conheceu, em nome de raça, classe ou religião. Os homens são e serão sempre singulares e portanto diferentes entre si. É essa diferença que, uma vez respeitada e absorvida, faz a humanidade se desenvolver e construir uma civilização mais justa. Somos iguais perante a mesma lei moral, mas cada um inventa seu destino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas a diferença não pode ser pretexto para a opressão. Quando vivemos em sociedade, todos nós temos que ter os mesmos direitos e deveres, as mesmas oportunidades iguais para atender a nossos desejos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que nos faz aceitar esse acordo social é a possibilidade da convivência em paz, de uma certa harmonia. Como diz Edgar Morin, estamos perdidos num planeta pequeno demais, só a solidariedade é capaz de nos salvar. E o instrumento dessa solidariedade é a ética, a capacidade de viver com o outro debaixo das mesmas regras morais, uma sábia e pragmática invenção do homem que não estava nem está se encontra na natureza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Portanto, como já escreveram Zuenir, Ancelmo e tantos outros jornalistas, neste e em outros jornais, a ética, meu caro senador Calheiros, não é meio nem fim. É princípio. A ética é a melhor invenção do homem, um princípio sem o qual não se pode viver em sociedade, não se pode conviver com o outro. Essa história de ética como meio ou fim mais parece conversa entre ideólogos neo-nazistas e fundamentalistas religiosos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ética não é uma virtude teologal, senador, mas uma necessidade material que nos protege do barbarismo.  É ela que faz com que não saiamos por aí eliminando quem não amamos, roubando o que é de todos, mentindo em nome de nosso próprio proveito pessoal. Ela não nasce com cada um de nós. Como a liberdade e a igualdade, ela é uma conquista da humanidade, um avanço sobre a natureza indiferente a nós. Só o  acaso e o que ainda não sabemos, os dois inimigos irreverentes do pensamento, podem mudar isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como ser humano, sempre me escandalizo com o fracasso total do ideário politico, cultural e ético das vanguardas do século 20. Independente de equívocos de sua prática, as mais belas ideias de hippies e guerrilheiros, talvez seus representantes mais radicais, não deixaram nada na lembrança de ninguém, a não ser caricaturas de expressões como paz e amor e do sacrificio por uma mais justa sociedade humana. Mesmo os que praticaram essas ideias na juventude, esquecem-nas muito rapidamente. Será que a humanidade não deseja ser feliz?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É a ética, senador, que nos faz entender, por exemplo, o que disse em momento inspirado um outro parlamentar, o deputado Miro Teixeira, sobre o poder que o senhor preside: pior que esse Congresso, só um Congresso fechado. Também acho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Esse mundo é um pandeiro

Cacá Diegues  -  25 janeiro 2013

Há quinze dias, saudei aqui nesse cantinho de O Globo a chegada do verão. Anunciei com entusiasmo que o sol brilhava imperial no céu azul e as moças ficavam mais bonitas, esses clichês da estação. No exato sábado em que o texto foi publicado, nuvens negras cobriram o horizonte, começou a chover intermitentemente. Desde então, nunca mais o sol voltou.

Agora, quando escrevo com antecedência o texto deste sábado, o sol brilha de novo e o verão parece ter voltado a abrir sua barraca na cidade. Mas, como não posso garantir sua permanência, não quero me sentir responsável pelo fracasso do sol. Acho melhor fingir que não o vejo e sugerir ao leitor programas que não necessitem do calor de sua presença. Como por exemplo ir ao cinema.

Nesse período do ano, a oferta de filmes é abrilhantada pelos candidatos ao Oscar, uma competição à qual nossos jornais e televisões dão enorme atenção e vasta publicidade. Em cartaz, estão filmes interessantes, belos ou relevantes, como “Aventuras de Pi”, “Amor”, “Django livre”, “Lincoln”, “O mestre” e sobretudo “O som ao redor”, uma obra prima realizada pelo cineasta pernambucano Kleber Mendonça.

Este talvez seja o melhor filme brasileiro dos últimos anos, não sei bem desde quando. Com excelentes intérpretes locais, narrado de forma rigorosa e contundente, desenvolvendo uma surpreendente dramaturgia nada convencional, “O som ao redor” é um extraordinário retrato da classe média brasileira de hoje, sem discurso e sem demagogia, tendo a importância para a compreensão do país que tiveram “Central do Brasil”, “Cidade de Deus” ou os dois “Tropa de Elite”.

À disposição do público, estão também algumas comédias brasileiras de enorme sucesso popular e rejeição por parte de nossas elites intelectuais, como “Os penetras”, “Assim que a sorte nos separe” ou “De pernas para o ar 2”. São comédias modernas que sucedem aquelas sempre tratadas depreciativamente como “chanchadas”.

Parece que a palavra vem do italiano, “cianciatta”, que na linguagem popular romana significa qualquer coisa como papo furado, conversa fiada ou jogada fora. Era assim que os ítalo-paulistas da Vera Cruz e seus técnicos importados se referiam às comédias cariocas nos anos 1950. Moniz Vianna, lendário crítico do Correio da Manhã, foi quem a abrasileirou para chanchada.

Desde então, a palavra tem servido a quem quer falar mal do cinema nacional, adaptando-a através do tempo para porno-chanchada, neo-chanchada ou globo-chanchada. A chanchada já ganhou também a internet e a dramaturgia alternativa da televisão paga, como em “Porta dos fundos” ou “Meu passado me condena”, entre outros programas. Daqui a pouco, vai certamente aparecer a web-chanchada. 

O cinema não foi inventado para ser instrumento de uma ideia única que se impõe às outras. Um filme pode fazer pensar, emocionar, divertir ou simplesmente encantar. Os melhores, quase sempre, misturam bem tudo isso. Mas nenhuma lei obriga a população a ir ver esse ou aquele filme, ela vai porque é aquele o tipo de filme que escolheu ver e deseja usufruir. Só se corrige isso trocando de povo, o que às vezes parece ser o desejo de nossa direita culta.

Todo mundo tem o direito (e às vezes o dever) de querer mudar o gosto popular. Mas ninguém tem o direito de censurar esse gosto, impedir que ele se realize e satisfaça quem o procura, difamá-lo.

Mas não é verdade que só as comédias fazem sucesso junto a nosso público. Consultem as cinco maiores bilheterias do cinema brasileiro, nestes últimos vinte anos: 1º - “Tropa de Elite 2” (relevante documento político contemporâneo); 2º - “Se eu fosse você 2” (comédia sofisticada que poderia ter sido dirigida por Billy Wilder, por exemplo); 3º -  “Dois filhos de Francisco” (drama familiar e musical sertanejo); 4º - “Nosso lar” (filme de base religiosa e mística); 5º - “Carandiru” (sobre o trágico massacre na cadeia paulista). O público brasileiro compreende e adere à diversidade do nosso cinema, basta que o filme seja bom. E bem lançado.

No final dos anos 1980, durante um festival de Cannes, Ettore Scola, o grande cineasta que atravessou todas as tendências do cinema italiano desde o pós-guerra, deu conhecimento de um ensaio  em que dizia que as comédias italianas serviam muito melhor à compreesão do que era a Itália da época do que as obras primas do neorealismo. Isso não queria dizer que as obras primas do neorealismo não deviam ter sido feitas, muito pelo contrário. Quer dizer apenas que o imaginário humano pode se manifestar de várias formas e fazer história sem que o contemporâneo perceba. O que aliás é uma característica da história.

O título desse texto é tomado do livro homônimo de Sergio Augusto, lançado em agosto de 1989, que por sua vez o tomou de uma comédia carioca de 1946, um dos primeiros sucesso da Atlantida. O livro de Sergio Augusto nos ensina o que nos havia escapado de importante nas chanchadas de Vargas a Kubistchek. Um toque de que é preciso levar tudo a sério, sem perder nunca a alegria. Como num verão permanente, digamos.

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outro samba de verão

Cacá Diegues   -   11 jan 2013

O verão é a mais juvenil das estações, um adolescente cruel cheio de energia e de si, certo de que o mundo é mesmo como lhe parece ser. O verão não flue suavemente como a gentil primavera, ele explode em nossa cara, nos enche de porrada para que não pensemos em mais nada.

O verão nos submete, não nos deixa meditar como o inverno soturno, nem nos alimenta como o generoso outono e seus melhores vinhos. Ele nos exige a vida por inteiro e nos dá em troca apenas o fogo de seu sopro entontecedor. Como é que T.S. Eliot não se deu conta de que o verão é que é a mais cruel das estações?

O verão existe para que aprendamos a não subestimar a vida, a suar às gargalhadas. Aprendemos que a felicidade suprema é não ter que escolher, mas simplesmente nos entregarmos. As moças ficam mais bonitas e desalmadas no verão, nunca mais esquecemos o sofrimento com que nos ferem, embora não lembremos de seus rostos ou de seus nomes. Se a primavera produz o amor e a amizade que nos fazem imaginar o paraíso, o verão só produz paixão, uma festa no inferno.

Não tenho saudades de verões passados, tantas coisas ainda estavam mortas dentro de mim, só nasceriam mais tarde. Tenho saudade é de mim mesmo e de meu jovem esqueleto cheio de músculos. Como quando o Cinema Novo brotou num certo verão e se tornou uma luz no inverno que íamos começar a viver por tanto tempo. No verão, tudo dá certo porque não existe depois, só agora e de uma vez.

Apesar da inevitável dor, todas as esperanças florescem no calor do verão. Não sou otimista e nunca fui pessimista.  Acho que as coisas não vão dar necessariamente certo ou errado, elas dependem de nosso poder diante das circunstâncias, de nossa vontade e de nossa esperança diante do acaso que faz o mundo girar. Desde que li o dístico na porta do “Inferno”, nos versos de Dante Alighieri (“deixe de fora toda esperança, você que está entrando aqui”), me dei conta de que o inferno é a ausência de esperança.

As ondas etéreas do verão são generosas condutoras de dopamina, o neurotransmissor que libera o prazer em nosso cérebro. No hemisfério sul, onde vivemos, o verão é a porta do novo ano,  podemos curtir nossas expectativas nus na praia, bêbados a dançar em celebrações coletivas. A geografia nos abençoou. 

No hemisfério norte, o ano novo chega gelado e sombrio, as famílias se trancam em casa em torno de árvores artificiais e falsas bolas coloridas, com medo da rua e do mundo. Lá, o futuro próximo chega sem luz. Vejam, por exemplo, o verão em sol menor (literalmente!) do compositor italiano Antonio Vivaldi. Ele nunca pega fogo de verdade, abrindo com um allegro non molto e alternando em seguida o mais pungente adágio com um presto que no final se rende à melancolia. Das quatro estações, Vivaldi entendeu melhor de primavera.

O verão pode ser também injusto, omisso, dissimulado, sem coração. O sol que alegra nossas praias e parques, é o mesmo que mata de fome em outras regiões, sem respeito à semeadura, ao trabalho dos outros. O sol em nome do qual o cordelista J.Borges, nascido no sertão nordestino, canta assim: “Sou uma peça bonita / feita pelo Criador / sou quente, clareio o mundo / no sertão sou o terror / porque acabo a lavoura / desculpe, agricultor”.

O sol que mata no nordeste se ausenta covarde dos céus, nos deixa à mercê das águas torrenciais que causam destruição e morte na bela e pobre serra fluminense. Jamais dominaremos furacões, terremotos e tsunamis, a natureza está pouco se lixando para a humanidade. Por isso, temos que aprender a nos organizarmos para negociar com ela nossos limites. E punir sem piedade o dolo eventual de prefeitos, políticos e comparsas municipais que roubam os recursos que deveriam evitar essas desgraças e proteger suas vítimas do verão devastador.

Só se resiste às fúrias do verão com generosidade. Um amigo, o poeta paulistano Sergio Vaz, nos aconselha a não nos apegarmos muito aos bens materiais, porque no futuro… adeus pertences. Sigamos então em frente, serenos em busca da paz, pois daqui a menos de um mês começa o carnaval e nossas esperanças se renovarão.

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Por falar em verão, o cineasta Luciano Vidigal me conta que, nesse Natal, faltou luz no morro do Vidigal, exatamente como no episódio “Acende a luz”, de Luciana Bezerra, o último do filme “5XFavela, agora por nos mesmos”. Mas dessa vez, segundo ele, os policiais do posto de UPP local ajudaram os moradores a obrigar os funcionários da empresa de luz a permanecer no morro, até que ele se iluminasse para as festas.

E por falar em cinema, o estranho governador de Brasília contratou uma empresa de Cingapura para cuidar, pelos próximos 50 anos, do desenvolvimento da capital do país, criada por dois gênios nacionais, Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Além de burra, essa medida é uma ofensa aos nossos arquitetos e urbanistas, bem como à própria cultura brasileira. É mais ou menos como contratar o melhor diretor coreano para refilmar, digamos, “Deus e o diabo na terra do sol”. Não podemos permitir que isso aconteça, em verão algum de nossas vidas.

 carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

Do maracatu à internet

Cacá Diegues  -   29 nov 2012

 

O presidente da RioFilme, Sérgio Sá Leitão, é o novo secretário de cultura do município do Rio de Janeiro, recentemente nomeado pelo prefeito Eduardo Paes. Ele vai, muito oportunamente, acumular o velho e o novo cargos. Isso já aconteceu com outras secretarias, em outras administrações.

Essa acumulação pode ser um benefício para todos, já que Sérgio Sá Leitão tem sido um eficiente presidente da empresa de cinema do município e seria um risco substitui-lo agora. Bem como é importante que um gestor cultural atualizado como ele assuma a secretaria responsável pela cultura carioca em geral.

Sérgio Sá Leitão deu duas entrevistas recentes, já provocadas por sua nomeação, para os jornais O Globo e Valor. Nelas reitera suas ideias sobre a gestão da cultura brasileira, afirmando que o “estado deve dinamizar e não inventar a cultura”. Ou seja, a produção cultural é uma prerrogativa exclusiva da sociedade e de seus cidadãos em liberdade. Cabe ao estado criar as condições necessárias para essa prática, apoiando ao mesmo tempo a produção de repercussão popular que cria uma economia e a inovação artística que não a deixa estagnar.

A liberdade de cada um não serve para nada, se não vier acompanhada de oportunidade concreta. Não adianta existir um gênio cheio de ideias formidáveis, se não lhe for dada a oportunidade de realizá-las, de torná-las produto real. No nossa caso, essa oportunidade deve ser estendida a todas as camadas da população carioca, sobretudo às mais populares que nem por isso são menos inspiradas e competentes. 

Esse conjunto de fatores que gera a oportunidade, que permite a existência de uma cultura própria, representativa e criativa, não pode ser uma responsabilidade apenas do estado. Ela é também da sociedade que deve desenvolver e fomentar os meios de produzi-la e divulgá-la. Durante muitos séculos, em todas as áreas da vida pública brasileira, acostumados a um estado disfarçada ou ostensivamente autoritário, entregamos a ele a exclusividade do rumo de nossas vidas. Está mais do que na hora de corrermos o risco de nossas próprias decisões.

Isso significa também acostumarmo-nos à convivência com a diferença, alimentarmos a diversidade e gostarmos dela, não como uma fuga de nossa responsabilidade de escolher, mas como a afirmação democrática do valor do outro. Há sempre uma possibilidade, por mais longínqua que seja, de o outro ter mais razão do que nós.

A RioFilm existe há 20 anos. Ela foi uma precursora da chamada “retomada” do cinema brasileiro, no início dos anos 1990, um momento em que o Brasil produzia 1 ou 2 filmes por ano, vítima do desastre cultural que foi o governo Collor.

De lá para cá, graças aos esforços de seus diferentes gestores, ela se consolidou produzindo ou distribuindo filmes que fizeram sucesso nos cinemas ou foram consagrados pela crítica e pelos festivais. Nesses últimos quatro anos de presidência de Sérgio Sá Leitão, confirmou essa posição se tornando uma empresa lucrativa para o município e, ao mesmo tempo, promotora de grandes sucessos artísticos. E assim deve continuar.

Mas tanto no plano do mercado, quanto no do conhecimento, da arte e da inovação, ambos indispensáveis ao conjunto do cinema carioca, não se pode viver de eventos intermitentes, sem prazo e sem critério precisos. No cinema, esses eventos (editais, concursos, festivais, etc.) são muitas vezes necessários e bem vindos, mas nunca capazes de produzir uma economia criativa consistente e permanente.

É isso o que Sérgio Sá Leitão propõe em suas entrevistas, ampliando essa ideia, a partir de sua presença na secretaria de cultura, a outras atividades artísticas tradicionais, além do audiovisual. Mas também, como está na hora de fazê-lo, introduzindo uma concepção mais abrangente e mais contemporânea de cultura como criação e comportamento, indo do teatro à moda, da música à gastronomia, do cinema ao design, do maracatu à internet.

Isso tem uma importância a mais, quando lembramos que a cidade e o país se preparam para receber grandes acontecimentos planetários como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Podemos muito bem imaginar o quanto isso pode nos custar de trabalho para que esses acontecimentos deixem um claro legado cultural, em produção e divulgação, aqui e no exterior.

Pelo que li no jornal, a secretaria que Sérgio Sá Leitão passa a ocupar vai se chamar agora Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa. Quando o mundo já ensaia uma produção cultural pós-industrial, vamos enfim, pelo menos no Rio de Janeiro, tentar inventar nossa economia criativa. Antes tarde do que nunca.

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Vou sair em (merecidas!) férias, só volto a escrever aqui a partir do dia 12 de janeiro, o segundo sábado de 2013. Um bom Natal e excelente ano novo para todos.

carlosdiegues@uol.com.br

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Metendo a colher

Carlos Diegues   -  16 nov 2012

Na última eleição municipal, todos os partidos políticos do país se declararam vencedores. E isso é muito bom, não se tem conhecimento de nenhuma democracia de partido único. Entre os resultados mais comemorados, o PT ganhou em São Paulo, o PMDB no Rio, o DEM em Salvador, o PSB no Recife, o PSDB em Belo Horizonte. Até o PSOL teve seu quinhão em Macapá.

É bom saber também que novas lideranças surgiram nessas eleições, ocupando o espaço cansado da geração que veio do combate à ditadura. Durante o regime militar, nos acostumamos com a pregação da unidade contra o fascismo no poder, com a consequente necessidade de abrir mão de certos ideais específicos em nome dessa unidade. 

Mas, sendo dinâmica e humana, a democracia é desconfortável, só se realiza quando cada um de nós  diz sempre o que pensa de tudo, o que gera conflitos inevitáveis e indispensáveis. Na democracia, a unidade política é sempre conservadora, uma porta aberta ao autoritarismo. Nela, o futuro está na consequência das crises provocadas pelas divergências.

Novos temas e novas interpretações de nossos problemas hão de surgir ao longo da emergência política de Aécio Neves, Eduardo Campos, Fernando Haddad, Eduardo Paes, ACM Neto, dos vencedores assim como dos que perderam mas marcaram a presença de suas ideias durante a campanha.

Marta Suplicy também foi uma vencedora nessas eleições, com seu claro e talvez decisivo empenho na eleição de Haddad. A seu longo histórico político, ela somou o que lhe cabe na vitória do PT em São Paulo. Podemos dizer portanto que o Ministério da Cultura nunca teve titular com tanto poder político.

Sendo assim, essa é uma rara oportunidade para que a administração pública da cultura brasileira resolva certas questões estruturais, pendentes desde que o ministério foi criado, em 1985. Os ministros anteriores podem ter se destacado (uns mais, outros menos) em ações pontuais, mas nenhum deles conseguiu montar plataforma consistente e permanente para a gestão da cultura no país. Talvez até porque nem todos os presidentes deram ao assunto a importância que ele devia ter. Alguns pilares dessa plataforma circulam por aí, nos debates corporativos e na forma de projetos de lei.

O Vale Cultura, mecanismo similar aos de Transporte e Alimentação, é o mais democrático e igualitário modo de estimular a produção cultural. A lei que o cria se encontra no Congresso desde a gestão de Gilberto Gil e, se aprovada, coloca no mercado consumidor de produtos culturais uma imensa parcela da população que nunca teve acesso a eles.

O Procultura, revisão oportuna da Lei Rouanet, consolida a experiência de incentivos fiscais, devolvendo ao estado certas obrigações das quais ele havia se alienado. Outra revisão necessária, precisamos de uma nova Lei de Direitos Autorais, como fator civilizatório, que não beneficie apenas, em nome do “progresso digital”, os grandes e poderosos intermediários do consumo cultural.

Diferentemente desses projetos, o Marco Civil da internet está para ser votado ainda este mês na Câmara dos Deputados, como PL 2126. Seu artigo 15 determina maliciosamente que os provedores estariam isentos de retirar da internet o conteúdo ilegal protegido pela Lei de Direito Autoral, até receber ordem judicial específica.

O deputado Alessandro Molon, relator do projeto, introduziu em boa hora um parágrafo 2º naquele artigo, afirmando que “o disposto nesse artigo não se aplica quando se tratar de infração a direitos de autor ou a direitos conexos”, impedindo assim o roubo virtual de conteúdo.  Agora, em nome de uma falsa liberdade, lobbistas dos provedores têm pressionado os congressistas na tentativa de retirar da lei o parágrafo sanitário de Alessandro Molon.

A liberdade absoluta na internet acaba onde começam os direitos de cada um. Não se pode, em nome da distribuição igualitária de cultura, prejudicar os cidadãos que vivem desse oficio. Seria o mesmo que admitir que a liberdade de fabricar armas autoriza o uso delas para assassinatos ao gosto do freguês.

Se é para socializar a economia, vamos então começar pelo básico, acabando com a fome no país ao permitir ao cidadão entrar no supermercado e tomar a parte que lhe cabe nessa socialização. Até chegarmos à sofisticação que o autorizaria a ir a uma revendedora de automóveis exigir de graça o BMW a que tem direito.

Se a ministra da cultura conseguir resolver essas questões infra-estruturais, estará realizando um trabalho de base que não foi possível ou não se quis fazer nas quase três décadas que antecederam à posse de Marta Suplicy no MinC.

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Aproveito o assunto cultura, para sugerir ao leitor que aproveite o fim de semana e o próximo feriado para ir ao cinema ver “5XPacificação”, um filme sobre a politica das UPPs nas favelas cariocas, realizado por jovens cineastas moradores dessas comunidades. Um assunto urgente, tratado com o cuidado de ouvir todos os envolvidos, dos moradores ao asfalto, dos bandidos aos policiais, dos marginalizados às autoridades que criaram o programa. Você entra na questão das UPPs por todas as portas e janelas escancaradas, em boa cinematografia democrática.

carlosdiegues@uol.com.br

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As ruas também são nossas

Carlos Diegues   -   1º novembro 2012

À exceção daquele cabeção enfiado na praia de Botafogo, gosto muito dos enfeites artísticos que Marcello Dantas espalhou pela cidade, através do projeto OiR (Outras ideias para o Rio).

O “Radar” montado por Ryoji Ikeda na praia do Diabo, por exemplo, torna mais luminoso e intrigante nosso prazer de estar numa praia carioca. Assim como as “77 milhões de pinturas”, projetadas por Brian Eno sobre os Arcos da Lapa, são um exercício de misteriosa beleza, resultado do brilho contemporâneo da mente humana aplicado a signo arcaico da cidade.

Me entusiasmei particularmente com o “Labirinto de Vidro”, instalação de Robert Morris na Cinelândia, em frente ao Teatro Municipal. Trata-se de uma obra de arte e entretenimento, no meio do caminho por onde passam os que trabalham no centro da cidade. Como o escritório de nossa produtora é por ali mesmo, vez por outra passo em frente ao labirinto e, estando com tempo, admiro-o e usufruo dele mais um pouco.

Outro dia, deparei-me com o labirinto destruído. Duas de suas paredes de vidro haviam sido estilhaçadas, inviabilizando a fruição de seu uso. Um guarda municipal percebeu minha perplexidade e veio informar que, no sábado anterior, um bando de rapazes bêbados havia promovido o apedrejamento da obra, certamente como clímax da farra do fim de semana. Fiquei chocado.

Talvez mais do que a perda da obra de Robert Morris, incomodou-me imaginar aqueles jovens em ação, bando de vândalos a destruir, por puro e perverso prazer, um objeto público que, de certo modo, também pertencia a eles. 

Temos uma velha tradição de desrespeito pelo espaço público, um tipo de vandalismo social que nos é relatado pelos cronistas de nossa história, a descrever a imundície de nossas ruas e os costumes pouco civilizados de nossa população urbana. Desde sempre, acostumamo-nos a usar o espaço público como se não tívessemos nada a ver com ele, como se não fosse nosso. Como se outro alguém que não somos nós fosse o responsável por ele e que dele trate de cuidar.

Esse comportamento tem a ver com nossa permanente e histórica dependência do estado, com nossa condição de sociedade frágil, condenada à submissão ao estado forte e poderoso. Um estado que, por ter todo direito sobre nós, tem também o dever de cuidar de nós, seja qual for nossa classe social ou nossa posição como cidadãos.

As favelas do Rio de Janeiro sofrem com a falta de saneamento básico e de coleta de lixo, dever do estado para com seus cidadãos. Mas é comum entrarmos nas casas dessas comunidades e encontrá-las limpas, asseadas, perfeitamene arrumadas, enquanto no exterior, no chão do beco ao lado, se acumulam os restos apodrecidos de seu consumo.

Assim como é comum, nas artérias do asfalto, vermos maços de cigarro usados, latas vazias de bebidas, restos de lanches, serem atirados de automóveis caros e sofisticados, a sujar ruas e avenidas, vias públicas imundas que nos levam a lares de limpeza impecável. Como se só a casa fosse nossa, com a rua não temos nada a ver.

Em todas as classes sociais, desrespeitamos sistematicamente as leis que regem o uso do espaço público. Na praia, jogamos altinho entre banhistas e levamos nossos cães para fazer cocô à beira mar, não importa que tenhamos passado por tantas placas que nos anunciam e explicam a proibição. Se o espaço púbico não é nosso, destruimos sua organização e uso, como os vândalos destruiram o “Labirinto de Vidro”. Não temos nada a ver com essas perdas.

Lei não é opressão, regras são fundamentais para a existência de civilização. Como disse recentemente a juíza Carmem Lucia, do STF, a política existe para que não haja guerra. E as leis são o resultado da política, das negociações realizadas pela pólis segundo a conveniência da urbe, um arranjo social para que todos tenham os mesmos direitos e deveres, sem primazias ou preferências.

Cresci e vivi grande parte de minha vida sob a Guerra Fria, quando os interesses das duas nações em choque vinham antes das necessidades dos outros povos. O mundo entrou em pânico, entregou-se à paranóia porque, junto com a invenção da energia nuclear que melhoraria nossas vidas, as duas potências inventaram também a bomba atômica que acabaria com todos nós, num ato de vandalismo terminal.

Gosto do conhecimento, de conforto e de viver mais; portanto adoro o progresso. Mas entre o progresso e a civilização, vou ficar sempre com a civilização.

Em tempo. Dias depois de sua destruição, voltei à Cinelândia e vi que o “Labirinto de Vidro” havia sido  reconstruido pelas autoridades responsáveis. Tanto melhor. Mas a lembrança da violência destrutiva dos rapazes bêbados ficou comigo, como um exemplo do barbarismo com o qual precisamos acabar.

carlosdiegues@uol.com.br

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Avenida com vista pro Brasil

Cacá Diegues   -  19 out 2012

Quando você estiver lendo esse texto, já saberemos quem matou Max e quem provavelmente matará Santiago. Essa trama final de “Avenida Brasil”, muito bem construida, garantiu, nos últimos capítulos da novela, o interesse cada vez maior do público. Mas não foi o macete de conto policial que fez a glória dela.

A partir da segunda metade dos anos 1960, as novelas se impuseram como nossa cultura popular por excelência. Mas elas não se ofereciam como alternativa cultural ao golpe militar e à ditadura que veio com ele, nem de longe eram um instrumento capaz de contrariar a opressão então instalada no país. A novela era uma dramaturgia de parque de diversões, onde as emoções são intensas mas seu conjunto nada propõe sobre o estado do mundo. Vive-se apenas o frenesi de cada brinquedo mais ou menos excitante.

Ansiosa por discursos tautológicos e gestos significativos que desorganizassem o poder, não era isso o que a jovem inteligência do país estava a desejar naquele momento. A novela tornou-se o principal objeto das críticas ao conformismo, à alienação e até mesmo ao colaboracionismo.

Não demos muita atenção ao momento em que a geração do Centro Popular de Cultura, órgão de ação cultural da União Nacional dos Estudantes, a UNE perseguida, destruida e proibida pelo golpe de 1964, aproximou-se da televisão. Esse encontro gerou uma dramaturgia que somava a tradição do folhetim (tão querido dos brasileiros desde o século 19, de José de Alencar a Artur de Azevedo, de Machado de Assis a Lima Barreto), ao melodrama do moderno cinema americano e ao populismo cepecista cuja evolução havia sido interrompida no auge pelo golpe.

Levamos décadas para começar a compreender o papel e o sucesso de nossas telenovelas, essa sopa de caldo grosso, de romantismo oitocentista com sacadas hollywoodianas, de chanchada com cepecismo militante. A  televisão se livrava do domínio do drama pastoril caribenho e dava oportunidade a seus novos agentes de substituir o velho “realismo socialista” por um novo e moderno “realismo capitalista”. Nascia ali o maior fenômeno de cultura popular da história do Brasil e possivelmente da América Latina.

“Avenida Brasil” é o apogeu dessa transformação, a consolidação desse contundente “realismo capitalista” nascido dos rumos que o país tomou nesses últimos vinte e tantos anos de democratização dentro de uma economia de mercado e de certa mobilidade social.

João Emanuel Carneiro, com a ajuda de seus excelentes diretores, desmonta as aparências, em seu texto ninguém nunca é o que parece ser, numa espécie de descontrução do caráter formal dos membros de nossa sociedade. Há sempre uma contingência superior capaz de justificar o malfeito e nos fazer simpatizar com aqueles que o praticam. O mundo de “Avenida Brasil” é tão incerto e inesperado quanto a própria realidade contemporânea em movimento, onde os determinismos perdem a credibilidade para o acaso e a graça. Uma vitória do quântico sobre o relativo, onde o visível é apenas a parte menos interessante do real.

Em “Avenida Brasil” não há revolta, muito menos revolução; só existe o desejo de mobilidade social e as consequências dessa novidade. Num país por séculos dominado por uma mesma elite super-minoritária, melhorar de vida assusta os velhos donos do poder e produz um novo empreendedorismo nas camadas populares, outrora condenadas à submissão. Personagens de classe média, os donos de pequenos negócios, as empregadas domésticas, os suburbanos do Divino e até mesmo a emergente família de Tufão, só pensam nisso.

Não sou espectador constante de novelas, tenho preguiça de acompanhar dramas tão longos, capazes de durar meses. Mas quando essa novela começou, quando vi as primeiras cenas no lixão e seu contraponto na mansão de Tufão, entendi que estava diante de alguma coisa nova, que parecia misturar Charles Dickens com Lima Barreto, Victor Hugo com Nelson Rodrigues, num clima de exacerbação que lembrava a melhor tradição do teatro e do cinema brasileiros em seus melhores momentos.

Nesse encontro de Scrooge com a Bovary, o destino de cada um não se constitue a partir de nossa vontade moral, mas a partir da força mesma das coisas, ainda que de modo delirante e trágico, quando se busca o direito à felicidade. Uma dramaturgia capaz de provocar simpatia pelos “vilões” e até certo enjôo dos “good guys”. Ou o contrário: o que fazer com o masoqusita bem comportado, ele vai pro merecido céu ou pro inferno onde terá prazer?

O pensador contemporâneo Tzvetan Todorov, citando Oscar Wilde, diz que aquele que ama quer sempre matar o objeto de seu amor.  “Agora posso morrer”, diz ele, “talvez a taça da vida esteja plena demais de prazer para ser suportável”. Como Carminha.

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Aproveitando o tema do audiovisual. Vamos celebrar, na próxima terça-feira, o décimo aniversário da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, dirigida por Irene Ferraz e apoiada por entusiastas como Eliezer Batista. Com 380 alunos nesse semestre, a ECDR já formou mais de 3.000 alunos vindos de todos os estados do Brasil, quase sempre de periferias e zonas populares de suas cidades. Na ECDR, está-se formando uma nova geração de cineastas, homens de televisão e internautas, para o futuro do audiovisual brasileiro.

 

carlosdiegues@uol.com.br

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Porque voto assim

Cacá Diegues    -    4 out 2012

Não me canso de imaginar que, daqui a um tempo, quando as paixões políticas forem outras, nossos pensadores serão unânimes em considerar esses últimos vinte anos um período de ouro de nossa história republicana. Dos dois anos de Itamar Franco aos dois de Dilma Roussef, passando pelos dezesseis divididos entre Fernando Henrique e Lula, o Brasil consolidou sua democracia, estabilizou a moeda, fez crescer a economia, aumentou o consumo interno, iniciou relativa distribuição de renda, preparou-se para um futuro onde tudo isso pode ser multiplicado.

Nada acaba por se resolver, muito menos na velocidade necessária e desejada. Segundo estatística da ONU, somos o quarto país mais desigual da América Latina, esse subcontinente tão desigual. O problema número um do Brasil é o destino de seus 22% de habitantes na linha de pobreza ou dos seus 16 milhões de cidadãos miseráveis. Aliás, melhor dizendo, o Brasil é que é o problema deles.

Só se supera essa calamidade com justa distribuição de renda e oportunidades iguais dentro da liberdade conquistada. FHC começou esse processo acabando com a inflação, a serpente devoradora do salário do trabalhador. Lula levou-o adiante melhorando a vida dessa hoje mitológica classe C emergente de que tanto falam os jornais. E Dilma segue o mesmo rumo, vai em frente lá do jeito dela.

Tudo isso tem que ser levado em conta, quando estamos diante de eleições democráticas como essas de domingo, com campanhas sem inibições de qualquer origem, condições de disputa relativamente semelhantes para cada candidato e urnas eletrônicas que garantem a vontade do eleitor e o segredo de seu voto (hoje, comprar voto é um mau negócio!). Mas eleições acabam por nos envolver no turbilhão de discursos que geram disputas ideológicas, muitas vezes retóricas, voluntaristas e intolerantes.

Ideologias são quase sempre formas laicas de religiosidade. Correspondem a uma crença segundo a qual a história do homem é como um trem preso a trilhos, a avançar numa direção precisa da qual não tem como escapar. O papel que nos cabe é apenas o de acelerar a marcha do trem para chegarmos mais depressa ao paraíso prometido. No fundo, essas ideologias não diferem muito das sempre invocadas (pelo outro lado) leis do mercado, tudo está entregue a um deus ou a um diabo quaisquer, muito acima de nós, fora de nosso alcance.

Enquanto não descobrimos que a história, afinal de contas, não passa de uma senhora bêbada a ziguezaguear por aí, continuaremos a produzir, em nome de nossas certezas, os profiláticos genocídios de sempre, a eliminar os que não se parecem conosco. Mas eu não quero ninguém me dizendo o que devo pensar, que filme devo fazer ou que samba devo cantar.

Uma prefeitura municipal deve servir, acima de tudo, para aliviar as nossas dores, oferecendo os serviços que a cidade tem obrigação de nos prestar, a todos os seus cidadãos de qualquer origem, sem promessas que não podem ser cumpridas em sua instância.

Segundo levantamento de O Globo, Eduardo Paes realizou 67% do que prometeu quando candidato. Isso é mais de dois terços de um programa nada modesto. Quem anda por aí, não pode deixar de enxergar os benefícios recebidos pelo Centro, Zona Norte e subúrbios da cidade, melhorias antes exclusivas da Zona Sul.  O jornalista Janio de Freitas, um olhar carioca instalado em São Paulo, escreveu outro dia que “os motivos da vantagem (nas pesquisas eleitorais) de Eduardo Paes são visíveis, palpáveis, e têm uma lógica independente dos habituais arranjos políticos”.

Não posso ignorar um candidato que, em quatro anos de governo, realizou quase tudo que prometeu e ainda reconhece com sinceridade aquilo que deixou de fazer. Um candidato que, durante quatro anos à frente da administração da segunda maior cidade do país, nunca sofreu de ninguém qualquer acusação de “malfeitos”. Não posso ignorar quem equipou e continua a equipar a cidade de modo a torná-la mais dinâmica, mais confortável, mais bonita, mais alegre para todos.

Como dizia mestre Florestan Fernandes, vamos começar por colocar sobre a mesa da democracia os que estão embaixo dela. E, se possível, ajudá-los a viver em cidades mais humanas, como está tentando voltar a ser o Rio de Janeiro. Gosto do que canta o sambista de jingle do candidato Eduardo Paes, “eu estou com quem alegrou essa festa”.

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Um mito da inteligência

Cacá Diegues  -  21 set 2012

Se ainda estivesse vivo, meu pai estaria fazendo hoje cem anos de idade. Em Maceió, sua cidade natal, Rio de Janeiro, Fortaleza, São Paulo, Recife e por aí afora, universidades, academias, grêmios e outras instituições têm comemorado seu centenário calorosamente. A Academia Brasileira de Letras, por exemplo, organizou há poucos dias mesa de debates sobre a contribuição dele às ciências sociais.

Até 33 anos de idade, Manuel Diégues Jr. viveu entre Maceió e Recife, tendo sido nesse período assistente de Gilberto Freyre, seu mestre de sempre, e exercido cargos no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Em 1946, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde moraria pelo resto de sua vida.

Diégues Jr. foi o inventor de uma espécie de humanismo regionalista, pesquisando com ciência e afeto o folclore, a cultura e os costumes do nordeste gerados pelas relações de produção locais. Leitor e discípulo de Franz Boas, Oswald Spengler e Arthur Ramos, ele mapeou a cultura e as ideias condicionadas por essas relações de produção, ignorando os determinismos então em voga.

“O Banguê nas Alagoas” (1949), “Etnias e culturas” (1952), “Regiões culturais do Brasil” (1960), “O Brasil e os brasileiros” (1964), “A Africa na vida e na cultura do Brasil” (1977), são alguns de seus muitos livros pesquisados e escritos com uma serena angústia de entender o país que amava tanto. Autor de uma infinidade de ensaios e artigos, participou, como relata o sociólogo Marcos Vasconcellos Filho, “de conferências, seminários, jornadas, mesas, simpósios, colóquios, encontros e assembléias pelos estados brasileiros e também em países como Argentina, Estados Unidos, França, Bélgica, El Salvador, Japão, Moçambique, Angola, Portugal, Espanha, Chile, Porto Rico, Cuba, Itália e México”.

No Rio de Janeiro, Diégues Jr. fundou, com o padre Fernando Bastos Ávila, a escola de sociologia da PUC, onde foi professor até assumir o Departamento de Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura, embrião do futuro Ministério da Cultura criado por Tancredo Neves. Entre uma coisa e outra, dirigiu o Centro Latino Americano de Pesquisas em Ciências Sociais da UNESCO, o mais importante do continente.

No DAC, durante o governo de Ernesto Geisel, foi ele quem iniciou o processo de “abertura democrática”, prometida pelo general-presidente, na área da cultura. Em plena luta contra a ditadura, duvidei que pudesse vir a ser bem sucedido em suas boas intenções. Ele me respondeu que eu podia duvidar à vontade, mas era preciso agir rápido - se a abertura fosse iniciada pela cultura e se consolidasse nesse campo, ninguém mais teria forças para interromper o processo. Dois anos depois, em 1976, num país que começava a caminhar para a democracia, fiz “Xica da Silva” em sua homenagem.

Não considero que a modéstia seja necessariamente uma virtude, muitas vezes ela serve para proteger os medíocres ou como armadilha armada pelos arrogantes. Mas meu pai, homem doce e sereno, era de uma modéstia comovente. Ou às vezes irritante.

Do nascimento do Cinema Novo à agonia da Embrafilme, eu já tinha mais de vinte anos de cinema brasileiro, já tinha  feito uns dez filmes e viajado com eles pelo Brasil e pelo mundo, quando descobri que meu pai tinha tido alguma coisa a ver com o passado de tudo isso. Segundo o livro “Panorama do Cinema Alagoano”, de Elinaldo Barros, publicado em 1983, Manuel Diégues Jr. era um dos sócios da empresa produtora de cinema Alagoas Film, ao lado de Aurélio Buarque de Hollanda, Guedes de Miranda, Jaime d’Altavilla e José Lins do Rego.

Em novembro de 1930, a Alagoas Film fora formada por jovens intelectuais para dar suporte à produção  de “O bravo do nordeste”, filme que Edson Chagas e Guilherme Rogato, líderes do ciclo regional do Recife iniciado com “Aitaré da Praia”, iriam fazer narrando uma história de amor e roubo no sertão alagoano. Ele nunca me contara esse capítulo de sua biografia, mesmo quando, por uma dessas inexplicáveis coincidências, eu viria a fazer “Joanna Francesa” em União dos Palmares, a mesma cidade em que, mais de quarenta anos antes, “O bravo do nordeste” fora rodado.

Aqui mesmo, em O Globo, Roberto da Matta escreveu que “Diégues foi um pluralista cultural antes do seu tempo e um  anti-radical no tempo em que a moda era ser intolerante”.  Em trecho de “Etnias e culturas”, Diégues Jr. diz que a pluralidade e a diversidade culturais em nosso país não deixarão nunca que criemos uma cultura nacional única e indissolúvel. E talvez, acrescenta ele, seja essa a nossa principal contribuição à civilização humana.

Como antropólogo e como poeta bissexto, ele se interessava muito pela literatura de cordel nordestina. Quando fez 70 anos, o cordelista Jota Rodrigues, em reconhecimento à sua dedicação ao gênero, compôs um longo poema de 31 estrofes, “Nascimento e Vida do Sociólogo Manuel Diégues Jr.”, cuja primeira delas diz: “Peço rima e inspiração / Ao rei dos mares Netuno / E às bênçãos de São João / O festeiro do mês de junho / Pra descrever a existência / De um mito da inteligência / Manuel Diégues Júnior.”

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Somos o que somos

Cacá Diegues – 6 set 2012

Ontem de manhãzinha, numa calçada de Ipanema, passei por um morador de rua que dormia à porta de uma sofisticada filial da Aliança Francesa, coberto por uma bandeira do Brasil velha, suja e rota.

Lembrei-me de outra cena em que, anos atrás, eu, Renata e uma multidão voltávamos de trem de um show inesquecível dos Rolling Stones, no Shea Stadium, na periferia de Nova York. Ao chegar na Grand Central Station, no coração de Manhattan, para alcançar o ponto de taxi e voltar ao hotel tivemos que pular por cima de corpos  de homeless (sem lar) que dormiam protegidos do frio por cobertores rasgados e da chuva por imensa marquise enfeitada de bandeiras americanas.

Pensei em como seria fácil desmoralizar qualquer uma das duas nações, apenas tirando fotos dessas cenas. A de Ipanema, então, seria um enorme sucesso na desconstrução do esforço que possamos fazer para nos tornarmos um país decente.

Não quero que em meu país existam pessoas que, não tendo onde se abrigar, vivam pelos meio-fios, a céu aberto. Tenho a obrigação de saber que isso não é humano, que é preciso sempre fazer alguma coisa para corrigir o que é ruim. Mas não tenho o direito de ignorar ou subestimar o esforço que muitos brasileiros fazem para que isso não aconteça mais.

Na última semana, passou despercebida importante notícia vinda de Florianópolis, Santa Catarina. Isadora Faber, de 12 anos, montou uma página na internet para criticar sua escola, revelando fatos e fotos que comprovam erros, equívocos e fragilidades da instituição de ensino. Sua página hoje tem mais de 60 mil seguidores, provocando a ira dos responsáveis pela escola que a ameaçam com represálias. Mas os pais da menina deram-lhe todo apoio, assim como grande parte das famílias de seus colegas. Isadora persevera em sua campanha.

Todos os debates e disputas são saudáveis, a unanimidade é sempre conservadora e nada criativa. A harmonia absoluta é um sonho dos homens que não conhecem sua própria natureza (nem a própria Natureza), não sabem que só avançamos na crise. Nenhum leitor da página de Isadora na web continuará sendo o mesmo que era antes de descobri-la.

No julgamento do Mensalão, o Supremo Tribunal Federal também  nos mostra que a crise pode nos fazer descobrir a justiça. Não interessa aqui de que lado político estamos; mas sim de saber que o STF está reconstruindo a independência entre os poderes, quando seus juizes não se submetem a quem os nomeou. Desde a intensa disputa entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandoski ficamos sabendo também que é indispensável uma democracia corporativa que evite a complacência ou o linchamento, duas formas inadmissíveis de comportamento nada civilizado.

Do mesmo modo, sempre que temos eleições no país, começam as lamentações dos finos e altivos, a tentativa (às vezes involuntária e ingênua) de desmoralizar o método democrático em que todos têm o direito e a oportunidade de se expor ao eleitor.  Enquanto nos Estados Unidos, o berço moderno da democracia, o único e exclusivo combustível da campanha eleitoral é o dinheiro, aqui todos os candidatos têm as mesmas chances.

Em vez de discutirmos o aperfeiçoamento do método, como por exemplo propondo tempo igual para todos os candidatos e partidos, eliminando as agremiações insignificantes (muitas vezes de aluguel), preferimos desmoralizá-lo, desmoralizando quem se utiliza dele.

Que é que tem se um é banguela e o outro zarolho? “Batzefa” aparece na televisão vestida numa fantasia de Batman, com enorme margarida na cabeça. “Tio Peter Pan” evoca o herói infanto-juvenil. “Eno” diz que “faz bem”, como o sal de fruta. “Bodão” berra como um cabrito. “Tyeta do Forró” carrega flores e um sorriso permissivo. “Charles Henriquepídia” deve saber de tudo (“Ah, moleque!”, ele proclama). Pastores, apóstolos e ministros prometem salvar o Brasil do demônio. Filhos levam ao programa seus pais e mães como cabos eleitorais – lá estão Jimmy Pereira e mãezinha, o Junior da Lucinha, os Bolsonaro, o de Cidinha Campos diz que é tão bom quanto ela, Wagner Montes pede voto para o seu rebento (“Escracha!”).

Esses candidatos correspondem ao que somos. Vá na arquibancada do Engenhão, na Feira de São Cristóvão, no novo Parque de Madureira, no calçadão de Copacabana em dia de domingo – eles estão lá, em pessoa ou representados por seus iguais. E muitas vezes dão certo, como deram certo Romário, o craque da seleção, e Jean Wyllys, a estrela do BBB, votados como caricaturas e hoje reconhecidos como excelentes congressistas.

Esses candidatos que estão aí são o que fizemos do país, com todos os seus formatos e cores. A eleição é no Brasil e vocês querem candidatos suiços?

Não vamos resolver os problemas do país com preconceito diante de seus sintomas. Ao longo de nossos quatro séculos de existência, sempre tivemos um estado sufocante e autoritário, e uma sociedade frágil e submissa. Mais que frágil e submissa, uma sociedade com grande maioria de famintos. Eleições regulares e periódicas serão sempre uma esperança de que ela se expresse.

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Uma civilização para campeões

Cacá Diegues   -   24 agosto 2012

Outro dia, lendo Hélio Schwartsman sobre as Olimpíadas, na “Folha de São Paulo”,  aprendi que um atleta não pode pensar. Isso não quer dizer que ele tem que ser burro, mesmo que simpático como o Adauto da “Avenida Brasil”. Citando o livro de John Coates, “The hour between dog and wolf” (“A hora entre cão e lobo”), Schwartsman nos informa que, operando no nível da consciência, nosso cérebro é lento demais. O cérebro do atleta resolve esse obstáculo para bater recordes “atuando no que se chama de nível pré-atencional”, anterior à consciência. Isso é, mandando-a às favas.

Como tenho muita curiosidade pela neuro-ciência e me importo muito com ela, gostei da explicação e vou procurar o livro citado para aprender um pouco mais sobre o assunto.

Mas essa não deve ser a causa única dos grandes sucessos esportivos, senão qualquer um que tivesse esse “nível pré-atencional” mais apurado seria um permanente e invencível campeão, o que não existe no mundo dos esportes. Não me incomodo com essa perda de prestígio da consciência, há muito tempo que estou convencido de que os grandes feitos humanos nem sempre se dão no reino dela. A descoberta da razão aperfeiçoou nossa visão de mundo, mas o extremismo iluminista já nos fez sofrer muitas decepções e perder tempo com certezas incontroláveis.

Para ganhar as Olimpíadas, não basta proteger nossos melhores atletas com Bolsa Ouro ou coisa semelhante. É preciso, antes de qualquer coisa, dar condições à sociedade brasileira de criá-los, de dar a luz a eles. Aí então os campeões poderão surgir naturalmente, no seio de uma população de meninos e meninas bem alimentados, cheios de saúde, vivendo em áreas saneadas, educados para a sã competição.

Ganhadores de medalhas, como os Estados Unidos, fazem isso através do patrocínio privado às atividades esportivas em escolas e universidades. Ou então, como a China e a Grã-Bretanha, o fazem com programas e políticas de estado (no caso desses dois países, políticas e programas bem diferentes um do outro). Eis aí os três primeiros colocados no pódio final das medalhas olímpicas.

Diante disso, nossos pobres atletas, vindos em geral de camadas desamparadas da sociedade brasileira, com quatro séculos de fome e miséria, até que se comportaram com dignidade, com desempenhos muitas vezes comoventes e resultados acima do que tínhamos o direito de esperar deles. Ou acima do que o país fez deles, com essa nossa imensa, histórica e interminável desigualdade social.  Visto desse jeito, o Brasil até que brilhou nessas Olimpíadas, acumulando considerável coleção de bronzes, pratas e ouros.

(Um taxista, ao qual declarei meu entusiasmo com o vôlei do Brasil, me disse que não podia gostar de um esporte praticado por seis goleiros de cada lado. Eu lhe disse que, bem jogado, o vôlei podia ser tão emocionante quanto o velho jogo com os pés).

Nessas duas últimas décadas, conquistamos no Brasil um excelente padrão de liberdade, do qual só podemos nos orgulhar. Por que não nos esforçarmos agora por um pouco mais de igualdade social, se posso dizer assim? A igualdade que deve fazer com que todo brasileiro, desde logo, tenha direito de aspirar ao que bem quiser, tendo as mesmas oportunidades que os cidadãos mais afortunados em geral têm.

Uma das tragédias do século 20 é a de que sempre ouvimos falar das virtudes da liberdade e da igualdade, o elogio hipócrita às duas, mas elas nunca conviveram decentemente em um mesmo regime, sistema ou nação. O socialismo real desmoralizou a igualdade; o capitalismo selvagem, por sua vez, a liberdade. No primeiro, a igualdade era um engodo mítico imposto à força pelo autoritarismo; no outro, a liberdade era um pretexto para o descaso pelo semelhante. Para um, a liberdade se tornou uma ameça à sua sobrevivência; para o outro, a igualdade seria indesejada e subversiva, pois o mundo não foi criado assim.

O grande feito político do século 21 será certamente o da nação que ensinar ao resto do planeta como fazer para que liberdade e igualdade co-existam de fato, num mesmo modo de vida.

É uma ilusão achar que todo homem nasce livre e que só mais tarde alguns se deixam subjugar por opressores. Desde que nascemos, já estamos submetidos a várias interdições que precisamos respeitar porque somos dependentes dos outros. A liberdade não é uma condição natural do ser humano, ela não é inerente a nós. Mas uma conquista que fazemos no tempo, num acordo com os nossos próximos. Somos nós que a conquistamos. E a igualdade é o corolário dessa liberdade, o valor que justifica a existência dela. Se não tivermos todos as mesmas oportunidades, de que vale a liberdade de cada um?

 

Às vezes, pensadores que não se percebem conservadores justificam nossa injustiça crônica como resultado de nosso pouco tempo de vida como nação. Mas, como diz Kenneth Maxwell, brasilianista britânico, “o Brasil já tem uma longa história, se comparado à Alemanha e à Italia, países criados na segunda metade do sécuko 19”. Como para qualquer outro sucesso nacional, para criar campeões olímpicos precisamos, antes de tudo, de justiça e civilização.

 

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Sempre caminhando

Cacá Diegues  ---  10 agosto 2012

Caetano Veloso é um dos artistas brasileiros que mais nos fazem pensar. Como criador ou como pensador, ele tem sido, ao longo do tempo, aquele que mais tem influenciado as ideias de seus pares.

Na segunda metade dos anos 1960, Caetano foi o principal responsável pela introducão da cultura pop no cadinho nacional formado pela alta-cultura modernista e as manifestações populares da Bahia. Uma afirmação universal em progresso, introduzindo entre nós certos avanços criativos, como os modernistas de 22 haviam introduzido o verso livre europeu em nossa poesia.

O movimento tropicalista que ele liderou foi, ao mesmo tempo, a última manifestação do nosso modernismo e a porta pela qual circulou quase tudo que tem sido feito depois entre nós.

Naquele momento, dos hippies aos estudantes franceses, dos Black Panthers aos Rolling Stones, de Herbert Marcuse a Timothy Leary, procurava-se construir, nas metrópoles ocidentais, um novo mundo que era a negação daquele em que começávamos a viver no Brasil, debaixo da ditadura recém-instalada. Outros podem ter sido mais influenciados pelos Beatles, mas foi Caetano  quem melhor os ouviu em nosso país.  

Com a ditadura, os heróis de nossos filmes se tornaram perplexos e sem rumo, não sabiam o que fazer diante da angústia do inesperado a nos levar ao desconhecido. Trocávamos a energia revolucionária do vaqueiro Manuel pela sombria tragédia de Paulo Martins (personagens de “Deus e o diabo na terra do sol” e “Terra em transe”, de Glauber Rocha). O herói ferido de “O anjo nasceu”, de Julio Bressane, avançava pela interminável estrada silenciosa, num final de filme criado décadas antes do consagrado final de “Através das oliveiras”, de Abbas Kiarostami.

Algo parecido ocorria no resto da cultura brasileira. As duas canções populares faróis desse periodo, aquelas que inauguravam a marcação rígida de territórios entre as principais tendências da época, começavam com o mesmo vocábulo, um mesmo gerúndio: “caminhando”.

Em “Para não dizer que não falei de flores”, o hino da jovem esquerda ansiosa por ação política, Geraldo Vandré nos dizia que, “caminhando, cantando e seguindo a canção” sairíamos da imobilidade, nos orientaríamos no enfrentamento consciente de uma guerra de soldados. Em “Alegria, alegria”, anúncio e matriz do tropicalismo, Caetano Veloso, ao cantar “caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento”, nos falava de uma disponibilidade existencial que a militância política convencional não nos permitia conhecer, uma espécie de libertacão dos compromissos da consciência, em nome de algo novo, mais complexo e mais humano. Quem lê tanta notícia?

Embora o tempo do verbo não fosse o mesmo, Chico Buarque, antes de Vandré e Caetano, já nos falara desse estado de disponibilidade, quando cantou que “estava à toa na vida”, na abertura de “A banda”, o successo popular inaugural dessa geração.

“Alegria, alegria” soava como uma porta imensa que se abria, mesmo que não soubéssemos direito para onde. A canção era introduzida por três acordes de teclado em uníssono, repetidos quatro vezes e intercalados por vibrações de percussão. Parecia um comercial de produto em lançamento, lembrava as três batidas que anunciam uma peça de teatro, soava como se nos avisassem que vinha por aí alguma coisa inédita e inesperada. Um pouco como na histórica introdução de “Like a rolling stone”, de Bob Dylan, uma coisa que nunca ouvíramos antes.

Quando ouvi “Alegria, alegria” pela primeira vez, lembrei-me de certa madrugada, um par de anos antes, em que, no Mercado de Sete Portas, em Salvador, Caetano cantara ao violão, numa mesa de amigos, o então sucesso de Roberto Carlos, “Que tudo mais vá pro inferno”. Mudando o andamento da canção, valorizando sua harmonia, expremindo as palavras num canto preciso e profundo, Caetano nos mostrava como uma certa esquerda, ainda arrogante, estava errada ao subestimar o grande Roberto e o que ele significava para todos nós.

A principal qualidade de Caetano é a de estar sempre em movimento e não ter limites, como a arte em que acredita. Numa só canção (“Pecado original”, escrita para o filme “Dama do lotação”, de Neville d’Almeida), ele cita Freud (“o que quer uma mulher”) Chico (“olhos nos olhos”) e Waldik Soriano (“eu não sou cachorro não”). Em outras canções, esbarramos em Sartre, Nietszche, Lévy Strauss, Bob Dylan, João Gilberto, alguém de Santo Amaro, Raul Seixas ou Batatinha, o grande sambista baiano. Todas as formas de conhecimento nos ajudam a viver, nenhuma é necessariamente inferior à outra.

Aos 70 anos de idade, completados essa semana, Caetano Veloso é um ser em andança permanente, uma luz e um desafio para todos nós que convivemos com sua obra. Às vezes a gente se queixa do desaparecimento do sentido no mundo, quando na verdade foi apenas o conceito de sentido que mudou.

 

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A contrapartida do lucro

Cacá Diegues    -    27 julho 2012

O recente assassinato da soldado Fabiana de Souza, da UPP da Nova Brasília, no Complexo do Alemão, é uma trágica confirmação do que diz sempre o próprio José Mariano Beltrame, secretário de segurança do estado – a política de pacificação não resolve todas as questões da favela carioca, ela é apenas um primeiro e indispensável passo para que seus moradores sejam tratados como cidadãos.

As UPPs recuperaram um território que estava ocupado por bandidos com armas de guerra, substituiram a opressão de criminosos pela justiça formal do estado. Teoricamente, os moradores dessas comunidades não têm mais o que temer, eles podem exercer sua plena liberdade garantida pela constituição.

Mas, junto com as UPPs, vieram também obrigações para as quais essa população não estava secularmente preparada. Como obter uma RG? Como substituir o gato pela assinatura regular da TV paga? De onde tirar dinheiro para pagar a CEDAE, a Light e todas essas empresas fornecedoras de serviços públicos que agora sobem o morro para cobrar o que lhes é devido? E onde está o emprego, sobretudo para os mais jovens, evitando que, por falta de opção, eles apenas migrem de ramo do crime?

A nossa polícia foi criada por dom João VI, durante sua estada no Rio, a partir de 1808. Ao longo do tempo, ela nunca deixou de ser a policia do rei. Duzentos anos depois, alguns homens desejam modificar essa tradição, tentam torná-la uma polícia da sociedade. Mas não adianta levar paz e liberdade às favelas, se com elas não forem também as oportunidades a que todo cidadão tem direito, seja do morro ou do asfalto.

Se a UPP não for seguida por escola, hospital, saneamento, defensoria pública, emprego, daqui a pouco a polícia de ocupação terá que ir embora das favelas por inútil. Ou será obrigada a exercer a mesma opressão que o tráfico exercia para se proteger.

Temos o costume de considerar a questão pública como exclusiva do estado, único responsável por ela. Precisamos superar essa ilusão, cada um de nós, de quaquer lado, é co-responsável pelo espaço exterior à nossa casa, o espaço onde convivemos com os homens e as mulheres com quem formamos uma sociedade.

Essa semana, o AfroReggae organizou um primeiro encontro de seus “Comandos” com uma população de favela, a do Cantagalo-Pavão-Pavãozinho. À mesa de debate estavam José Magalhães (inspetor da Polícia Civil), Sergio Dantas (oficial do BOPE), Robson Holmes (ex-miliciano) e os ex-traficantes Carlos Alberto Santos, o Fofo (que foi do Terceiro Comando), Ademir Salerme, o Ziquinho, e Francisco Tostes, o Tuchinha (ambos foram do Comando Vermelho), e João Paulo (ex-ADA).

Com a mediação de José Junior, coordenador-executivo do AfroReggae, esses homens, tão diferentes entre si, narraram para o grande público presente suas histórias pessoais, suas experiências inúteis. E, ao final, apoiaram o que Ziquinho, ex-chefe do tráfico em Vigário Geral, chamou de “as 5 facções (polícia, milícia e as três do tráfico) unidas para salvar o mundo”. E tudo começava com o que fazer depois das UPPs instaladas nas comunidades.

No dia seguinte, debaixo do Viaduto de Madureira, a CUFA (Central Única das Favelas), liderada por seu secretário-geral, Celso Athayde, inaugurava, na presença de moradores de favela e de autoridades do estado e do município, a LEC, Liga de Empreendedores Comunitários, destinada a atuar nas comunidades ocupadas ou não por UPPs.

A LEC reune lideranças de Cidade de Deus, Jacarezinho, Vila Aliança, Complexo do Alemão, Vila Vintém, Rato Molhado e outras comunidades do Grande Rio. Além de preparar profissionais para o mercado de trabalho, ela se destina a apoiar empreendedores comunitários, colaborando com os negócios que desejem montar, criando uma nova economia local. A LEC vai também incentivar parcerias com as empresas do asfalto afim de que se instalem nas favelas, como já anda acontecendo com bancos, supermercados, empresas de hotelaria, etc.

Essas empresas privadas são também responsáveis pelo sucesso da política de pacificação que beneficia a todos. Elas têm um papel decisivo na empregabilidade da população de favelas.

Em qualquer sociedade, o dinheiro deve ser a remuneração do mérito, seja ele qual for, artístico ou esportivo, funcional ou intelectual, tudo o que se deseje praticar. Não há nenhum componente moral nisso; é assim como, na natureza, o vulcão, o tsunami ou o câncer – pelo menos por enquanto, eles são inevitáveis. O discurso moral começa a partir desse ponto: numa sociedade justa, a contrapartida do lucro deve ser o bem estar da comunidade em que ele foi produzido.

Não sei se estou cometendo uma inconfidência, mas ouvindo Celso Athayde e seus parceiros, soube que a LEC promoverá em breve um grande movimento de doação de sangue pelos moradores de comunidades, destinado aos hospitais da cidade. Gesto simbólico de boa vontade de quem tem doado seu sangue à força, por tantos séculos.

carlosdiegues@uol.com.br

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Para que serve a estrada 

 Cacá Diegues    -    13 julho 2012 

Estou em Nova York e, logo no dia de minha chegada, encontro na primeira página do jornal New York Times, o mais importante do país, a foto de um casal americano enroscado numa dança que me é familiar. O título da foto: “É quente, brasileiro e faz você dançar”.

Dentro do jornal, o título da matéria de capa do caderno de artes e cultura é: “Uma invasão dançante de energia brasileira”. E, em longo texto sobre o nosso forró, o jornal explica que a dança nordestina conquistou a cidade, sendo a grande sensação local desse verão. Ao som de Luiz Gonzaga e de outros mestres do forró, ela está sendo dançada por aqui, do sofisticado Lincoln Center em Manhattan aos parques populares do Brooklin e de Queens.

Se não bobearmos, essa recente e crescente mania de Brasil no chamado “primeiro mundo” é capaz de acabar chegando também ao cinema.

Há 10 anos, no mês de julho, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) produz uma “Premiere Brazil”, uma semana de exibição de filmes nacionais recentes, um olhar sobre o estado do cinema brasileiro contemporâneo. A mostra é organizada por Jytte Jensen, curadora do departamento de cinema do MoMA, Ilda Santiago, responsável pelo Festival Internacional do Rio de Janeiro, e Vilma Lustosa, uma de nossas produtoras.

Este ano, eu e Renata Magalhães viemos a Nova York apresentar dois filmes produzidos por nós, “5XFavela, agora por nós mesmos”, já lançado no Brasil, e “5XPacificação”, que estreará em outubro, distribuido pela Riofilme e pela H2O. Aqui estão também cinco dos diretores dos dois filmes, jovens cineastas moradores de favelas cariocas.

“5XPacificação” é um filme sobre a política de segurança do estado do Rio de Janeiro que resultou na instalação das UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora que estão recuperando um território outrora controlado por criminosos com armas de guerra. O que elas são, o comportamento da polícia e dos bandidos diante delas, sua suficiência ou ineficiência, o futuro depois das UPPs e sobretudo a opinião dos moradores de favelas sobre elas, são o tema desse filme, feito a partir do interior do assunto, com os próprios favelados como portavozes deles mesmos.

Luciano Vidigal, Cacau Amaral, Rodrigo Felha, Cadu Barcellos e Wagner Novais, diretores de “5XFavela, agora por nós mesmos” e de “5XPacificação”, estão aqui conosco, convidados pelo MoMA e pelo New York Times que promove, na próxima segunda feira, um debate público com a presença deles e do secretário de segurança José Mariano Beltrame, mediado pelo jornalista Larry Rother, autor da matéria sobre o forró na cidade.

A “Premiere Brazil” desse ano foi inaugurada, na quinta feira passada, com o belo filme de Breno Silveira, “À beira do caminho”, um road movie pungente, uma viagem pelo Brasil, do sertão nordestino às ruas de São Paulo, feita com o coração e as dores de seus comoventes personagens. Curiosamente, estréia essa semana, nos cinemas do país, outro belo filme de estrada, dirigido por Walter Salles, sob o título de “Na estrada”, inspirado no livro homônimo de Jack Kerouac.

Dessa vez, não se trata mais da revelação do que se passa à margem da estrada, como no filme precedente de Walter Salles, “Diários de motocicleta”; mas de um mergulho na alma e no comportamento dos personagens que avançam por seu leito, nem sempre em direção precisa. Tanto num como no outro filme, é como se o mundo já estivesse suficientemente mapeado, precisamos agora aprender a viver nele, como ele é.

No final de recente filme americano, “Life during wartime” (A vida em tempo de guerra), do cineasta independente Todd Solondz, um personagem de jovem intelectual judeu extremamente politizado fala com entusiasmo de democracia, liberdade e igualdade, com o herói da história, Timmy, menino de 13 anos de idade. Timmy lhe responde que não quer saber daquele assunto, ele só se interessa por reencontrar o pai que o abandonou há anos.

Isso não quer dizer que a política não seja importante na vida de todos nós. Ela é inevitável, a política e os políticos existem para organizar a sociedade em que vivemos, estabelecer os direitos de cada um de nós e seus limites. Mas, muitas vezes, em vez de ser viga principal na construção de uma harmonia social, a política se transforma em simples desejo de domínio do outro. Quando se vive apenas para o poder, tudo o que é humano perde o sentido; quando só se pensa no poder, tudo é ilusão.

Quando morreu o pai do jovem Karl Marx, um dos maiores e mais importantes pensadores do destino da humanidade, ele não foi ao enterro porque tinha um encontro político em Berlim. Anos depois, quando já bem velho Marx veio a morrer, seus amigos encontraram no bolso de seu paletó um retrato de seu pai.

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Uma correção. Em meu artigo anterior, expressei-me mal a propósito da lei que permitiu o impedimento de Fernando Lugo, presidente do Paraguai. O que foi votado 24 horas antes do impeachment não foi a lei e sim o direito ao uso dela.

carlosdiegues@uol.com.br

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O lamentável e o deplorável

Cacá Diegues  -     29 junho 2012

Tenho dificuldade em saber o que penso do impeachment de Fernando Lugo, o presidente do Paraguai. Minha primeira reação foi achar que, se um cineasta paraguaio viesse dar palpite no impeachment de Fernando Collor, eu me sentiria invadido e isso me irritaria muito. Depois me convenci de que não era exatamente a mesma coisa. 
 

Lugo também foi afastado com base na lei local, mas lei criada 24 horas antes, com esse específico objetivo. Lembrei-me das cassações, dos decretos discricionários e dos atos institucionais de nossa ditadura militar, que também tinham força de lei. Assim como me ocorreu que Hugo Chávez é o campeão de leis casuísticas para se manter no poder ou impedir a oposição de se manifestar, e no entanto o convidamos gentilmente a entrar no Mercosul, no lugar do Paraguai.  

Nenhuma lei é divina, nem toda lei é justa. Mas quando, com base numa delas, maioria esmagadora de congressistas, representantes formais do povo, se manifesta a favor do impedimento do presidente, numa goleada de 76 votos contra um, fica difícil demonizar a lei. Nas democracias parlamentaristas, por exemplo, o primeiro ministro pode cair da noite para o dia, em poucos minutos, graças a simples voto de confiança do Parlamento, conforme está na lei lá deles.

Ninguém vem ao mundo para fazer política. A política existe e é indispensável porque vivemos em sociedade, não podemos deixar que o jeito de cada um viver prejudique o do outro. Em política, acabamos sempre apoiando a quem simpatizamos, não importam as razões em jogo, porque foi assim que os políticos nos acostumaram. Os políticos nos levaram a perder a confiança neles porque, em geral, nunca se importam com o que representam, nem com os critérios do que fazem por essa representação.

O político não pode ser apenas um articulador de partidos, um agitador de massas, um homem cuja missão é somente ganhar as próximas eleições ou dar um golpe de estado se nelas não for bem sucedido. Ele deve ser um exemplo de critério para o resto da sociedade, um guia malgré lui-même, um farol mesmo que não deseje ou não tenha consciência disso.

Quando nosso presidente Lula, como fez também FHC na campanha da reeleição, se reúne com quem não presta, quando dá a mão a um aliado da ditadura militar, a um procurado pela Interpol, ícone nacional de corrupção e malfeitos, está nos dizendo que liberou geral, que nossos princípios não são tão principais assim, que tanto faz o critério. E como muitos de nós o amamos e confiamos nele, podemos estar sendo levados, por seu gesto irresponsável, à cumplicidade com o crime, ao desastre do qual a primeira vítima seremos nós mesmos.

Em certas circunstâncias políticas e morais, a “habilidade” e a “esperteza” do líder podem produzir crimes relevantes. Assim como a eleição, por seu governo, do que é “conveniente” e “oportuno”.

Outro dia, li no jornal que o governo do Irã, o mesmo que manda circuncisar e atirar pedras em mulheres, quer proibir os jardins de infância do país de promover aulas de canto e dança, sob a justificativa de que essas práticas são “imorais”. Li igualmente que, no Paquistão, quatro mulheres e dois homens foram condenados à morte pelas autoridades religiosas, ao norte de Islamabad, por terem cantado e dançado por ocasião da um casamento na família.

Não acho graça em viver num mundo que dá de ombros diante de tais barbaridades contra a natureza humana. Como não acho graça em viver num mundo em que a hegemonia de uma nação, como a China, é alcançada graças a trabalho semi-escravo e ao autoritarismo que mantém preso seus artistas, como Ai Weiwei, e seus dissidentes políticos, como o pobre cego Chen Guangcheng. Como acho absurdo que um partido brasileiro de esquerda, com tão heróicas tradições de luta libertária, envie mensagens gentis e votos de solidariedade aos tiranetes ridículos da Coréia do Norte.

Como posso denunciar o “golpe” paraguaio, como me opor à boçalidade norte-americana do embargo a Cuba ou com que autoridade combato a política de austeridade de Angela Merkel que arrocha a população da União Européia, fazendo os idosos aposentados passarem fome e os jovens permanecerem condenados a crescente desemprego, se fico indiferente ao que também está tragicamente errado do outro lado do mundo, em outras paragens?

Sempre fui e continuo me considerando um cidadão brasileiro no campo da esquerda. Mas não quero, em nome disso, ser obrigado a escolher entre o ruim e o péssimo, entre o lamentável e o deplorável. Liberdade individual e oportunidades iguais são as bases do direito democrático, em qualquer lugar do mundo, do Paraguai ao Paquistão, da União Européia à América Latina. Não se pode viver dignamente sem elas, em qualquer circunstância.

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Essa semana, Giberto Gil fez 70 anos de idade. É um privilégio e um desafio ser contemporâneo de um artista-pensador como ele. Que seu amor à vida nos ilumine e nos alimente com sua energia. 

carlosdiegues@uol.com.br

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Ilusões à toa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues    -   15 junho 2012

A cidade está ocupada pela Rio+20. As direções do trânsito se modificam, os engarrafamentos se multiplicam, as escolas estão em férias compulsórias, o serviço público ganhou ponto facultativo. Aconselha-se, a quem não tem o que fazer na rua, a não sair de casa.

E no entanto, apesar de tanto transtorno, a cidade está alegre, muito diferente do que esteve há exatos 20 anos, por ocasião da Rio 92, quando o exército teve que ocupar suas ruas afim de garantir a paz do encontro e a segurança dos medalhões que vinham participar dele.

Podemos dizer que a cidade agora saúda a Rio+20 com entusiasmo e alegria. Não só na esperança de que ela se desenrole tranquilamente e confirme o bom momento do Rio de Janeiro, mas sobretudo porque sabemos que a Rio+20 é uma oportunidade (talvez uma das últimas, como disse Ban Ki-Moon, secretário geral da ONU) de construir o futuro que nós queremos.

O homem sempre teve projetos para a natureza, mas a natureza nunca teve e nunca terá nenhum projeto para nós. E nem por isso precisamos tratá-la como inimiga, embora ela também não seja a mãe que um certo romantismo desejou que fosse. Mas assim como nos iludimos com a possibilidade de harmonia com a natureza, erramos gravemente quando inventamos de dominá-la, controlá-la, modificá-la, segundo nossos exclusivos interesses.

A cultura humana é uma espécie de virus a atazanar o corpo do mundo com suas invenções. Nós somos os únicos filhos dele que resolvemos organizar sua vida, dizer para onde o mundo deve seguir. Mas ele é surdo, não tem nada a ver com nossas ilusões e vai em frente conforme suas próprias necessidades.

Todas as criações do universo são parte constitutiva da natureza, participam de sua existência sem mando sobre seus rumos. Mas quando o homem inventou a cultura, criou a ilusão arrogante de que o universo podia estar a seu serviço. Fomos longe demais e, agora, quando não temos mais esperança de harmonia com ela, nem podemos mais sonhar com o domínio sobre ela, só nos resta negociar com a natureza.

Negociar significa saber até onde podemos ir nessa nossa irreversível pretensão de criadores, o que é possível fazer para seguirmos em frente sem pensar em ocupar um espaço a que não temos direito. Significa ceder no insensato, para ganhar no razoável. Ou, como dizia Raymond Aron a propósito da política humana, “a opção nunca tem a ver com uma luta entre o bem e o mal, mas com o preferível e o detestável”.

O século 21 tem-nos surpreendido com uma constante queda da humanidade do alto dos tronos em que os humanismos triunfalistas a coroaram soberana, do controle sobre a história ao fim de todas as tiranias, da utopia cristã à sociedade sem classes, da harmonia com a natureza ao poder sobre o universo. Nenhum desses triunfos tão anunciados se realizou, nem tem como se realizar; e nós temos dificuldade em descer do carro alegórico de nossas ilusões.

Ilusões até justificadas pelas decepções com o mundo e conosco mesmos, nossas vidas e relações com os outros. Tenho um amigo que garante que o Juizo Final foi bolado para ser um gesto de Deus a nos pedir desculpas pela cagada que Ele fez. Aqueles que forem capazes de O perdoar, terão direito ao céu.

O mundo vai estar sempre muito aquém de nossos projetos e foi por isso mesmo que inventamos a cultura. Nossa intervenção no mundo é única, como nenhum outro animal jamais ousou fazer. Arte, ciência, conhecimento, tecnologia, tudo isso é produzido por nossa insatisfação com as coisas como elas são, por nosso desejo de mudá-las. E se ignorarmos esse desejo, perderemos o sentido da existência de nossa própria espécie. 

Negociar com a natureza significa conhecer os limites de nossos desejos e aprender a domá-los.  Uma espécie de acordo de paz entre o vírus da cultura humana e o corpo da natureza, como as bactérias e os micróbios diversos convivem em paz em nosso próprio corpo. Seria uma atitude tirana acharmos que somos livres para fazermos o que bem entendermos do que está à nossa volta.

Para celebrar a cidade alegre, nada mais natural do que usar um poeta e a imagem da primavera. O poeta é Cecília Meirelles, a primavera está nesse seu texto: "A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba o seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega".

Salve, salve Rio+20, o anuncio da primavera no inverno carioca! 

                                                       carlosdiegues@uol.com.br  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A juventude de Cannes

Cacá Diegues – 1º de junho de 2012 

A França é o país da cinefilia, do amor ao cinema. Foi aqui que o cinema deixou de ser entendido como uma atração de botequim ou de feira para se tornar coisa séria, a arte do século 20. A França é o único país do mundo em que a história do cinema é ensinada nas escolas, como parte indispensável da formação de seus adolescentes. Aqui, os professores levam regularmente seus alunos à Cinemateca Francesa para que ali vejam as exposições do momento e os filmes do passado. Como não podia deixar de ser, é o país europeu que mais produz filmes (uma média de 250 por ano) e onde eles mais são vistos pelo seu próprio público (45% de parte do mercado).

Se a França é o país do cinema, o Festival de Cannes é a sua celebração máxima, uma espécie de carnaval de 12 dias à beira do mar Mediterrâneo, com a mesma concentração de gente excitada e eufórica que costumamos encontrar durante o reinado de Momo no Rio de Janeiro, na Bahia ou no Recife. Uma multidão de pessoas vindas de todo o mundo engarrafa as calçadas da pequena cidade, cinéfilos e turistas em busca de convites para os filmes e as festas, atores e atrizes atrás de produtores que descubram seus talentos, distribuidores tentando achar a pérola cinematográfica do ano, cineastas à procura de quem os compreenda.

Enquanto a cidade regorgita de agitação e assanhamento, os responsáveis pelo festival estimulam o respeito pelo que mostram, sobretudo os filmes em competição sempre cercados de celebrações e homenagens, fazendo-os passar pelo tapete vermelho da consagração pública. É como se o suntuoso Palácio do Festival fosse o Sambódromo desse carnaval, por onde desfilam os vinte e poucos filmes selecionados pelo mundo afora, a nata da produção do ano segundo critérios de rigor artístico e representação de tendências. O Grupo Especial do cinema mundial, digamos assim, objeto de protocolos que reforçam seu valor, que avalizam sua excepcionalidade, que fazem de Cannes o principado do cinema.

Esse ano, me coube em Cannes presidir o júri da Caméra d’Or, prêmio destinado a primeiros filmes exibidos em todas as sessões do festival. Um troféu oficial que, inaugurado em 1978, já foi outorgado a então iniciantes como o americano Jim Jarmusch, a colombiana Fina Torres, a indiana Mira Nair, o iraniano Jafar Panahi, o francês Bruno Dumont, o mexicano Carlos Reygadas, o inglês Steve McQueen e outros de diferentes nacionalidades. No final de doze dias de discussões, durante os quais vimos 25 filmes habilitados ao prêmio, nosso júri concedeu a Caméra d’Or ao filme americano “Beasts of the Southern Wild”, de Benh Zeitlin, cineasta novaiorquino de apenas 28 anos, obra síntese de tudo que havíamos visto de melhor.

Como a Caméra d’Or é destinada a primeiros filmes vindos de todo o mundo, é natural que a competição por ela seja um espaço de descoberta de novas tendências. Afinal de contas, são os novos cineastas que fazem as novas tendências. A grande maioria dos que disputaram a Caméra d’Or desse ano é formada por jovens por volta de 30 anos de idade, quase todos a revelar um malestar geral com o estado do mundo e seu papel pessoal diante dele.

Eles apresentaram com seus filmes uma diversidade surpreendente de alternativas, marcada em parte pela especificidade dos países e dos ambientes sociais de onde vieram, mas sobretudo pelo desejo de falar sobre aquilo que está mais perto de cada um. Uma agonia presente em todos eles parece estar construindo novas utopias, menos triunfalistas e mais próximas da condição humana. Um pouco como no slogan famoso dos “indignados” da Porta do Sol, manifestantes de Madrid: “Se vocês não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”.

As relações familiares estão presentes na maior parte dos filmes que vimos. Mas não a família idealizada dos melodramas americanos dos anos 1930 ou 40; nem a família inimiga dos anos 1950 em diante. E sim a família como uma fatalidade da qual, para o bem ou para o mal, ninguém escapa e a necessidade de fazer com que as relações entre seus membros sirva como ponto de partida para que o mundo tome jeito.

Essas relações familiares estão no centro da crise contemporânea, da violência, da intolerância, do racismo, do autoritarismo, dos preconceitos religiosos vindos de toda parte. De modo que cada filme desses fala de seu próprio autor e do  mundo que o cerca, sem eliminar do político a dor do indivíduo. Como diz a adolescente negra do filme ganhador, vítima da miséria social e dos desastres ecológicos em Nova Orleans: “Sou apenas um muito pequeno elemento de um universo que não controlo, mas eu resisto”.  

Não importa se esses filmes são realistas ou fantasistas, se eles são filmados como clipes, com câmera na mão ou em longos planos imóveis, se eles nos fazem rir ou chorar. Quase todos são filmes que não se importam em estabelecer regras, embora tenham uma vigorosa coerência de estilo e linguagem, de cabo a rabo. É como se nos mostrassem que, em qualquer lugar do mundo, o cinema é uma técnica que se aprende; o importante é saber o que queremos dele.

carlosdiegues@uol.com.br

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Arte e cultura em Cannes

 

Cacá Diegues   -    17 de maio de 2012

Como já saiu nos jornais, estou em Cannes, presidindo o júri da Camera d’Or (Câmera de Ouro), prêmio que o festival outorga ao melhor primeiro filme exibido em qualquer uma de suas plataformas (Seleção Oficial, Un Certain Regard, Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica).

Gosto de estar em Cannes e gosto do que vim fazer aqui. Cannes é uma festa do cinema organizada para a glória de quem o pensa e o faz, os próprios cineastas. Na abertura do festival, nessa quarta feira passada, estavam presentes todas as estrelas de “Moonrise Kingdom”, o filme inaugural, e a multidão de fotógrafos profissionais e amadores se fartou de registrar a passagem de Bruce Willis, Ed Norton, Bill Murray e os outros, pelo tapete vermelho.

Mas, no momento em que todos eles entraram na sala de projeção, a voz de um locutor oficial anunciou a presença apenas de Mr. Wes Anderson, o jovem diretor do filme.

Bem, é verdade que, fora do Palácio do Festival, a cidade é dos que vieram aqui para fazer negócios, comprar e vender filmes, montar produções internacionais, trocar informações sobre os mercados, essas coisas. São esses os homens de cinema que agitam o festival, que pagam seu luxo com o que deixam em Cannes e na França em troca de hotéis de várias estrelas, almoços e jantares à beira do Mediterrâneo, happy hours, festas suntuosas e a Coca-Cola a dez dólares a garrafa.

A iniciativa do prêmio Caméra d’Or não tem nada a ver com isso. Ele existe para estimular o rejuvenescimento das ideias cinematográficas pelo mundo afora, pondo em destaque os cineastas que estreiam no longa-metragem e que tiveram seus filmes selecionados para alguma sessão do festival. Pela lógica natural das coisas, são sempre os novos cineastas os responsáveis pelas novas tendências cinematográficas e o Caméra d’Or é uma oportunidade única para descobri-las. Por isso aceitei correndo o convite de Gilles Jacob e Thierry Frémaux para presidir seu júri.

Quando escrevo esse texto, ainda não assistimos a nenhum dos concorrentes ao prêmio. Mas já tenho comigo a lista dos 25 filmes que veremos ao longo dos próximos 10 dias e só me deparo com nomes dos quais nunca ouvi falar, alguns deles vindos de países sem nenhuma tradição ou mesmo curta história de cinema. Confirmo com entusiasmo e muita expectativa que o mundo se alfabetiza audiovisualmente, filma-se de todas as maneiras, em todos os cantos do planeta.

Esse 65º Festival de Cannes também homenageia o cinema brasileiro, exibindo três de nossos filmes em sua sessão de “classics”, filmes antigos que já passaram por esse ou outros festivais importantes, como “Opera do Malandro”, de Ruy Guerra, “Cabra marcado para morrer”, de Eduardo Coutinho, e o meu “Xica da Silva”, agora restaurado pela Cinemateca Brasileira. Além desses filmes, será exibido também “A música segundo Tom Jobim”, o belíssimo documentário de Nelson Pereira dos Santos, selecionado oficialmente, fora de competição.

Até onde pude acompanhar, a imprensa brasileira não está dando muita bola para a representação nacional na competição oficial de Cannes. Lá está, concorrendo à Palma de Ouro, o filme “Na estrada”, dirigido pelo nosso Walter Salles.

Não importa se baseado no romance seminal de Jack Kerouac, se produzido pelo americano Francis F. Coppola e pelo francês Marin Karmitz, “Na estrada” foi realizado por um cineasta brasileiro que fez toda a sua formação no cinema do país e que se tornou um dos responsáveis por sua recuperação, graças ao inesquecível “Central do Brasil”.

Há pouco tempo, nós fizemos de Airton Senna um herói nacional, fomos todos para a rua, do presidente da república ao gari da prefeitura, chorar a sua morte; e, no entanto, Airton nunca pilotou um carro brasileiro. Acho até que nem mesmo no trânsito de São Paulo, quanto mais nas pistas internacionais de Fórmula 1. Walter Salles, Fernando Meirelles, Hector Babenco, Heitor Dhalia, Bruno Barreto e mais outros (devo estar esquecendo algum), são exportações brasileiras num cinema globalizado, cuja colaboração  multinacional é cada vez mais extensa e decisiva.

Aqui mesmo, neste Festival de Cannes, o iraniano Abbas Kiarostami, consagrado pelos filmes que fez em seu país, singelas e preciosas revelações de uma cultura que não estava a nosso alcance antes dele, está apresentando seu novo filme, “Like someone in love”, falado em inglês, filmado em Tóquio e produzido pelo mesmo Karmitz de “Na estrada”.

Cultura é uma coisa produzida por um aglomerado de gente, uma tribo, um povo, uma nação. Arte é o que produz um artista, o indivíduo. A tendência da cultura é sempre a de submeter a arte e quanto mais esta reagir ao sufoco, melhor será. A cultura precisa aprisionar a arte porque essa é indiciplinada, inesperada, incontrolável. E a cultura é a organização do que já existe e está consagrado. Por exemplo, as Bachianas de Villa Lobos são uma obra de arte; o uso delas em concertos e em trilhas sonoras, uma produção cultural. Vamos deixar nossos artistas trabalharem em paz, para a glória de nossa cultura.

carlosdiegues@uol.com.br

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Nem tudo é a economia, estúpido

 

Cacá Diegues  -  4 de maio de 2012

 

Deus me livre de demonizar o dinheiro, como faz o preconceito hipócrita da tradição ibérica e católica. O dinheiro é a remuneração do mérito, quanto mais justa ela for mais saudável deverá ser o uso dele. Como qualquer outro valor simbólico criado pelo homem, o dinheiro só vira agente do mal quando é usado com a voracidade irracional de obter vantagens, como instrumento de opressão e até mesmo de liquidação do outro. Ou então como um fetiche pessoal que elegemos para justificar o vazio de nossas vidas.

Mas também não acho graça nenhuma num mundo que todo dia de manhã acorda ansioso e sai da cama direto para o noticiário eletrônico, afim de checar se o PIB cresceu, se a taxa de câmbio está sob controle, se as Bolsas se estabilizaram, se a inflação subiu ou se os juros caíram, essas coisas todas. Ou seja, num mundo em que a economia se tornou um valor único para medir nossas vidas, a razão de nosso estar no mundo. Um valor divino.

Durante toda a Idade Média, a humanidade ocidental esteve sob as ordens de Deus, tudo que acontecia era por Sua exclusiva vontade. Pensar de outro modo era como reservar ingresso para a fogueira da Inquisição. Um exemplo clássico da discussão sobre essa dependência do homem à vontade divina nasceu do maremoto seguido por terremoto em Lisboa, no ano de 1755, provocando um divisor de águas (sem trocadilho) no debate em torno desse pensamento. 

No dia 1º de novembro, uma tsunami fez desaparecer 70% dos prédios de Lisboa e 2/3 de sua população. Como era dia de Todos os Santos e as igrejas estavam cheias de devotos, a maior parte dos lisboetas morreu vítima do desabamento de templos. Portavoz do racionalismo iluminista então nascente, Voltaire usou com ironia esse episódio trágico para discutir a parte de Deus nessa historia toda.

Através de um de seus personagens, Voltaire satiriza a dependência da vontade divina, fazendo com que o doutor Pangloss diga que “está demonstrado que as coisas não podem ser de outro modo”.  Como tudo é feito para um fim desejado por Deus, tudo o que acontece é sempre bom. Vivemos portanto o melhor dos mundos, protegidos por Sua vontade, tudo se encontra onde devia mesmo estar.

Felizmente para Portugal e para os portugueses, o Marquês de Pombal, enérgico primeiro-ministro do país, não acreditava nesse determinismo e fez reconstruir Lisboa muito rapidamente, tentando eliminar da mente de seus cidadãos a imobilizadora subserviência à fatalidade.

Por isso, leio nos jornais com alegria que o Butão, pequeno país asiático, acaba de propor à Assembléia Geral da ONU o fim dos dogmas medievais da economia, substituindo o PIB (Produto Interno Bruto) pela FIB (Felicidade Interna Bruta), como critério para a análise do estado das coisas no mundo contemporâneo. E ainda mais feliz (de novo sem trocadilho) ao ler que a presidente Dilma declarou recentemente que não nos interessa ser, como somos, o sexto PIB do mundo, “queremos é que o Brasil seja o sexto país em condições de vida”. Tudo isso confirmado pela prática de professores da Fundação Getulio Vargas, que acabam de iniciar estudos para “desenvolver modelo de índice de FIB adaptado à realidade brasileira”.

É bom saber que alguns economistas brasileiros, de diferentes facções, vêm se manifestando sobre o assunto. O ex-ministro do planejamento Luis Carlos Bresser-Pereira afirma, em artigo na Folha de São Paulo, que a economia, como as demais ciências, só se torna inovadora quando rompe com o senso comum. Para Eduardo Giannetti, o PIB é medida “rústica” e o aumento de renda pode não elevar o bem-estar pessoal. O que é confirmado pelo professor Paul Singer, quando conduz a questão para tema contemporâneo por excelência, ao declarar que o PIB, além de não medir o custo das perdas dos recursos naturais, contabiliza como positivos os gastos das nações na luta contra desastres naturais, incêndios florestais, poluição de oceanos por derramamento de óleo, terremotos como o de Lisboa. “Quanto mais desastres um país sofre, mais seu PIB aumenta; de modo que seu crescimento nem sempre representa aumento de bem-estar de seu povo, mas sua redução”.

É como se eles, ao contrário do célebre candidato norte-americano,  estivessem nos advertindo de que nem tudo é a economia, estúpido. A vida é um pouco mais complexa do que isso e talvez essa divinização medieval e dogmática da economia seja uma das causas da frustração da humanidade contemporânea. Uma grande parte dela morre angustiada pela frustração de uma vida perdida, mal orientada por objetivos equivocados, quase sempre absurdos e desumanos.

carlosdiegues@uol.com.br

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Uma arte que nos ajude a viver

Cacá Diegues    -    20 de abril de 2012

Durante alguns anos, estivemos por aceitar que a pintura tinha acabado, sucedida pela fotografia, pelo vídeo, instalações e performances, pela arte conceitual livre do cavalete e da moldura. Os inovadores, muitas vezes, tentam nos convencer de que suas inovações eliminam tudo que existiu antes delas.

Em algum momento do século 20, o século das vanguardas, quando a arte se liberta do mecenato dos poderosos e se dispõe a enfrentar a disputa democrática do mercado, impondo-se pelo ineditismo de sua individualidade, pareceu que, de Manet a Mondrian, de Picasso a Duchamps, tudo que de novo acontecia fazia desaparecer o que lhe veio antes. Na melhor das hipóteses, transformava o anterior em curiosidade arquelógica.

Mas assim como o cinema não acabou com o teatro, nem a televisão acabou com o cinema, a pintura voltou a existir como forma de arte indispensável à nossa sobrevivência, pela nossa própria necessidade de observar os que observam o mundo à nossa volta, os objetos e as paisagens nele contidas, a vida que flui de tudo isso, que se  modifica a cada instante e que tem tudo a ver conosco mesmos.

Algumas vanguardas impuseram a “pesquisa de linguagem” como sinal excludente de suas obras, tornando-a a razão de ser delas, o que foi muito salutar para a renovação da comunicação entre os seres humanos. Mas a linguagem é como a moeda – com a diferença de que a moeda compra, enquanto a linguagem vende (uma ideia, uma imagem, um mundo novo, o que seja).

“Quanto mais nossas vidas são dominadas pelas tecnologias digitais, mais se faz premente uma revalorização do objeto, cresce o apetite por algo palpável, (...) um objeto que ofereça uma experiência íntima,

particular”. Claro que se sucederão nos quadros os elementos de um cotidiano vivido hoje, no nosso tempo de tecnologia sofisticada e de grandes invenções, dos nano-objetos e da cultura pop, da história em quadrinhos e dos e-books.

A citação entre aspas no parágrafo anterior vem do livro “Pintura Brasileira Séc. XXI”, publicado pela editora Cobogó e organizado por Isabel Diegues e Frederico Coelho, que nos revela essa notícia da pujança da pintura no Brasil de hoje. Uma pintura cuja história parecia encerrada, talvez com a Geração 80, petrificada na tradição mais nova de Helio Oiticica e Ligia Clark, depois das gloriosas disputas entre concretismo e neo-concretismo, além das diferentes vertentes do modernismo fundador.

No ensaio “Delicadeza”, do professor Denilson Lopes, o autor nos diz que “no horizonte das ambiguidades pós-modernas e pós-utópicas, o novo e o choque deixam de ser marcas de ruptura para se tornarem estratégias de marketing e de produção de notícia”. E acrescenta que é preciso “caminhar diante do peso das coisas, com a leveza na alma”. Esse é um programa desejável e possível para a arte do século 21.

Não sou um especialista, não sei dizer quando e com quem essa vigorosa nova pintura brasileira se instala entre nós. Sei do pioneirismo das grandes Adriana Varejão e Beatriz Milhazes, da generosa ansiedade antropológica da primeira à abstração delirantemente ornamental da segunda; como já sabemos, desde sempre, do valor da polifonia solar de Luiz Zerbini ou da melancolia sombria de Rodrigo Andrade.

Mas o que nos surpreende nessa coletânea de pintores brasileiros é a espantosa diversidade, a força das escolhas pessoais de cada um, a multiplicidade de estilos e modos de pintar de tantos jovens artistas em busca de afirmação. O jeito único de cada um usar a tinta e o pincel sobre a tela.

Esse grupo de 33 artistas que pouco se parecem uns com os outros, nos lembra que o mundo de hoje não absorve mais movimentos dogmáticos, mesmo que eventualmente iluminados. A força do conjunto não está mais na unidade de princípios, meios e fins, como no modernismo e outros movimentos do passado, mas na absoluta exposição pessoal de cada um, por sua própria conta e risco. Uma ideia de arte que corresponde bem ao nosso mundo da internet, da fragmentação cultural, do compartilhamento inter-individual, mesmo que o formato (a pintura) seja secular.

Da poesia fragmentária de Bruno Dunley ao humor gótico de Eduardo Berliner, da abstração geométrica de Gisele Camargo ao delírio ornamental de Janaina Tschäpe (excelente hibridismo étnico contido no nome), para citar apenas alguns, o que vemos em “Pintura Brasileira Séc. XXI” é um extraordinário panorama do que pode vir a ser uma arte livre de obrigações canônicas, capaz de se renovar sem estabelecer regras coletivas, comuns a todos. Uma arte que nos ajude a viver.  

carlosdiegues@uol.com.br

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Onde está o futuro da humanidade

Cacá Diegues    -    5 abril 2012

Num recente encontro internacional no Rio de Janeiro, o RioContentMarket, o professor Jonathan Taplin, da Universidade do Sul da California (USC), especialista em comunicação e entretenimento, declarou do alto de sua autoridade acadêmica que “o próximo centro de explosão de criatividade cultural do planeta será o Brasil”.

Bem, a declaração do professor americano não me surpreende nem me comove, há algumas décadas que eu e muitos outros brasileiros já sabemos disso. Aliás, foi isso mesmo que Stefan Zweig quis dizer, em meados do século passado, quando afirmou que “o Brasil é o país do futuro”. Ao que o poeta francês Paul Claudel, servindo seu país por aqui, acrescentou maldosamente: “et il y restera” (e assim continuará sendo).

Somos o Extremo Ocidente, a Roma Tropical de Darcy Ribeiro, sucessores da civilização grega como origem do que somos, luso-africanos para sermos ainda mais diferentes e modernos. Sim, possuimos equipamentos culturais que podem nos permitir interferir no rumo da civilização planetária num nível de generosidade, fraternidade e tolerância, do qual a humanidade não foi até aqui capaz.

Esse conjunto de elementos forma a indubitável vocação de grandeza do Brasil; pena que o Brasil viva de não realizar as suas vocações. Sobretudo as grandes.

Agora mesmo passamos por um outro momento de expectativa em relação a nosso futuro, uma expectativa compartilhada pelo mundo afora. De “subdesenvolvidos” e “terceiro-mundistas” no passado recente, viramos “emergentes”, um progresso vocabular de respeito. E, como “emergentes”, esperam de nós uma economia triunfante e uma explosão cultural.

Sei que estamos todos preocupados com a corrupção de nossos políticos, com a promiscuidade nas relações deles com o crime e a contravenção. E fazemos bem em nos preocuparmos com isso. Mas o que hoje chamamos de corrupção sempre foi uma característica indelével do que, sob vários disfarces, constituiu nosso estado escravagista e patrimonialista desde o império. Chamá-la hoje de “corrupção” é portanto criminalizar esse mau costume de nossas elites políticas. O que já é demonstração de avanço.

A corrupção é a filha troncha da mesma família cultural, política e institucional que gerou a nossa velha tradição autoritária. Pois entre nós, ainda desde o império, a democracia tem sido uma fantasia que vestimos durante os dias de carnavais periódicos de liberdade, como o que vivemos hoje. Mesmo quando, durante esses períodos, todos os lados juram-lhe amor eterno, a democracia é sempre confundida com nossos próprios interesses ideológicos e materiais, prisioneira de seus limites.

O filósofo contemporâneo Slavoj Zizek se insurge contra o que diz ser uma moda na filosofia pós-moderna, a de se tomar a verdade como algo opressivo que deve ser substituido apenas por opiniões. Mas é uma pena que um certo pós-modernismo, um pouquinho que fosse, não nos tenha chegado às nossas disputas politicas! Quem sabe aprenderíamos que não é democrático possuir a verdade e, em nome dela, desqualificar ou pregar a eliminação de quem não está de acordo conosco. 

No Brasil, as concepções de mundo que gerem a política são quase sempre abrangentes, absolutas e totais. E toda ideologia totalizante acaba sempre por gerar uma prática totalitária.

Todas as grandes revoluções modernas de libertação, idealizadas e lideradas por intelectuais e líderes cultos, da Revolução Francesa à Cubana dos anos 1960, da Revolução Soviética aos Aiatolás do Irã, da independência da Argélia à Grande Marcha na China dos anos 1940, terminaram sempre em longas noites de terror, graças à incapacidade que tiveram de mudar sem oprimir, de libertar em liberdade. Não basta ser inteligente e saber das coisas, a “Porta do Inferno” de Rodin era dominada por um pensador.

O historiador Bóris Fausto, no livro “Ócios e Negócios”, diz que, no Brasil da segunda metade do século 20, o interesse pela Revolução Francesa (1789) tinha, como contrapartida, o total desinteresse pela Revolução Americana (1776), por parte de professores e alunos universitários. Assim perdiam-se questões sobre o modelo da República, da competência legislativa, da natureza do governo central, da autonomia dos estados, da separação entre os poderes, do papel exercido pela Suprema Corte, que, quando afloradas, eram vistas como filigranas da superestrutura de um país imperialista.

Não é preciso amar a cultura política norte-americana para perceber que, com isso, o processo de construção de instituições democráticas, tema hoje indispensável no mundo todo, era simplesmente ignorado  no Brasil. E assim não se falava mais da única revolução que exprimiu seus anseios defendendo o direito de cada cidadão à busca da felicidade. O pavor dos autoritários é sempre o indivíduo, a força de suas circunstâncias e alternativas que lhe escapa à ordem.

carlosdiegues@uol.com.br

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A cultura é a alma de um povo

Cacá Diegues  -    23 de março de 2012

Vira e mexe, a ministra Ana de Hollanda é atacada pelos jornais, através de artigos e manifestos, como uma Geni da cultura. Essa semana, texto subscrito por professores universitários, no jornal Estado de São Paulo, e entrevista do ex-ministro Juca Ferreira, na Folha de São Paulo, pareciam petardos sincronizados, como numa campanha bélica bem tramada.

Não sou especialista em administração pública. Mas conhecendo a ministra e acompanhando de longe sua ação à frente do ministério, me estarreço com a violência praticada contra ela. Chego a pensar que não estamos acostumados à política exercida com discrição e serenidade, gostamos da tradição dos berros e dos murros na mesa, confundimos delicadeza com fragilidade.

São tão tortuosos e pouco sólidos os rumos desses desaforos, tão clara sua voracidade política, que seria mais simples se os agressores declarassem logo: “É que não vamos com a cara dela”.  

Juca Ferreira, o ministro do projeto autoritário da Ancinav, não esconde contra o que se bate: “Num estado com pouco controle social como o Brasil, você diz e faz o que quiser”, declara em tom de lamentação, sobre algo que devia nos orgulhar. Antes dele, os professores liderados por Marilena Chauí listam várias expressões acadêmicas que gostariam de ouvir vindas do MinC e exigem dele uma participação criativa que não lhe cabe ousar ter. O velho e místico sebastianismo brasileiro ainda pensa que é o estado que produz e deve produzir cultura.

Ora, para os que já se esqueceram dele, lembro trechinho do belo discurso de posse da presidente Dilma Rousseff:  “A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade. Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais”. E então fui me informar do que anda fazendo o MinC de Ana de Hollanda para atender a esse programa anunciado pela presidente. Aqui trasmito algumas respostas ouvidas por mim.

Em 2011, o MinC não só conseguiu dar conta de um enorme passivo de compromissos que ficaram a descoberto em 2010, como alcançou uma execução recorde de 98,98% dos limites autorizados para empenho. Isso significou R$ 1,069 bilhão em investimentos diretos, o maior número já alcançado pelo Ministério no que se refere ao efetivamente investido.

Ao contrário do que se tem dito, o orçamento do MinC, na gestão da presidente Dilma, é maior e mais realista do que o de gestões anteriores. O total de investimentos é de R$ 1,24 bilhão. Somando-se a isso os R$ 400 milhões a serem incorporados através do Fundo Setorial do Audiovisual, chega-se a R$ 1,64 bilhão, um recorde sem precedentes na pasta. E não se computa aqui o investimento indireto através das leis de incentivo, como a Rouanet.

E para onde têm ido esses recursos?

Os Pontos de Cultura encontravam-se sem pagamento desde o mês de março de 2010. Na atual gestão, o MinC já pagou cerca de R$ 100 milhões. O crescimento do orçamento do Programa Cultura Viva tem permitido a criação de novos Pontos de Cultura, o revolucionário projeto inaugurado por Gilberto Gil. Em 2010 o investimento nos Pontos de Cultura era de R$ 50 milhões. Em 2011, o primeiro ano da gestão atual, foram empenhados R$ 62 milhões e em 2012 esse valor saltou para R$ 114 milhões.

Em fevereiro desse ano, a ministra aprovou, junto à presidência, uma lista de programas prioritários que já estão em execução: o Brasil Criativo, que visa ampliar as possibilidades de emprego e renda, a partir do potencial criativo; o Mais Cultura & Mais Educação, em parceria com o Ministério da Educação, para investir em cultura nas escolas; o PAC das Cidades Históricas, atuando em 125  cidades que possuem sítios históricos ou bens tombados; o de Praças dos Esportes e da Cultura, na periferia de 345 cidades, para construção da parques esportivos, bibliotecas, salas de espetáculo, cineclubes.

O ministério está investindo no processo de implantação do Sistema Nacional de Cultura, que pulou de 337 municípios e um estado integrados até 2010, para 782 municipios e 17 estados hoje. Na área do audiovisual, a aprovação recente da Lei 12.485 vai permitir a presença do produto nacional independente nas televisões por assinatura e o crescimento dos recursos do Fundo Setorial. Um instrumento de remissão do cinema brasileiro.

Além disso, o MinC, com o apoio da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura, se empenha na aprovação, pelo Congresso, de leis como as do Vale Cultura, do Procultura e sobretudo da revisão dos Direitos Autorais.  Sou internauta e sei que não é mais possível nem desejável recolher esses direitos como se fazia no passado. Mas também não estou disposto a entregar o que sai de minha cabeça ao Creative Commons, um projeto de marketing de empresa esperta.

Foi isso o que me contaram e eu ouvi do MinC. Se alguém não concorda, que apure e se manifeste. Não precisa trucidar quem está do outro lado.

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Chico Anísio foi e será sempre o Rei da Comédia, como Pelé é do futebol e Roberto Carlos da canção popular. Aqui, o clichê é exato e irresistível: o mundo vai ficar mais triste sem ele.

carlosdiegues@uol.com.br

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A construção de uma imagem

9 de março de 2012

A população do país precisa se dar conta da importância da Lei 12.485 para todos nós brasileiros. Essa lei, recentemente aprovada pelo Congresso, trata de conteúdo nacional nas televisões por assinatura. Mas não se trata de reivindicação corporativa, benefício exclusivo para a atividade que fabrica esse tipo de produto. Trata-se de exibir, nas telinhas brasileiras, sons e imagens do Brasil, num diálogo com o público que esteja à altura de nossas criatividade e diversidade, que seja um espelho de nossos costumes e, ao mesmo tempo, capaz de propor novos comportamentos para novos tempos.

Quando dizemos “sons e imagens”, estamos nos referindo a toda uma família do audiovisual da qual o cinema é apenas um avozinho que gerou descendência luminosa, da televisão aberta à internet, do DVD à televisão por assinatura. Além dos múltiplos novos formatos que ainda vêm por aí.

Poucos sabem que o cinema brasileiro é um dos mais antigos do mundo. A primeira sessão de cinema se deu no dia 28 de dezembro de 1895, num café de Paris. Em junho do ano seguinte, já se realizavam projeções, aqui mesmo no Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, as primeiras sessões de cinema na América Latina. Cerca de apenas um ano depois, um fotógrafo ítalo-brasileiro já estava filmando a entrada da Baia da Guanabara, realizando assim o primeiro filme sul-americano.

Mas o cinema brasileiro nunca teve uma história fluente, sempre viveu de ciclos que se abriam com grande euforia e, depois de muito pouco tempo, se fechavam melancolicamente, vítimas de circunstâncias políticas, econômicas ou institucionais. Foi assim com a vasta produção de filmes brasileiros na primeira década do século 20, com os ciclos regionais dos anos 1920 e 30, com a chanchada, a Vera Cruz, o Cinema Novo, a Embrafilme.

Desde a promulgação da Lei do Audiovisual, ainda durante o governo Itamar Franco, o cinema brasileiro vive um novo período que, passados 20 anos, já podemos desconfiar de que não se trata de mais um ciclo, mas da inauguração do cinema como atividade permanente no Brasil.

Isso significa que podemos enfim contar com a fabricação regular de uma imagem para o país através de seu cinema. Uma imagem que deve ser espelho e estímulo, descoberta e reflexão, capaz de colaborar com a construção de nossa identidade. Sendo que a identidade de um povo não se determina pela data imutável de seu nascimento no passado, mas pelo futuro do que ele for capaz de construir.
A Lei 12.485, pela qual tantos lutaram, inclusive os responsáveis pelo sucesso de nossa televisão aberta, representa a consolidação desse movimento coletivo, abrindo nossas telinhas àqueles novos sons e imagens, representantes de nossa diversidade geográfica, étnica, cultural. Essa lei reserva, para a exibição do audiovisual nacional independente, três horas e meia semanais (cerca de dois por cento de toda a duração da semana) da programação de cada canal, além de 1/3 de canais nacionais (tipo Canal Brasil) nos pacotes de cada operadora.

Contra isso, se insurgem alguns poucos insatisfeitos, como a Sky, recorrendo à Justiça para impedir essa redenção do nosso audiovisual. Ora, a lei não estupra ninguém, não impede que cada canal faça sua programação como bem entender, contrate o produto nacional que lhe for mais conveniente, estabeleça preços de mercado para essas operações. Ninguém se mete na vida deles, apenas pedimos licença para ocupar um espaçozinho modesto em nossa própria casa.

Não basta que a Ancine e os cineastas brasileiros se unam na defesa dessa lei. É preciso que a população compreenda que ela é uma necessidade do país como um todo, uma necessidade que não atende apenas à corporação do cinema mas ao interesse de todos. Não estou exagerando: temos que lutar pela regulamentação e execução da Lei 12.485 como fizemos há quase dois séculos pela independência do país. Ou como nos empenhamos, mais recentemente, para livrar o país da ditadura que nos oprimia. 

Em contrapartida, é preciso que a Ancine ouça a todos e que todos colaborem com a Ancine para evitar a burocracia que estrangula as leis e as torna ineficazes. É preciso produzir uma regulamentação que não sufoque nem exclua o modesto produtor independente, que não imponha nem cerceie a liberdade das operadoras e programadoras.
Essa semana, em entrevista na televisão, um político respeitável como Aldo Rebelo, liderança proeminente do mesmo partido do presidente da Ancine, alguém que já passou pelos cargos mais importantes do Legislativo e é hoje Ministro dos Esportes, reclamava do que chamou de “excesso de burocracia no país”. Se um ministro da confiança do governo tem esse cuidado, imagine nós que não temos o seu poder. 

carlosdiegues@luzmagica.com.br

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Esse mundo é um pandeiro

24 de fevereiro de 2012

O título desse texto é tomado de um filme brasileiro de 1946, chanchada dirigida por Watson Macedo, um dos inventores e mestre do gênero. “Esse mundo é um pandeiro”, com Oscarito e Grande Otelo, era uma narrativa cômica em torno da verdade e da mentira (a história de um falso marido e suas relações com sua falsa família), num ambiente de carnaval ilustrado por sambas e marchinhas de sucesso naquele ano.

Mais tarde, em 1989, o jornalista, crítico e ensaista Sergio Augusto, outro mestre de seu gênero, usou o mesmo título em seu livro sobre cinema brasileiro, cujo subtítulo era “A chanchada de Getúlio a JK”, explícito anúncio ao leitor da pólis de onde vinham esse e outros filmes semelhantes.
Cada vez gosto mais do carnaval, cada vez admiro mais o carnaval carioca. Entre outras coisas, por confirmar essa eterna alegoria do pandeiro como narrativa de um jogo ou de uma brincadeira que tornam impreciso o limite entre a verdade e a mentira. Ou proporcionam a inversão de papéis na sociedade, como nos foi ensinado por Roberto da Matta em seus livros sobre a casa e a rua.

Não entendo o discurso saudosista, em defesa de um suposto carnaval inocente do passado, em que se dançava sem outras intenções e se cantavam marchinhas ingênuas e belas (podiam ser belas, mas ingênuas nunca foram!). Esse é o carnaval idealizado de um Brasil pastoril, cujas elites envergonhadas escondiam do mundo nossa produção cultural. Um Brasil para o qual Carmen Miranda, produzida por Hollywood, era uma humilhação internacional. Um Brasil que precisou que um filme francês, “Orfeu Negro”, “descobrisse” para o mundo, mesmo que equivocadamente,  a grandeza de nossa maior manifestação popular.

Meu pai, o antropólogo Manoel Diegues Jr, me dizia (e escreveu em seus livros) que o caráter de um povo se expressa melhor através de suas festas populares, quando fantasmas e mitos liberados coletivamente podem ser interpretados como projetos comuns. O que me causa pânico quando penso, por exemplo, em Halloween, uma celebração sadomasoquista do horror.

Nesse sentido, o carnaval não deve ser visto como uma experiência de felicidade, mas sim como uma representação dela. Nas ruas e nos bailes, não estamos experimentando necessariamente a alegria que ali encenamos, mas expondo aquilo que ela podia representar em  nossas vidas. Essa encenação revela nosso desejo mais profundo por ela, revela um projeto de alegria, a prova dos nove oswaldiana.

Quando vi Sheron Menezes lindíssima se esbaldando no desfile de sua escola e depois aos prantos, quando o desfile acabou, era como se ela estivesse me dizendo que havia mordido o fruto da felicidade e lamentava sua perda na volta ao mundo real. Nossa bela estrela chorava pelo que o mundo poderia ser.

Como não tenho mais idade para isso, há tempos abandonei o desfile do Clube do Samba, de meus saudosos João Nogueira e Marco Aurélio, rebolando Avenida Rio Branco abaixo. Mas esse ano, vendo a cobertura da televisão, não pude deixar de me surpreender com a mudança brusca de estado de espírito, cada vez que o folião se sente flagrado pela câmera. É como se subitamente lembrasse estar no palco de um teatro, onde tem um papel a representar e não pode nos decepcionar. E então sai da sombra de um certo laconismo para a luz de uma imensa alegria. 

Não consigo entender porque o teatro, o cinema e mesmo a literatura brasileiros se servem tão pouco do carnaval. Herdeiras da Commedia dell’Arte num cruzamento com as manifestações religiosas do mundo ibérico, as escolas de samba são o mais nobre, mais complexo e mais bem sucedido teatro popular de rua da cultura ocidental. Não consigo entender nosso desprezo por sua teia dramatúrgica tão original, essa estrutura de representação do mundo cada vez mais sofisticada, com uma dinâmica própria que muda sua história pelo menos a cada década.
Esse ano, por exemplo, a Porto da Pedra introduziu no Sambódromo o primeiro enredo baseado em consumo industrial contemporâneo, um enredo revolucionário que, não fosse o acanhamento de seu desfile,  podia ter mudado o rumo das coisas, como no passado a Chica da Silva de Fernando Pamplona ou os mendigos e urubus de Joãozinho Trinta. Neste carnaval, a Porto da Pedra cantou o iogurte, com uma comissão de frente de lactobacilos e tudo!

Como em qualquer outro conjunto de produção cultural,  as escolas de samba são o mainstream (a corrente principal) do carnaval carioca, enquanto os blocos de rua (cada vez mais numerosos e populosos) são sua reflexão espontânea e desorganizada, sem regras nem rigor. Digamos ainda que alguns pequenos grupos, espalhados em diferentes bairros da cidade,  fazem o papel de vanguarda, propondo todo ano alternativas ao desenvolvimento do conjunto do carnaval.

Em todas essas manifestações, mesmo no mainstream, verifica-se a vitória absoluto do híbrido, o desejo de misturar elementos estranhos que não tenham necessariamente nada em comum, uma reprodução do mundo fragmentário, compartilhado e mestiço em que vivemos. Aqui, “o puro não tem futuro”, como cantava um cantor catalão que ouvi em Barcelona.

Nossos projetos pertencem ao mundo dos sonhos e os sonhos pertencem somente à pessoa que sonha. Você não precisa pedir licença a ninguém para sonhá-los.

carlosdiegues@uol.com.br

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O cinema segundo Nelson

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27 de janeiro de 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No auge da juventude de minha geração, quando estávamos convencidos de que íamos mudar o mundo com nossos filmes, costumávamos andar sempre em bando, como acontece quando compartilhamos utopias. Àquela altura, o Laboratório Líder era uma espécie de sede social do Cinema Novo em formação, de nossos encontros e reuniões realizados entre o casarão da rua Álvaro Ramos e, na calçada oposta, um botequim modesto do qual nunca se soube o nome, pois só o chamávamos de Bar da Líder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No simpático pé-sujo, se faziam negócios e se trocavam informações, se discutia o futebol e se desenvolviam teorias sofisticadíssimas sobre o cinema em geral e o brasileiro em particular, tomando chope gelado e café requentado, comendo ovo cozido pintado de várias cores (a maior parte das vezes, cor-de-rosa), servido por Raimundo, garçon nordestino de bigodes fartos e temível corpanzil, que não respeitava ninguém.

 

Por ali, reinava soberano sobre todas a tribos Nelson Pereira dos Santos que tinha terminado “Mandacaru vermelho”, interpretado por ele próprio e Miguel Torres, ator que teria sido Fabiano em “Vidas secas”, não tivesse morrido tão cedo.

 

Nelson tinha ido para a Bahia filmar o romance de Graciliano Ramos, seu velho sonho, mas uma chuva inesperada tornou a caatinga verdejante durante meses. Para não perder a viagem e os recursos levantados, improvisou outro filme, um roteiro escrito em parceria com Miguel à medida que as filmagens avançavam, uma rapsódia romântica passada num nordeste cuja secura não estava na geografia, mas na alma de seus personagens.

 

Era pelos cantos do Bar da Líder que trocávamos confidências sobre namoradas, família e outras amarguras. Era naquelas mesas bambas que contávamos uns aos outros os filmes que queríamos fazer. Foi ali que ouvi de Glauber Rocha, pela primeira vez, sua profecia recorrente e não realizada de que morreria aos 24 anos, como Castro Alves, o poeta baiano que nascera no mesmo dia que ele, 14 de março. Foi ali que Paulo César Saraceni decretou que o Cinema Novo não tinha nada a ver com idade, o Cinema Novo era uma questão de verdade e amizade. O que tinha tudo a ver com o Bar da Líder.

 

Uma noite, alertados por Paulo César, corremos atrás de Glauber que, numa crise de angústia e pessimismo,  jogava os copiões de “Barravento” no lixo da Líder. Nelson ajudou a recolher os copiões do lixo e terminou montando “Barravento”, como faria depois com o episódio de Leon Hirszman em “Cinco vezes favela”. Passamos a invadir em bando a sala de montagem dos dois filmes, para não perdermos essas aulas magnas de cinema.

 

Dentro ou fora do Bar da Líder, Nelson era o grande mestre celebrado e respeitado por todos, não se fazia nada de importante sem que fosse consultado. A diferença de idade entre ele e nós, que hoje não significa nada, era às vezes incômoda. Ela criava uma relação de certa cerimônia, para a qual contribuía sua ironia suave mas perfunctória, uma doçura que às vezes se transformava de repente em discurso agressivamente crítico.

 

Certa vez, numa mesa do botequim, cercado de colegas, levei um desses seus esporros monumentais porque falei mal de um filme brasileiro recém-lançado, realizado por um cineasta que não era muito admirado por nossa turma. Embora ferido, não tive coragem de responder-lhe. Mas também nunca mais esqueci seus argumentos em torno da responsabilidade que temos sobre todo e qualquer filme brasileiro, a necessidade de vê-los com um olhar responsável.

 

O que dissermos sobre um filme de Scorsese ou Spielberg não fará a menor diferença para a vida de seus realizadores. Mas a existência de um filme brasileiro depende de nós e de nossa disposição diante dele. É preciso ao menos um pouco mais de cuidado ao reagirmos ao filme, porque não se trata de perguntar se é possível fazer cinema no Brasil e sim se  isso é desejável. Se queremos mesmo que exista um cinema brasileiro.

 

Agora Nelson nos dá um presente surpreendente, uma afirmação positiva dessa ideia,  com seu documentário (?), em parceria com Dora Jobim, “A música segundo Antonio Carlos Jobim”, em cartaz em todo o Brasil.

 

Nem reparei que era um documentário, que não havia tramas, personagens ou diálogos nesse filme, para mim estava sendo contada a história de um dos gênios brasileiros do século 20, através de sua produção artística. E, com essa história, registrava-se na tela uma cronologia do que esse país já teve de melhor, como exemplo do que poderemos sempre ser.

 

Todos os momentos de “A música segundo Antonio Carlos Jobim” são imprescindíveis e inesquecíveis, do jeito que estão lá. Da voz inteligente e doce da bossa nova de Nara Leão à energia espetacular e dramática de Ellis Regina, da consagração ao lado de Frank Sinatra à cantora alemã sem balanço a cantar “Garota de Ipanema”, é como se todos nós tivéssemos feito esse filme. Só um grande mestre do cinema é capaz de realizar um sonho desse.  

 

carlosdiegues@uol.com.br

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Assim se passaram os anos

13 de janeiro de 2012

Como mudamos de residência da Gávea para Ipanema e a sede de nossa produtora está instalada agora no centro da cidade, passei a ser um usuário frequente do metrô carioca. Chego muito mais rápido à Cinelândia do que se fosse de automóvel. E ainda posso, durante a curta viagem, ler confortavelmente o jornal do dia ou um livro cuja leitura esteja como sempre atrasada.

Sempre que viajo para Paris, Nova York ou Londres, uso habitualmente os metrôs dessas cidades, fugindo do caos urbano e de um tráfego de automóveis que está tornando inviáveis todas as grandes metrópoles do mundo, inclusive as nossas. E não estou me referindo apenas ao caso óbvio de São Paulo e Rio de Janeiro, mas também ao engarrafamento permanente em Salvador, Belo Horizonte, Recife  e outras capitais.

Imagino que, qualquer dia desses, os carros não poderão mais avançar um milímetro, o engarrafamento total será definitivo, os motoristas abandonarão suas máquinas por inúteis e as ruas das grandes cidades ganharão uma nova presença ornamental, uma serpente metálica a ocupar suas ruas permanentemente.

Quando de manhã saio para a estação terminal de Ipanema, onde pego o trem para a cidade, sigo rota patriótica pela Visconde de Pirajá, homenagem a nobre militar baiano, herói de nossa Independência, até a praça General Osório, outro soldado glorioso, nosso líder na guerra do Paraguai. Curiosamente, seguindo por aí, só atravesso transversais com referências à Bahia, ruas dedicadas aos que também lutaram pela independência do Brasil naquele estado.

Não que Garcia d’Ávila, Maria Quitéria, Joana Angélica e mesmo o corneteiro em frente ao Bob’s não mereçam tal homenagem. Pelo contrário, a pátria lhes deve muito mais do que uma simples placa de rua. Assim como a Vinicius de Moraes que, não por acaso, se segue aos ilustres baianos, já que em vida foi quase um deles (quem diabos será Farme de Amoedo?).

Mas por que em Ipanema? Que luminosa premonição uniu o bairro de Tom Jobim e da Garota à terra de Dorival Caymmi e Jorge Amado, mesmo que através de nomes de bravos guerreiros?

Talvez Ipanema já estivesse condenada a uma certa baianidade, desde sua criação e divisão em lotes e ruas. Quem sabe não existe em Salvador uma rua chamada Carlinhos de Oiveira e outra Tarso de Castro, embora nenhum dos dois nunca tenha pegado em armas? Por que não consagrar de uma vez a simbiose, inaugurando simultaneamente, aqui e lá,  praças João Gilberto?

A minha primeira boa surpresa, ao chegar pela primeira vez à estação Ipanema, foi descobrir que gente da minha idade não paga a passagem e não precisa nem entrar em fila. Sou o que os americanos chamam gentilmente de senior citizen e como tal me trata o metrô de minha cidade.
O funcionário que me deixa atravessar a roleta é gentil e atencioso, me faz um sinal de que nem preciso mostrar a carteira de identidade. Deve ser porque minha idade já está flagrantemente inscrita em meu rosto. O que me deprime um pouco, claro, mas não deixo o funcionário perceber, sorrio de volta para ele.

Num outro dia, quando volto para casa, no horário de pico em que o vagão já se encontra lotado, uma moça se levanta e me oferece gentilmente seu lugar, com o mesmo sorriso compreensivo do funcionário da roleta. É claro que não aceito, embora agradeça penhorado. Ainda sou capaz de passar uns 20 minutos em pé, para isso faço aeróbica diária, além de pilates e musculação de vez em quando, ora!

Há algo no metrô carioca que faz com que seus usuários, assim que penetram em seus corredores, escadas e vagões, se tornem ordeiros, cavalheiros e gentis. Pode ser que o futuro me desminta, mas por enquanto não tenho para contar um só pequeno acidente que tenha testemunhado, fugindo dessa regra geral. Não importa se os trens estejam lotados ou não, os passageiros se respeitam mutuamente e tentam fazer da viagem algo pelo menos suportável.

Quando Jorge Amado fez 80 anos, fui-lhe prestar minhas homenagens e lhe disse o lugar-comum (no meu caso muito sincero) de que gostaria de chegar à sua idade na forma em que se encontrava. Jorge respondeu de pronto que eu estava enganado, que não havia uma só vantagem em envelhecer. Mais recentemente, fui comemorar outros 80 anos, dessa vez do produtor Luis Carlos Barreto, cuja celebração foi uma pelada de futebol em que o aniversariante foi o melhor em campo.

Mesmo que às vezes me esqueça de praticá-lo, acho que sei o segredo desse estar no mundo em qualquer idade. De Orfeu e Eurídice à mulher de Lot, quem olha para trás vira sempre estátua de sal. E quando olhar para a frente, lembre-se sempre de que enquanto se espera pelo inevitável, o que acaba chegando é o inesperado. Isso está no livro “A soma e o resto”, as memórias de Fernando Henrique Cardoso, que li em algumas poucas horas de metrô.

carlosdiegues@uol.com.br

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Xô, ano velho

30 de dezembro de 2011

Deu outro dia no Ancelmo: “O brasileiro pobre acha que a vida melhorou nos últimos anos. Pesquisa do Ipespe, de Antonio Lavareda, mostrou que, para 85% dos brasileiros da classe C, a vida deles está melhor, comparada à de seus pais. E, para 87%, a vida de seus filhos ainda será melhor. Para os próximos meses, 81% planejam comprar casa própria; 61%, uma TV de plasma; 60%, um carro; e 56%, um computador”.

E isso deve ser mesmo verdade. Os ingleses acabam de anunciar que já somos a sexta economia do mundo, tendo ultrapassado o próprio Reino Unido. E a presidente Dilma diz que, no ano que vem, o crescimento do PIB será de 5% e a inflação não passará da meta. Aliás, o IBOPE apurou que, em seu primeiro ano de mandato, a presidente tem uma aprovação popular superior às de Fernando Henrique e Lula no mesmo período. Bem que o comercial da Caixa Econômica Federal vem nos garantindo que a vida do brasileiro continua melhorando e que 2011 “foi um ano inesquecível para o Brasil e para milhões de brasileiros”.
Mas para tudo há sempre controvérsias. Somos a sexta economia do mundo, mas nosso ministro da Fazenda avisa que ainda estamos muito aquém dos europeus em matéria de renda per capita. Ou seja, o Brasil vai muito bem; o brasileiro, nem tanto. A controvérsia não acaba nunca, cada vez que damos um passo à frente, um novo obstáculo surge diante de nós. Talvez seja esse o modo mais simples de explicar o que é a vida.

A nova classe média brasileira cresce; mas ainda temos uns 20 milhões de cidadãos (todos o são) abaixo da linha de pobreza. João Gilberto ganhou ação contra a EMI, recuperando o direito de proteger suas obras primas; mas teve que cancelar os shows em que celebraria seus 80 anos de idade. A chamada partícula de Deus, o bóson de Higgs que decifra todos os mistérios da matéria, parece que foi enfim encontrada; mas cientistas europeus e americanos criaram em laboratório uma linhagem mortal de vírus da gripe aviária. Antonio Pimenta Neves e Nem foram finalmente presos; mas tantos corruptos e corruptores (esses também existem) andam à solta por aí. Kim Jong-il morreu; mas Vaclav Havel também. E assim por diante.
Não sou do contra, reconheço que 2011, de um modo geral, foi mesmo um ano muito bom para todo mundo. Mas peço licença para dizer que, para mim, foi uma boa porcaria.
Sobretudo porque nele perdi dois irmãos que me fazem muita falta. Um, Raphael de Almeida Magalhães, bem mais velho que eu, me ensinou muita coisa, além de me dar o exemplo permanente de generosidade e solidariedade, de obsessão pelo Brasil. Sendo essa última uma virtude igualmente presente no caráter do outro que se foi, Gustavo Dahl, meu querido companheiro de geração, o mais elegante e culto militante do Cinema Novo.

Menos grave foram os desentendimentos com pessoas de quem gosto (o amor pode ser unilateral, de mão única), como o jornalista e escritor Arnaldo Bloch. Ele andou escrevendo umas coisas que provocaram minha justa ira, não deixei a cabeça esfriar, respondi com o coração ainda em chamas, fui excessivo. Mas como o mundo é redondo e nós estamos aí, um dia a gente se esbarra. Feliz ano novo, Arnaldo.

Gosto do afeto solidário da festa de reveillon; mas gosto mesmo é de Natal, de todos os natais. Tudo que começa com alegria e esperança merece nossa adesão, mesmo que depois nos decepcione. O poeta, romancista e pintor Jorge de Lima, no ensaio “Todos cantam sua terra”, compara as culturas portuguesa e espanhola, a partir de suas tradições cristãs. Enquanto que para os espanhóis a representação máxima do cristianismo está na Paixão, a crucificação e morte de Cristo, para os portugueses o centro da religião está em seu nascimento, na candura do presépio de Natal.

Em “Andrei Roublev”, de Andrei Tarkovski, invasores asiáticos massacram um vilarejo de camponeses russos, na idade média. Ao entrar na igreja local, um invasor curioso pergunta ao pároco quem é o homem a sangrar numa cruz. O padre responde que é o Cristo, o Deus de sua religião. O mongol reage com ira, se julga ludibriado, imagine se um deus vai se deixar sofrer daquele jeito. E corta fora a cabeça do pároco.

A grande virtude do cristianismo dos evangelhos e das primeiras pregações sempre foi a sua humanidade. Qualquer um podia se identificar com um Deus que se torna homem, ao contrário da tradição politeista em que homens se transformam em deuses violentos e cruéis. O cristianismo começou a perdê-la com a ordenação disciplinar das epístolas paulinas, os penduricalhos rituais criados na idade média, a cruel cegueira da Inquisição, o aparato milionário que resiste ao tempo. O Deus que se tornou homem e se deixou flagelar foi sendo, aos poucos, sufocado por homens que se julgaram deuses.

O ano já ia acabar quando me deparei, na primeira página dos jornais,  com aquela fotografia do menino sardônico ao lado do pai todo satisfeito. Olhos bem abertos, o filho de Jader Barbalho nos mostrava a lingua e abanava as orelhas com a mão, a nos dizer claramente: “Vocês são uns otários, seus burros! Papai é que é foda!”.

Que 2012 não nos leve mais ninguém querido e nos devolva a candura do Cristo na lapinha. E que nos poupe dos meninos espertos e de seus pais vitoriosos.

 
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Hoje é a idade de ouro

16 de dezembro de 2011

Há algumas décadas, muito antes de Woody Allen ter tocado no assunto em “Meia-noite em Paris”, o antropólogo Levy Strauss já nos tinha advertido sobre a ilusão das idades de ouro. Talvez por culpa dos sofrimentos inevitáveis ao longo de nossas vidas, imaginamos sempre que, em algum outro tempo, houve ou haverá dias melhores sem as frustrações e as dores do presente.

Para os conservadores, essa idade de ouro está sempre no passado que não volta mais, só nos resta lamentá-lo e indispor-nos com a decadência do presente. Para os progressistas, ela está no futuro e, para merecê-la, é preciso que sacrifiquemos a insuficiência do presente. E no entanto, a idade de ouro é o tempo que nos foi dado viver.
Na cultura, esse mito da idade de ouro é sempre objeto de polêmica. O poeta Ezra Pound foi quem melhor conseguiu articular essas ideias controversas, quando dividiu os artistas em mestres, inventores e diluidores. A obra dos mestres é clássica, os inventores criam a produção de seu tempo e os diluidores usam os resultados de ambos para consolidar uma tendência.

O desejo de que as coisas dêem eternamente certo perturba a observação delas. Mas sendo a cultura uma criação humana, ela é necessariamente dinâmica, em crise permanente, condenada a um processo de surgimento, apogeu e decadência, como nós mesmos, sem precisar um dia desaparecer da face da terra.

O formato da ópera nasceu no século 18, com “Orfeu e Eurídice” de Gluck, até hoje encenada e gravada. Mas dificilmente surgirão no futuro novos Verdi e Puccini, as grandes estrelas da ópera no século 19, o apogeu desse formato cultural. Da mesma forma, a humanidade vai sempre cultivar a ideia de moda, mas a alta-costura de gênios como Channel ou Dior nunca mais terá o mesmo valor nesse mundo de prêt-à-porter. E não há nada de errado nisso.

Pergunte a qualquer melômano contemporâneo sobre suas esperanças em achar um novo Beethoven por aí. De Bach e Vivaldi a Mozart e Wagner, o formato do que chamamos música erudita alcançou sua perfeição com Beethoven usando todos os equipamentos e alternativas possíveis à sua manifestação. De tal modo que os gênios posteriores de Debussy e Ravel ou de Stravinski e Boulez acabam expressando a melancolia inventiva desse esgotamento, do que não se repete nunca mais. Um pouco como foram as artes plásticas do século 20, do “Olympia” de Manet à tela em branco de Mondrian, uma reinvenção, em novo formato, da pintura esgotada pelo renascimento e diluida pelo neo-clássico do século 19. Ninguém melhor do que Marcel Duchamp compreendeu e deu um basta nisso.

Também jogaremos bola pelo resto da vida e voltaremos ao Maracanã, sempre que houver uma partida de nosso time. Nada nos fará desprezar o futebol. Mas o apogeu do jogo ficou para trás, com o esgotamento de suas estratégias, das seleções húngara de 1954 à holandesa de 1978, com dois picos sublimes: as seleções brasileiras de 1958 e de 1970. Amanhã torceremos por Neymar como já torcemos por Pelé, mas as alternativas em campo são nossas conhecidas, o Barça de Messi nos encanta mas já vimos aquele jeito de jogar, do Ajax de Cruyf ao Flamengo de Zico.
Nada disso significa que a música, a pintura, o futebol e todos os formatos culturais do passado tenham morrido e vão desaparecer para sempre. Continuaremos a ouvir encantados Cole Porter, George Gershwin e Irving Berlin (até roqueiros os gravam!), mas conscientes da intuição de Chico Buarque de que a canção se esgotou, que novos formatos como o rap ganham o espaço desse esgotamento, como Caetano Veloso anda a experimentar há algum tempo, acho que desde o disco “Noites do Norte”.
Como diz o poeta e filósofo Antonio Cícero, as vanguardas do século 20 serviram sobretudo para nos mostrar que as artes não têm limites, não há fronteiras que impeçam o artista de ir adiante. Nas galerias do Chelsea ou em parques como o Dia Beacon de Nova York e o Inhotim de Belo Horizonte, todas as formas se dissolvem sem rumo certo, como se isso fosse necessário para se reencontrar o reinício de alguma coisa, nessa aurora do século 21.

No mundo pós-industrial, à porta do qual nos encontramos, novos formatos culturais estão surgindo, novas artes e novos jogos que a humanidade não vai parar nunca de inventar. Assim como o teatro não acabou com a invenção do cinema, nem o cinema com a da televisão, nem a televisão com a da internet, as economias criativas da era industrial continuarão vivas como fornecedoras de ideias à criação pós-industrial. Assim como o Wikileaks precisou da imprensa de papel para virar escândalo produtor de progresso, os fascinantes games eletrônicos não acabarão com o futebol.

A cada instante, seremos surpreendidos e encantados por novos formatos de novas eras, que nos revelarão mais do espírito humano e do estado do mundo. E nem por isso deixaremos de ouvir Beethoven.

carlosdiegues@uol.com.br          

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O pássaro de fogo

 2 de dezembro de 2011

Amanhã termina mais um campeonato brasileiro de futebol, o nosso Brasileirão, um dos mais emocionantes dos últimos tempos. Se, ao longo da competição, um ou outro jogador se destacou no gosto popular, nenhum time se mostrou muito superior aos outros. Nenhum deles pode se comparar ao Santos de Pelé ou ao Flamengo de Zico, muito menos ao Botafogo de Garrincha. Havia nesses times e jogadores uma espécie de metáfora do estado da nação.

Morador no bairro, sempre que os compromissos com o colégio me permitiam, eu freqüentava o campo do Botafogo, em General Severiano, perto de minha casa, onde às vezes assistia aos treinos dos profissionais e por outras, mais raramente, conseguia vaga em pelada da qual era discretamente afastado antes do segundo tempo. Mas pude ver de perto aquele timaço dos anos 1960, que eu acompanhava dominicalmente por todos os estádios existentes no Rio de Janeiro, batendo bola, brincando entre eles, apostando na pontaria que raramente erravam. Meu encanto era acima de tudo com Garrincha.

Na mitologia popular, alimentada pela imprensa, Garrincha era um novo modelo de brasileiro, uma espécie de desafio a todos os padrões até ali surgidos, com suas célebres pernas tortas e seu físico mambembe. Mas sempre discordei do clichê esportivo que o comparava, talvez por sua lendária inocência, a um passarinho. Ao contrário disso, ele era um caçador de passarinhos, na vida real e na metáfora do futebol, sem   nenhuma inocência do que fazia dentro e fora do campo.

Garrincha se divertia com a desgraça dos outros que humilhava, repetindo várias vezes o mesmo drible, preferindo essa forma de submeter o outro a seu extraordinário poder, do que fazer gol. Embora nunca tivesse cometido uma falta em toda a sua vida de boleiro, embora nunca tivesse tocado num pelo de qualquer adversário, Garrincha era um homicida bem-humorado. Nós gostávamos dele, ríamos com ele, íamos ao orgasmo esportivo com suas jogadas de sempre, porque ele fazia prevalecer nossa inferioridade física e intelectual sobre gigantes estrangeiros super-desenvolvidos.

Nas vésperas da Copa do Mundo de 1958, quando a seleção excursionava pela Europa antes de ir para a Suécia, num amistoso na Itália, Garrincha driblou toda a defesa adversária e, quando já estava diante do gol vazio, voltou para dar mais um drible no goleiro que retornava tonto e se arrastando. E só depois disso fez o gol, como uma espécie de huno a invadir Roma. Tratada como irresponsável, parece que essa jogada teria provocado sua barração pelo técnico Vicente Feola, que deu então preferência ao correto Joel. Feola só escalou Garrincha de volta ao time no segundo jogo da Copa, contra a então temidíssima União Soviética. E o mundo espantado descobriu então aquele milagre esportivo, tomou conhecimento do fenômeno brasileiro. 

Mas aquela jogada na Itália tinha sido a que melhor dava corpo a nossos secretos desejos contra o resto do mundo que nos humilhava com sua pose de riqueza, cultura, tradição, poder. Uma soma de virtudes que nos sufocava na obsessão comparativa de nosso subdesenvolvimento, da nossa incompetência e inviabilidade como nação, dos preconceitos que alimentávamos contra nós mesmos. Garrincha respondia com arte, brincadeira e deboche a esse mito, carnavalizando nossa vingança no campo de futebol. E também com uma ferocidade assassina, à beira da mais extrema e cruel humilhação contra aqueles que julgávamos nos humilhar com sua civilização.

Claro que o Brasil e o mundo de hoje são outros. Mas é importante não folclorizar muito um gênio e herói de uma época, tão único quanto Garrincha foi. Seu correto entendimento pode nos ajudar a nos compreender melhor.

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Duas dicas para esse fim de ano.

Não deixe de ver o filme “As canções”, de Eduardo Coutinho, um dos melhores documentaristas do mundo. Dessa vez ele se aproxima de anônimos em busca de suas canções favoritas e o que elas lembram de suas vidas. Um exercício de compaixão, a solidariedade na trajetória do outro. Risos e lágrimas de amor sem invenções de roteirista, o melodrama popular no seu estado mais puro e mais comovente.

Não deixe de ouvir o CD “Diurno”, de Ava Rocha. Uma voz grave como a daquelas cantoras européias de cabaré romântico, no entre-guerras. Uma reinvenção do expressionismo musical, num país do impressionismo delicado das cantoras de MPB. De clássicos como “Movimento dos barcos” e “Pra dizer adeus” a composições dela e de seu grupo, como “Só uma mulher” e “Infinito azul”, o CD tem um tratamento musical ao mesmo tempo ousado e requintado.

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Outra coisa. Há processos de cassação em andamento contra dez governadores. Um deles, o de Anchieta Junior, do PSDB de Roraima, foi julgado essa semana por abuso de poder econômico. O abuso de poder mudou de lado. No passado, durante a ditadura militar, era ele que cassava os políticos de bem. Apesar de não ser ainda o nosso ideal, o país melhora a olhos vistos. 

carlosdiegues@uol.com.br

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Desgraças, esforços e milagres

18 de novembro de 2011

Se você for à Rocinha ou a qualquer dessas comunidades ocupadas pela política de pacificação, com UPPs já instaladas ou não, se surpreenderá com a serenidade dos moradores em relação ao que está acontecendo. Não há euforia histérica provocada pela fantasia, nem o pessimismo dos que perderam a confiança na possibilidade de mudança. Principais vítimas da violência provocada pelo tráfico de drogas armado, os moradores comemoram o alívio da segurança inédita, assim como se conscientizam de que tudo isso é apenas um começo.

Como José Mariano Beltrame, nosso secretário de segurança, tem anunciado sempre, a política de pacificação não vai acabar com o tráfico de drogas nas favelas. Seu objetivo é recuperar, para a sociedade, um território público ocupado por armas de guerra que mantinham a população sob o controle social do terror. O tráfico de drogas no Rio de Janeiro, assim como em Nova York ou Shangai, em Paris ou Cabul, vai existir sempre, enquanto houver consumidores dispostos a pagar por seus produtos.

A droga não é uma epidemia passageira, mas um hábito social em crescimento, praticado por minorias que dificilmente abrirão mão dele. Não há outra solução para as consequências danosas desse hábito que não seja a legalização capaz de permitir o controle público, como já acontece com o tabaco, o álcool ou a química da tarja preta. Nossos políticos precisam se dar conta disso, em vez de reagir à truculência dos bandidos com indignação demagógica ou mera sede de sangue.

O secretário Beltrame e o governo do estado costumam anunciar que a instalação de UPPs é apenas um primeiro passo em direção à efetiva integração dessas populações à cidade, tornando-as parte do bairro em que se encontram. Para isso, é preciso que cheguem às favelas, depois da segurança pública,  os outros serviços devidos pelo estado a seus cidadãos, sem nenhuma segregação. A cidade é, por definição etimológica, o espaço da cidadania a que todos têm direito.

Se acreditamos mesmo nesse “choque de cidadania”, temos o dever de colaborar com ele, como membros de uma mesma sociedade. As favelas cariocas são um exemplo do que dizia Joaquim Nabuco, no início do século 20, sobre a permanência da cultura da escravidão no futuro da sociedade brasileira. Elas sempre foram vistas pelo poder público como um câncer social que seria um dia extirpado através da remoção, o gesto hipócrita de afastar dos olhos da cidade a injustiça que ela mesma pratica.
Hoje seus moradores não admitem mais a remoção, se orgulham de onde moram, de seus vizinhos, da solidariedade entre eles, do que são capazes de construir juntos. E isso repercute na cultura sem auto-piedade que fabricam agora, mesmo quando reprimidos pelo controle social do tráfico armado. Para que a paz se consolide, exigem que também subam o morro saneamento, saúde, educação, todos os serviços que o estado é constitucionalmente obrigado a prestar, mesmo que não cheguem sem algum trauma.

Por exemplo, não é tão simples assim desinformalizar a economia local, impor-lhe taxas e impostos, alvarás e outros documentos exóticos, depois de décadas de abandono e informalidade controlada e explorada pelo tráfico e por policiais corruptos. Um mototaxista consegue obter sua habilitação e a licença de seu instrumento de trabalho da noite para o dia? Um pai de família terá como alterar logo sua planilha de despesas, de modo a trocar o gatonet de R$10 reais pela assinatura da TV de R$70? O bar que vendia quentinhas aos traficantes ganhará novos clientes antes de falir? Em quanto tempo será possível a adequação à formalidade e quanto ela custará aos moradores?  

Acima de tudo, é preciso garantir emprego e renda para a população das favelas por muito tempo abandonada pelo poder público, onde o tráfico sempre foi provedor de ocupação, não só recrutando jovens desocupados, como também envolvendo moradores inocentes na economia criada em torno de suas necessidades e serviços. Esse é um dever do estado, mas também da sociedade civil e mais particularmente dos empresários, afim de garantir a integração social de uma população marginalizada.

Uma consultora do IBGE afirma, no Globo de quinta-feira, a propósito do censo de 2010, que “o nível de concentração dos rendimentos no Brasil é muito elevado”. Os 10% dos domicílios do país com maiores rendimentos são donos de 42,8% do total dos ganhos, numa média por domicílio de R$9.501. Na outra ponta, 1,3% dos ganhos pertence aos 10% que possuem os menores rendimentos, numa média de R$295. É evidente que o tráfico de drogas não é o único problema dessa base da pirâmide social brasileira.
Comemoremos a política de pacificação do governo do estado. Mas vamos levá-la adiante com nosso próprio esforço, se queremos vê-la bem sucedida. Nada é impossível. No livro “Jó”, de J.Roth, o personagem principal diz a outro de pouca fé que só “quem nunca conheceu a desgraça não acredita em milagres”.

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A pergunta que não quer calar: os espertos que desejam avançar nos royalties do petróleo dos estados produtores vão dividir com o Rio de Janeiro os prejuizos causados, no mar e em terra, pelo vazamento da Chevron na bacia fluminense de Campos?

carlosdiegues@uol.com.br

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A evolução das espécies por seleção artificial

Cacá Diegues - Rio, 2 nov 2011

A Primavera Árabe, os Indignados de Madrid, as moças contestadoras da Ucrânia, o Ocupem Wall Street, todos esses movimentos populares contemporâneos, tão diferentes entre si no fundo e na forma, têm em comum o fato de ocorrerem sem a disciplina de um partido ou a proteção de uma ideologia. Sem um programa preciso, completo e pré-estabelecido, como uma página em branco à espera de ser preenchida.

A internet teve um papel importante em todos eles. Mas a internet é apenas uma plataforma, precisa de seres inteligentes para ser operada e gerar um projeto qualquer. A novidade é que os operadores desse novo meio de comunicação não agiram como Hitler e Goebbels no passado com o rádio ou os americanos mais tarde com a televisão. Eles não usaram a internet como arma de convencimento e opressão, mas como um livre campo de debates. Dessa vez, os operadores desejaram registrar seu mal estar diante do cotidiano insuportável, tentando encontrar suas causas e causadores, diferente dos que chegavam na praça com o discurso pronto.

Mesmo na Líbia, onde a manifestação popular foi mais violenta, o projeto de tomada do poder consolidou-se quase que por acaso, como conseqüência da resistência da ditadura ao desejo de liberdade, de justiça social e civil, valores universais que a internet ajudou a difundir. Nesse momento, ninguém no mundo, nem mesmo o mais arguto especialista na política da região, é capaz de nos dizer que tipo de poder vai emergir do Conselho Nacional de Transição.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, na manifestação multi-social do Ocupem Wall Street, depois de semanas de debates internos, as únicas “demands” aprovadas, por serem do interesse geral, foram emprego para todos e direitos civis. Reivindicações que não chegam a ser abstratas, mas nem de longe se parecem com as mais requintadas e, ao mesmo tempo, imediatas questões levadas à praça pública durante o século 20.

Talvez essas populações estejam descobrindo que seus problemas estão no seu cotidiano e não nas grandiosas e abrangentes doutrinas revolucionárias clássicas. Que é preciso ocupar um espaço importante no campo do real, pois as questões da fome e da liberdade, do desemprego e do abismo social, têm uma referência imediata na vida de cada um neste real. E essa referência é quase sempre universal.
Uma delas é a do aumento da população e o necessário atendimento a todos. Como ignorar pistas tão claras como a da absoluta miséria africana ou a da organização social chinesa sob total controle? Essa semana, chegamos a 7 bilhões de seres humanos no planeta e parece que, até o final do século 21, seremos o dobro disso. E ainda permanecemos impassíveis diante da tragédia anunciada, capaz de atingir a todos, independente de país ou de classe. Isso é... Ou não.
Há uns três anos, escrevi pequeno conto de pretensiosa antecipação, publicado na revista Piauí, com o titulo de “A evolução das espécies por seleção artificial”, uma brincadeira com a mais célebre obra do grande Charles Darwin. No conto, cientistas haviam afinal decifrado integralmente o genoma humano. Com isso, tornava-se possível reverter os processos de degeneração física, curando-se doenças e corrigindo-se aleijões com a manipulação de células tronco. A nova medicina permitia aos seres humanos viverem muito mais e com mais qualidade.

Mas, como esse procedimento era caro demais, só estava ao alcance das famílias ricas de países ricos e de alguns sheiks árabes. Como a nova medicina gerava muito mais lucros que a convencional, essa foi sendo abandonada pelos laboratórios que deixaram de produzir os remédios pouco rentáveis do passado, aqueles consumidos pela maioria da população.   
Essa maioria da população que não tinha condições financeiras para se beneficiar dos avanços da nova medicina continuou a crescer. Vivendo em condições lastimáveis, foram assolados por grandes epidemias e, não tendo recursos que lhes dessem acesso à nova terapia, passaram a tentar se apropriar ilegalmente de seus benefícios praticando roubos, assaltos, seqüestros. As autoridades foram então obrigadas a declará-los inaptos à convivência democrática e decidiram negar-lhes o direito à cidadania.

A nova medicina evoluiu, aproximando de existência quase milenar a pequena humanidade que se beneficiava dela. Em harmonia com a natureza, sua procriação privilegiava as novas aptidões, de modo que logo sofreram mutação genética, tornando-se uma nova espécie dentro do gênero humano. Lembrando a origem de sua evolução, os antropólogos chamaram a nova espécie de homo-ricus. 

Os decadentes homo-sapiens seguiam vagando em desordem pelo planeta, com famílias numerosas e vida cada vez mais curta. Quando a comida começou a lhes faltar definitivamente, não tiveram outra alternativa senão devorar uns aos outros, num processo natural de antropofagia pela sobrevivência.

Na cultura dos homo-ricus, a lembrança dos homo-sapiens já se restringia à narrativa científica da evolução, como ancestrais da espécie a que pertenciam, iguais a tantos outros animais existentes ou extintos. Por diversão e esporte, os homo-ricus passaram a caçar homo-sapiens, como se havia caçado gorilas e chimpanzés num passado longínquo.  As autoridades foram então obrigadas a promulgar leis mais rigorosas, para salvar o homo-sapiens de extinção.

Mas, em algumas reservas, a caça aos homo-sapiens com o objetivo de abatê-los era permitida, apenas em certas condições e em temporadas muito precisas. A carne deste animal em extinção havia se tornado rara e nobre, só era servida em circunstâncias muito especiais, sobretudo por ocasião do Natal, quando a iguaria substitua o antigo e já extinto peru.

Depois de publicado esse conto, meu amigo e mestre Jorge Mautner escreveu um primoroso roteiro cinematográfico nele baseado. Um dia ainda faço esse filme. E espero poder fazê-lo como uma comédia.

carlosdiegues@uol.com.br

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A queda de um outro muro

Cacá Diegues - NY, 20 outubro 2011

Eu não podia vir a Nova York sem visitar os ativistas do movimento “Ocupem Wall Street”. Desde 17 de setembro (e até o momento em que escrevo esse texto), eles estão acampados numa praça perto do famoso centro financeiro da cidade, do país e do mundo. Dali atraem a atenção de todos e provocam a solidariedade de muitos, mesmo que não se entenda direito do que se trata.

A confusão começa por inesperada mistura de classes, idades e profissões, instalada não em Wall Street (ruazinha estreita demais para abrigar acampamentos), mas a umas quadras acima, no Zuccotti Park, a poucos passos de onde estavam as torres gêmeas do World Trade Center. Uma multidão de turistas passeia por ali, a fotografar os ativistas cercados por policiais tensos e atentos, numa excitada marcha triangular entre o venerando beco das finanças mundiais, o espaço que restou da tragédia americana e a festa de esperança na praça.

Manifestantes de classe média, trabalhadores e desempregados, sem liderança aparente, estão instalados no chão da praça, sobre colchões, poltronas velhas, colchonetes, camas de papelão. Mas não se trata de piquenique político com gritarias, correrias e discursos inflamados. A festa é discreta e calma, quase silenciosa, com uma certa ordem na aparente e passiva anarquia, só rompida quando a polícia pratica alguma violência.

Um grupo fornece material para a confecção dos numerosos cartazes, meio hegemônico de manifestação do movimento, erguidos em silenciosas caminhadas individuais pelo acampamento. Como a de um homem alto, magro e informalmente bem vestido, que carregava pela calçada da praça um cartaz onde se lia: "Os sionistas controlam a economia americana". A persegui-lo, uma moça baixinha tentava acompanhar seus passos largos, contrapondo ao dele o seu próprio cartaz: "Não concordo com ele".

Na tarde em que estive lá, jovem e numerosa banda multirracial, formada por uma infinidade de instrumentos de percussão e apenas um trompete como solista, tocava “Mas que nada”, de nosso Jorge Ben Jor, de um jeito meio atravessado, a repetir exageradamente aquele trecho que diz: “obá, obá, obá”. Não vi ninguém cantar a letra, mas todo mundo dançava alegremente ao som desencontrado do clássico de Ben Jor.

Um cartaz anunciava: "Dê um alô para o mundo". Os interessados deviam se colocar diante de pequena câmera digital, se ver reproduzidos numa tela de computador portátil e falar para o mundo o que bem entendessem. Em geral, protestos e denúncias, acusações ao sistema financeiro e aos bancos pela crise econômica, pela falta de emprego, pelo abismo social entre as classes. “Nós somos os 99% da América”, dizia um rapaz negro se referindo, por exclusão, ao 1% de ricos que garantia controlar o país. Uma senhora de cabelos brancos, carregando sacola de supermercado quase vazia, não entendeu muito bem o espírito da coisa – concentrada, ela reclamava do tratamento que o marido lhe prestava no lar. 

Os raros discursos coletivos são quase sempre sobre assuntos práticos, relativos à sobrevivência na praça. Só mais recentemente começaram a pensar em uma lista de reivindicações políticas e sociais. Na segunda feira anterior à minha visita, depois de longo debate, conseguiram chegar às duas primeiras: emprego para todos e defesa dos direitos civis. Todo mundo sabe porque foi parar no Zuccotti Park, mas parece que quase ninguém tem uma ideia precisa de para que serve o movimento, o que deve acontecer em seguida. É como se um malestar estrutural estivesse substituindo os programas ideológicos. 

Apesar dos três anos de atraso, é evidente que o movimento é uma reação à crise iniciada em 2008, o anúncio de um confronto com os responsáveis por ela, o sistema financeiro e os bancos. Parte de seus ativistas pretende seguir buscando reivindicações próprias que atendam aos interesses de todos os manifestantes, antes que chegue o inverno, o movimento se disperse e os desempregados virem candidatos a mendigos. Mas outros preferem evitar essa objetivação do movimento, mantendo sua imagem original, difusa e descontínua.  “The process is the message”, como apareceu no facebook desses.

Potencialmente, "Ocupem Wall Street" tem a cara dos movimentos libertários dos anos 1960, aqueles dos direitos humanos, dos estudantes que não queriam ir para o Vietnam, do movimento negro, dos hippies – uma feira de esperança, um desejo de justiça, uma experiência de convivência humana distendida, um sonho que a humanidade vive sonhando de tempos em tempos. Mas também é um espaço onde as idéias parecem sufocadas pelo malestar que tomou o lugar da luta política.

A melhor resposta sobre seu futuro foi dada por Hendrik Hertzberg, na revista New Yorker. Ele lembrou que, quando Richard Nixon perguntou a Chou En Lai qual tinha sido o impacto da Revolução Francesa no mundo, o então primeiro ministro chinês, parceiro de Mao Tsé Tung, respondeu que ainda era cedo demais para se avaliar. Só precisamos ficar atentos para que não avaliemos o “Ocupem Wall Street” um pouco tarde demais.

 

carlosdiegues@uol.com.br

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O despotismo da economia

Cacá Diegues, 7 out 2011

O capitalismo não é uma ideologia, mas um modo de viver. Ninguém o inventou, ele não tem pai nem mãe, não adianta botar a culpa no Adam Smith ou na Margareth Tatcher. O capitalismo nasceu, digamos assim, por geração expontânea, como uma necessidade humana surgida lá atrás, quando os homens da caverna começaram a conviver entre si. Um coletor deve ter sentido frio demais naquele inverno e teve a ideia de trocar um cacho de uva pela pele de urso do vizinho caçador. Estava criado o notório e tão vilipendiado mercado, lugar de encontro, entendimento e trocas, onde você pode e deve satisfazer suas necessidades satisfazendo as necessidades dos outros. Pensando bem, o erro foi de quem batizou a coisa toda, dando-lhe esse nome horrivel, frio, excludente e desumano - capitalismo.

Esse mecanismo básico das relações humanas desenvolveu-se e endiabrou-se de tal modo que acabou gerando frutos diversos e às vezes divergentes como, por exemplo, o criador Steve Jobbs e o especulador Warren Buffet, dois ícones opostos do capitalismo contemporâneo. Em qualquer caso, é de tal ordem sua promessa de recompensa que Jacques Lacan, o maior pensador da psicoanálise pós-freudiana, considerou que para resistir ao capitalismo é preciso ser santo.

O pior desse capitalismo contemporâneo, o capitalismo financeiro que gira como uma roleta nas bolsas de valores do mundo inteiro, é a dependência material e simbólica que a humanidade vive hoje da economia. Uma tirania mítica em que a economia substitui o indiscutível poder divino da Idade Média, com seu terrorismo financeiro e promessas de apocalipses inquisitoriais, se não seguirmos seus sinais proféticos, suas tábuas de mandamentos. Um dos piores motes dos últimos tempos é o famoso chiste eleitoral: “É a economia, estúpido”. Uma piada que, considerada esperta e virtuosa, atrasou a importância da política por algumas décadas.

O  mundo precisa dar um jeito de aprender a viver sem a opressão da economia, sem o seu despotismo. Não é possível que, ao acordarmos, nosso primeiro pensamento seja sempre para ela e seus números, como indicação do que faremos pelo resto do dia e de nossas vidas.         

Entramos em pânico se o dólar cai, pois é ruim para nossas exportações; mas se o dólar subir, isso é fatal para o controle da inflação. O humor de funcionários de agências regidas por interesses financeiros que não conhecemos (“porta-vozes do fim do mundo”, como diz o humorista Tutty Vasques) desclassificam países que, abalados, se tornam vítimas de desconfiança e são levados ao caos sem que se saiba bem porque. Os sábios condenam o gasto dos governos e, no entanto, é o custo do salvamento dos bancos privados, quebrados pela crise que provocam, que leva ao súbito aumento da dívida pública, onde quer que ele aconteça.

No meio do clamor de receio pelos sinais de inflação, li interessante lembrança histórica do insuspeito Paul Krugman. Na crise mundial do final dos anos 1920, todos temiam pelas consequências de uma hiper-inflação na Alemanha. Mas o desastre exemplar, diz Krugman, veio “das políticas de Heinrich Brüning, chanceler da Alemanha de 1930 a 1932, cuja insistência em equilibrar déficits e preservar o padrão ouro tornou a Grande Depressão ainda pior na Alemanha do que no resto da Europa, preparando o terreno para você sabe o quê”.

Nem tudo pode ser apenas econômico em nossas vidas. Em entrevista recente ao jornal inglês “The Guardian”, o cineasta Jean-Luc Godard anunciou que tinha a solução para a dívida da Grécia. Segundo ele, cada vez que um credor dissesse que o país lhe devia tanto e logo tinha que pagar-lhe, a Grécia devia responder cobrando royalties pelo uso desse “logo”, elemento fundamental da lógica formal de Aristóteles. E assim iriam cobrando royalties por tudo o que inventaram e, ao fim de pouco tempo, era bem capaz de os credores estarem devendo uma fortuna à Grécia.

A vida é mais importante que a economia, a primeira não pode estar submetida ao despotismo da outra. Os valores de nosso mundo vêm sendo estabelecidos pela aritmética da especulação, sem projeto que inclua o bem estar da humanidade, para dizer o mínimo. Até já esquecemos o pretexto do progresso que justificava o capitalismo produtivo. Sei que a humanidade não é mesmo lá grande coisa e que o mundo vai estar sempre muito aquém de nossos projetos. Mas se ignorarmos o desejo contido nesses projetos, perderemos o sentido de nossa existência. É claro que também queremos o progresso. Mas entre o progresso e a civilização, vou escolher sempre a civilização.

Tenho a impressão, por exemplo, que é em nome disso que  milhares de americanos estão, desde o dia 17 de setembro, ocupando Wall Street, num movimento político e cultural que, em breve, será tão importante quanto foram os dos anos 1960. Entre os cartazes estendidos por eles na praça Zuccotti, vi um que dizia tudo: “Deixem-nos viver”.

carlosdiegues@uol.com.br

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Todos os filmes em todas as telas

Cacá Diegues

 

A história do audiovisual no Brasil já tem mais de um século. Seis meses depois da invenção do cinema na França, em 1895, já se exibiam filmes em um café na rua do Ouvidor, aqui no Rio de Janeiro. Menos de um ano depois, o Brasil se tornava um dos primeiros países do mundo a fazer filmes. Apesar disso, o cinema brasileiro nunca teve uma história fluente, o cinema nunca chegou a ser uma atividade permanente no país, vivendo de ciclos mais ou menos curtos que se abriam com muita expectativa, chegavam à euforia e se encerravam subitamente por razões quase sempre exteriores a ele.

A boa notícia é que o período que vivemos hoje talvez não seja mais um ciclo, iniciado com a “retomada”, mas a aurora do cinema como atividade permanente no país. Se isso for verdade, devemos seu sucesso aos fundamentos da Lei do Audiovisual, de 1994, grito primal do que hoje amadurece. A simples virtude dessa modesta lei foi a de criar mecanismos de produção cinematográfica afinados com o conjunto da economia do país, ajustados à direção para onde ela apontava.

Sua ênfase, aperfeiçoada ao longo desses quase vinte anos por novas leis, MPs, decretos e regulamentações, se encontrava na ideia da renuncia fiscal como mola propulsora do desenvolvimento da economia do cinema. Portanto na sua decisiva privatização, associada ao incentivo, à regulação e à fiscalização do estado.

O princípio econômico e ético da renuncia fiscal é o de devolver a riqueza a quem a criou. Isso é, no momento inaugural de qualquer economia alguém produz uma riqueza qualquer. Num segundo momento, o estado confisca uma parte dessa riqueza na forma de impostos, sob a correta justificativa de produzir bem comum. Quando, num terceiro momento, renuncia a parte desse confisco e devolve seu valor ao contribuinte, o estado está dizendo que reconhece ser mais adequado, nesse caso, que o próprio responsável original pela riqueza invista em seu desenvolvimento.

O recurso privado que se tornou público com o confisco fiscal, volta assim a ser privado como originalmente o era. Nada é mais próprio do que isso, quando se trata de uma economia que produz conhecimento, ideia e opinião. Que produz “entretendimento”. 

Justamente por isso, é preciso criar sempre as condições indispensáveis para que o cinema brasileiro continue a existir permanentemente, abrigando todas as suas tendências, não abrindo mão de sua diversidade como um bem raro de nossa própria cultura. Isso significa criar condições para que todos os filmes sejam feitos e exibidos onde lhes for mais apropriado, em salas e na televisão, em cineclubes e festivais, na internet e onde mais for.

Mais do que nunca, é preciso fazer filmes dos quais a população se orgulhe, que ela vá vê-los e se reconheça neles. A questão do mercado é fundamental, afim de atender aos interesses da sociedade para quem fazemos nossos filmes. Mas não pode ser encarada de um ponto de vista meramente quantitativo e selvagem, onde se exige dos filmes recordes de bilheteria para que sejam reconhecidos. O que importa é que cada um realize sua obra dentro da economia adequada a ela, sem  inviabilizar o outro, o seu contrário. O público também muda de opinião e a inovação de hoje pode muito bem ser o mainstream de amanhã.

A sucessora mais recente da Lei do Audiovisual é a Lei 12.485 desse ano, recentemente aprovada pelo Congresso e sancionada semana passada pela presidente Dilma, depois de ser posta em discussão pela ministra Ana de Hollanda. A nova lei flexibiliza as regras para instalação de TVs a cabo, cria novo regime de outorga que permite a entrada das empresas de telecomunicação nesse ramo, obriga os canais por assinatura a exibir programas brasileiros, assim como a oferecer canais exclusivos de programação nacional. E aumenta o investimento direto do estado no setor para 400 milhões de reais/ano, através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

Talvez seja típico de país emergente, ainda construindo a base de consolidação do seu desenvolvimento, a esquizofrenia do estado. Somente ela pode nos perturbar neste momento. Ao mesmo tempo que a 12.485 nos oferece um mundo novo de oportunidades para o audiovisual brasileiro, a Receita Federal ameaça seus produtores tributando os recursos captados através de renuncia fiscal. Ou seja, eles seriam obrigados a pagar imposto sobre um imposto ao qual a lei renuncia. É, no mínimo, pouco racional.

Por ter começado tão cedo, já tenho mais de 50 anos nessa atividade, como cinéfilo e como cineasta. Mas nunca vivi um momento tão alvissareiro para o cinema brasileiro quanto esse. Nunca tivemos tanta variedade de tendências artísticas e culturais, políticas e éticas, geracionais e regionais, todas sempre com representantes de peso e qualidade. Resta agora evitar uma sombra no horizonte, a burocracia burra, autoritária e imobilizadora que é sempre gerada cada vez que o estado toma uma iniciativa dessa grandeza. E a nós cabe agora fazermos os filmes que o Brasil bem merece.

 carlosdiegues@uol.com.br

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O estado da corrupção

 

Cacá Diegues

 

É preciso combater a corrupção com fervor, persistência e rigor. Ela existe e, em nosso país, talvez seja uma das mais perversas do mundo. Segundo levantamentos feitos pelo CGU e pelo TCU, publicados pela Folha de São Paulo, o montante de recursos públicos desviados, entre 2002 e 2008, foi de 40 bilhões de reais. Dava para resolver muitos de nossos problemas crônicos.

A corrupção é hoje uma causa nacional que independe de conflitos sociais ou políticos. Mas não entremos em pânico. A imoralidade pública pode grassar, mas a exposição cotidiana dos crimes cometidos é uma demonstração de que existe um projeto da sociedade para combatê-la e eliminá-la. Se ainda convivemos com escândalos quase diários, é porque temos conhecimento dos malfeitos e não estamos de acordo com eles.

Sabemos os nomes dos criminosos, mesmo que muitas vezes não consigamos pô-los na cadeia. Seus crimes só se tornam escândalos públicos que se multiplicam diariamente porque não são mais hábitos secretos de uma elite que tinha poder para, além de cometê-los, escondê-los de nós. Pelo menos agora eles perderam o direito à ocultação de cadáver.

Talvez a sociedade brasileira esteja querendo dizer que quer, de uma vez por todas, separar o estado dos interesses privados, como já fez no passado com a religião. 

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, a carta de Pero Vaz de Caminha se tornou o primeiro documento político de nossa história. Nela, além da narração de viagem e da descrição das riquezas encontradas na terra descoberta, Caminha não perde a oportunidade de pedir ao rei emprego para um parente seu em Lisboa. Era o primeiro tráfico de influência de nossa história.

Basta ler as pregações de Antonio Vieira e as sátiras de Gregório de Matos, cheias de referências à corrupção colonial, para compreender que a coisa só foi piorando. Mas culpar exclusivamente Portugal e nossa origem portuguesa pelos nossos maus costumes, como temos o hábito de fazer, é um pouco exagerado. Daqui a onze anos, estaremos completando dois séculos de independência nacional, já teria dado tempo de nos corrigirmos da má influência.

Logo de saída, o Império, durante quase todo o século 19, fez do estado brasileiro um patrimônio de privilegiados, pouco havendo distinção entre a riqueza do país e a riqueza dos donos da terra. Coisa que não sofre mudança com a República Velha e quase nenhuma a partir da Revolução de 1930 e da subsequente ditadura Vargas.

Quando Getulio Vargas, agora presidente eleito, dá um tiro no peito, em 1954, o faz sufocado pelas ondas do “mar de lama”, como era chamada a corrupção que, segundo a oposição, grassava em seu governo. Talvez o suicídio de Vargas tenha evitado um regime de força como aquele que cairia sobre nossas cabeças dez anos depois. Mas certamente absolvia com ele os supostos larápios da República pois, tirando o preto semi-analfabeto que lhe servia de guarda-costas, ninguém foi condenado pelo “mar de lama”.

Mesmo o hoje festejado presidente Juscelino Kubistchek, consagrado como o modernizador responsável pelo desenvolvimento do país com democracia, estaria, segundo seus críticos na época, fazendo da criação de Brasília uma fonte de receita indevida, para ele e seus amigos. E finalmente, em 1964, o pretexto que os militares usam para a tomada do poder pela violência é exatamante o da luta contra a subversão (o fantasma do comunismo na Guerra Fria) e a corrupção (a devassa dos cofres públicos pelos populistas do presidente João Goulart).

Durante aqueles 21 anos de ditadura militar, em que o totalitarismo não permitia a divulgação de notícia que não fosse de seu interesse, conheci muito esquerdista preso, torturado e morto. Posso estar enganado, mas nunca soube de nenhum corrupto que tivesse sido posto na cadeia.

Apesar de privatarias e de mensalões, vivemos, desde o governo Itamar Franco, uma época de ouro em nossa história, certamente os melhores 20 anos dela. Em termos de consolidação da democracia, desenvolvimento econômico, estabilidade financeira, melhor distribuição de renda, etc. Mesmo numa área em que estamos ainda tão atrasados, como a da educação, 90% de nossa população em idade escolar se encontra hoje nas escolas, apesar da carência na qualidade do ensino. Nos “anos dourados” da década de 1960, 35% dessa população estava fora da escola, por falta de vagas.

Isso não quer dizer que vivemos no país de meus sonhos, ainda falta muito para isso. E sonhos não foram feitos para serem realizados; eles existem para que saibamos que sempre pode ser melhor. Mas só posso considerar alvissareiro que a presidente da República deseje fazer uma faxina ou seja lá o que for (parece que ela destituiu essa palavra de qualquer autoridade oficial). No mínimo, pela primeira vez, não se trata mais de um argumento moralista ou oportunista da oposição do momento, mas uma iniciativa da própria chefe de estado e de governo, representante eleita de toda a população disposta a eliminar a corrupção da vida desse país.

Essa eliminação não deve visar somente o modesto comissionado, o intermediário que rouba dois tostões. Mas atingir também os corruptores, os grandes favorecidos pelas exceções que o estado cria para facilitar a vida de seus parceiros. Não se trata somente de prender o ladrão, mas inaugurar uma nova prática republicana – o estado não é patrimônio de uns poucos, seja em que formato for. Pelo contrário, ele existe para realizar os projetos da maioria e defender as minorias deles.

carlosdiegues@uol.com.br

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A graça é mais veloz que tudo

Cacá Diegues, 25 de agosto de 2011

O fundamentalismo iluminista, a fé cega em que um dia nossa razão seria capaz de tudo apreender e obter de tudo uma verdade absoluta, fez o homem moderno acreditar que poderia ter controle sobre tudo o que está à sua volta. Ele seria capaz de compreender o universo, dominar a natureza, prever com precisão a história das nações e ordenar o rumo de sua própria vida. Bastava para isso articular, com ciência, algumas verdades observadas do real diante de seus olhos.

Mas, depois de tantas ilusões e utopias fracassadas, começamos a  entender que o que está diante de nossos olhos é apenas a parte menos interessante do real, um ornamento a envolver a sua real complexidade, a sua imponderabilidade.

Dois bons filmes, atualmente em cartaz, tratam desse assunto, mesmo que nem sempre seja esse o argumento originalmente concebido por seus autores. Estou me referindo a “A árvore da vida”, filme americano de Terrence Malick, e “Melancolia”, filme europeu de Lars Von Trier, as duas sensações do festival de Cannes e da crítica mundial neste ano de 2011.

No primeiro, acompanhamos, no embalo erudito de Brahms, Mahler, Berlioz e outros, as relações familiares entre um casal de classe média e seus três filhos, abaladas pela morte trágica do irmão mais moço. No segundo, uma fútil e luxuosa festa de casamento coincide com o surgimento de um planeta desconhecido que ameaça chocar-se contra a Terra, enquanto ouvimos única e exaustivamente  “Tristão e Isolda” de Wagner, o Bernard Herrmann original.

Além de reproduzirem, de modo mais ou menos semelhante, a angústia cinematográfica de nosso tempo (estrutura não linear, narração fragmentária, steadycam em permanente movimento, jump cuts para todo gosto, diálogos em suspensão e ditos em voz baixa, fotografia monocromática, etc.) e de se referirem a misteriosa trascendência astrofísica, os dois são, no fundo e no que têm de melhor, filmes muito simples sobre o comportamento de seres humanos em seu núcleo familiar, um tema sobre o qual já vimos tantas grandes obras no cinema.

A diferença agora é que, nessa narrativa de emoções diante do impasse da morte, os dois filmes não tentam mais se explicar pela psicanálise, pela sociologia ou por qualquer tipo de ética religiosa (mesmo quando a religião está em cena), mas a partir de alguma coisa que está além de nosso conhecimento e de nosso controle, longe de nosso poder.

“A árvore da vida” se inicia com a mãe opondo a graça à natureza, anunciando a necessidade de escolhermos entre as duas.  Em “Melancolia”, embora não se pronuncie a palavra, é também da graça que se trata. Nessas obras de antecipação, estamos bem distante da tecnologia democrática de “2001” de Kubrick ou do misticismo social de “Solaris” de Tarkovski. Mas, como nesses filmes, é também do milagre da vida que queremos saber, entendê-lo a partir da presença da morte. E, para isso, nossos equipamentos de percepção (nossa cultura) não estão e nunca estiveram preparados.

Se não me engano, é no “Nascimento da Tragédia” que Nietzsche diz que “a sabedoria é um crime contra a natureza” e que não podemos forçá-la (a natureza) a nos entregar seus segredos, sob pena de agirmos inaturalmente. O que chamamos de graça talvez seja outra maneira da natureza se manifestar. Ou talvez seja a natureza a própria graça que ainda não somos capazes de reconhecer.

Em “A árvore da vida” e “Melancolia”, a graça se manifesta através de uma tragédia inicial que traumatiza o afeto e possibilita a compreensão entre os nela envolvidos. Duas famílias tão diferentes entre si, como todas as famílias do mundo, em que seus membros tentam se ajudar a entender o que se passa – não é esse o cerne da convivência humana?

A arte contemporânea voltou a se interessar pelo acaso, como na Grécia de Édipo, quando ele era indispensável. Na “Trilogia de Nova York”, Paul Auster apresenta seu personagem a vagar por uma rua da cidade: “nada era real, a não ser o acaso”, diz ele. No melhor filme recente de Woody Allen, o mais original e comovente, “Match Point”, o acaso é decisivo para o destino do casal protagonista. O acaso é sempre o portador da graça, sua versão laica.

Por coincidência, em meu novo projeto de filme, “O grande circo místico”, inspirado em poema de Jorge de Lima, eu e o roteirista George Moura decidimos usar como tag line uma sentença do poeta alagoano, quase um verso em oitava rima, que se encontra no final de seu romance “O anjo”: “a graça é mais veloz que tudo”, diz o herói, ao mesmo tempo trágico e estóico, como um profeta.

Como nem tudo que é ascético é necessariamente ético, o belíssimo final de “Melancolia”, o mais consistente dos dois filmes, o de mais fôlego (talvez por ser o menos discursivo), não é para mim a imagem de um apocalipse punitivo, mas o lúdico sacrificio que une as irmãs e o menino, uma celebração, na “caverna mágica”, da amizade e da solidariedade possíveis  para aquele episódio de suas vidas. É preciso levar tudo a sério, mas sem perder a alegria.

carlosdiegues@uol.com.br

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A liberdade contra toda crise

Carlos Diegues

Rio de Janeiro, 12 de agosto de 2011

Toda vez que o mundo se desorganiza, que um sistema hegemônico ameaça entrar em colapso, o autoritarismo emerge, seja sob que disfarce novo for, como garantia da ordem e salvação da lavoura, uma espécie de Arca de Noé no dilúvio social, financeiro e político que há de suceder o desastre iminente. E a grande maioria da população correrá para a proteção de seus braços, em pânico com a incerteza e a insegurança.

Nem precisamos muito de um grande desastre iminente para nos submetermos a esse poder mágico que nos alivia de graves responsabilidades. Não me canso de pensar em Dostoieveski, o ficcionista que melhor entendeu os fracassos da natureza humana. Em  “Os Irmãos Karamazov”, por exemplo, ele diz que todo homem já nasce ansioso em busca de um tirano aos pés do qual depositar a angústia de sua liberdade.

Não precisamos necessariamente de um monarca ou ditador, podemos nos contentar com o rigor de uma hierarquia familiar, com os ideais de um partido politico, com uma religião que nos prometa redenção. Qualquer coisa que nos livre da angústia da escolha e que nos garanta proteção contra o inimaginável, quando ele começa a se anunciar por aí.

Talvez estejamos vivendo esse momento, quando impérios ameaçam ruir e nossas certezas, mesmo em oposiçao a eles, já não nos convencem muito. Se não tivermos um inimigo poderoso e sólido diante de nós, que corresponda a todas as nossas expectativas do mal, não teremos mais a quem temer, não teremos porque construir a nossa fortaleza. E nosso mundo perderá o sentido.

Para simplificar, chamemos de direita a esse tirano que tem a pretensão de nos salvar do desastre anunciado. Essa direita que hoje cresce em todo mundo, ocupando o lugar crítico que já foi, no século passado, nazista com Hitler, fascista com  Mussolini, comunista com Stalin ou Mao, católico com Franco ou Salazar, islamita com Komeini, populista com Peron ou Vargas, cada um em seu território e dimensão particulares.

Esses foram líderes de movimentos disciplinados e disciplinadores que pretendiam organizar o mundo, purgá-lo de suas fraquezas, dar-lhe uma ordem que resistisse para sempre, de acordo com as verdades eternas de cada um deles. E as verdades eternas pouco têm a ver com a fragilidade humana, não combinam com  a crise, essa condição do homem por excelência.

Apesar de eficiente, a direita não é pragmática. Ela acredita em milagre e espera tudo resolver pelo pensamento mágico de seres superiores. Não adianta tentar convencê-la com argumentos racionais, ela não liga para isso. George W. Bush sabia que estava empurrando os Estados Unidos para o fundo do poço quando aliviou os impostos dos ricos e fez guerras pelo mundo afora, ao custo de trilhões de dólares. Ele não se importava com a dívida do Tesouro norte-americano porque Deus é maior que a economia. E Deus, ele tinha certeza, estava do seu lado.

Mais ou cedo ou mais tarde, essa tendência à direita há de chegar também aos países que não ameaçam calote financeiro, nem estão ameaçados pela imigração em massa. Com a crise mundial se alastrando em forma de espetáculo, esse espaço para a direita vai surgir também no Brasil. Por enquanto, a tradição de resistência à ditadura recente envergonha o sujeito que se declarar à direita. Mas, daqui a pouco, aqueles anos estarão esquecidos em benifício de novas circunstâncias críticas e, entre nós, a direita não terá mais vergonha de dizer seu nome.

Os Le Pen na França, o Tea Party americano, o terrorista louro da Noruega, o neo-populista chinês, as direitas que hoje crescem no mundo inteiro, estão pouco se lixando para a economia de mercado, para as contas das nações, para  a matemática dos povos. Elas são antes de tudo movimentos culturais, nascidos de crenças históricas e de mitos criados para consolar a nossa fraqueza humana, a nossa natural impotência. Lendas para dar sentido à nossa existência. 

Porque é impossível atingir o que não é matéria, a direita nada teme – o sorriso plácido do serial killer norueguês, ao reconhecer que aqueles rapazes e moças talvez não merecessem morrer, é o maior testemunho de quão gloriosamente superior era a sua missão.

O primeiro-ministro da Noruega tinha toda razão - só se responde a tal fanatismo com liberdade, com mais liberdade. Com o exercício responsável da liberdade através da razão e da solidariedade, com a responsabilidade a que o exercício da liberdade individual nos obriga.

Mas é uma ilusão achar que todo homem nasce livre. Num movimento oposto ao que o Karamazov nos indicava, o homem nasce dependente da mãe, e depois da família, da escola, da religião, do patrão, do estado e assim por diante. A liberdade é um conceito cultural semeado na Grécia e desenvolvido pela cultura ocidental, em diversos estágios de sua história. Ela precisa ser adaptada ao que vivemos hoje, a essa fatalidade brilhantemente anunciada por Edgar Morin de que somos muitos e vivemos num pequeno planeta, estamos condenados à solidariedade para sobrevivermos em paz.

A liberdade é portanto uma conquista do homem e não uma sua virtude natural. Ou se conquista ou não se tem.

carlosdiegues@uol.com.br

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Ouço uma nuvem a vagar no céu

Carlos Diegues, 29 de julho de 2011

Comecei a ouvir o disco novo de Chico Buarque, “Chico”, no mesmo sábado em que tomei conhecimento da morte trágica (mesmo que tão anunciada) de Amy Winehouse. Durante as primeiras horas de audição do CD e do simultâneo noticiário na televisão, meu coração esteve partido entre dois mundos tão igualmente inspirados, criativos e exemplares. E eu chorava, sem saber por quem chorar.

A felicidade não é um estado permanente em nós, apenas vivemos momentos felizes e infelizes ao longo de nossas vidas. E é preciso fazer render os primeiros, que devem ser serenos e cheios de pudor, algo que se curte como quem bebe um bom vinho de garrafa que sabemos que um dia vai precisar de outra. A euforia é a cara de uma moeda juvenil cuja coroa é a depressão.

Ninguém pode saber, ninguém tem o direito de ousar dizer do que morreu a grande artista que foi Amy Winehouse. Ninguém conhece a origem exata de sua dor, muito menos o tamanho dela.  Só nos cabe deplorar que tal fogo, chama que nos iluminou tanto em tão pouco tempo, tenha se apagado tão mais cedo do que gostaríamos.

Já Chico, sem comparações impossíveis, nos ensina a viver.

Arthur Nestrovski, em notável artigo no Estado de São Paulo, nos lembra que, sendo talvez o nome mais recorrente no país, cada vez que dizemos apenas Chico sabemos que é a ele que estamos nos referindo.  Como se ele fosse não apenas íntimo nosso, mas também único.

Neste “Chico”, são admiráveis as rimas toantes (“sobra/abóbora”,  “toca/vodca”, “mapa/rapta”, tantas outras tão belas). Como é incrível a astúcia de suas canções na passagem de tons maiores a menores e vice-versa. Ou como está cada vez mais barroca a sensual e rigorosa estrutura arquitetônica de suas canções. Ou ainda como a originalidade de seu canto se aproxima paradoxalmente de um encontro entre a ironia do sambista esperto (sua dicção nas primeiras sílabas da palavra “esquecimento”, por exemplo, nos remete a um hilário “uísque”) com o romantismo de chansonnier contemporâneo.

Mas, de tudo que esse grande artista nos entrega em seu novo disco, o que me toca fundo é a serenidade ao encarar a vida, essa “obscura trama”. Como ele mesmo diz, Chico chega “macio” à sua idade, tratando o amor como algo que, mais do que excita, impregna. Só um homem capaz de preservar sua identidade em total liberdade é capaz de chegar a tal integridade artística e existencial.

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E por falar em liberdade, seu preço é mesmo o da eterna vigilância.

Essa semana, a Justiça, a pedido de um partido político, o DEM, proibiu a exibição do filme “A Serbian Film – Terror sem Limites”, do diretor sérvio Srdjan Spasojevic. A decisão foi reiterada pelo Ministério da Justiça que, mais adiante, se negou a dar-lhe uma classificação indicativa, o que impede a circulação nacional da obra.

Não vi esse filme sérvio. Mas pela descrição feita por quem já teve essa oportunidade, ele deve ser mesmo muito violento, como seu título informa. Mas certamente será menos perverso, desumano e insuportável do que aquilo que se viu acontecer na Sérvia real, há alguns anos, durante a guerra étnica em que foram massacradas multidões de inocentes com métodos cruelmente sofisticados.

Podemos até supor que esse “Terror sem Limites” não passe de uma pobre alegoria didática do horror real que a Sérvia conheceu durante a guerra. Uma daquelas obras que nos permite assumir que nunca mais algo parecido deve acontecer de novo, sob hipótese alguma.

Mas a questão fundamental não está no conteúdo do filme proibido e sim na própria idéia de proibi-lo. O autoritarismo está sempre no ovo da serpente que extingue a liberdade.

Se o filme assim o merece, crianças, adolescentes e jovens menores de idade devem ser protegidos de vê-lo, basta para isso interditá-lo para menores de 21 anos. Mas, ao cidadão adulto e livre, deve-se no máximo uma informação do que se trata a obra, para que não seja apanhado de surpresa, se for o caso.

O que não podemos admitir é que alguém pretenda pensar por nós,  nos dizer o que devemos e o que não devemos ver, ler ou ouvir.

Não precisamos de governantes que tratem a população como um bando de crianças imbecis, às quais se interdita o conhecimento e a informação que os poderosos não julgam convenientes, sejam de que natureza forem. O maior prazer que um ser humano pode ter é o de pensar por sua conta, não quero que ninguém o faça por mim.

A chamada Constituição Cidadã de 1988, vigente no pais, proibiu qualquer tipo de censura à obra de arte, a não ser a classificação indicativa por idade. O contrário disso é a barbárie de uma ditadura pura e simples. Esse filme a gente já viu e ele ficou em cartaz durante longos 21 anos.

 

 

Antes que eu me esqueça. Para seu conhecimento, o titulo desse artigo é um verso tirado da canção “Sem você 2”, do disco “Chico”.

carlosdiegues@uol.com.br

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O fator das mudanças

Carlos Diegues, 15 de julho de 2011

Para nós da geração que viveu o auge da Guerra Fria e da obsessão anti-imperialista, o anúncio do potencial calote da dívida americana mais parece uma abertura de conto surrealista, ficção científica de esquerda agravada pelo papel da China como seu principal credor. Em nossa memória, a ruína do Império Soviético, naqueles anos de Gorbachev, de Yeltsin e da queda do muro de Berlim, se torna até plausível, razoável e muito simples de entender se comparada à quebra dos Estados Unidos, o império mais rico e poderoso que a humanidade já conheceu.

Nesta semana, aqui mesmo em O Globo, o economista Joseph E. Stiglitz, insuspeitável prêmio Nobel e professor da Universidade de Columbia, em Nova York, analisa essa possibilidade com muito realismo, acusando a direita americana de querer “revogar as leis básicas da matemática e da economia”.

Como não sou economista e não entendo muito de contas públicas ou privadas (à exceção das que faço com Renata, para produzir nossos filmes!), quando tomei conhecimento pelos jornais do quebra-quebra de bancos, durante aquela bolha imobiliária de 2008, imaginei que o tempo do mercado soberano e sem restrições, o mercado absolutista que se impusera desde os anos 1980, havia chegado ao fim. E quando vi as agências de crédito dos estados americano e europeus socorrerem com dinheiro público os que iam à bancarrota, até pensei que um novo keynesianismo estivesse se impondo à economia mundial pela força mesma das coisas.

O caso me interessou mais ainda quando li no New York Times que, do primeiro montante de recursos então solicitado pelo presidente Barack Obama e aprovado pelo Congresso americano, cerca de 800 bilhões de dólares, um pequeno pedaço ia para a ampliação da rede de exibição digital de filmes, nos Estados Unidos e no mundo, garantindo assim maior circulação para a produção de Hollywood. Em plena crise nacional, o estado americano não estava se esquecendo de socorrer também a cultura que há pelo menos um século ajudava a consolidar seu poder planetário.

Mas, como insiste Stiglitz e outros comentaristas em pânico,  a lição de 2008 não se converteu em costumes mais sadios, não provocou um novo, mais sensato e mais razoável comportamento de um mercado indisciplinado, desembestado e cego pelo voluntarismo do lucro imediato, a qualquer custo. O outro, também conhecido como o “próximo”, continuou fora da planilha das empresas, a sociedade seguiu sendo uma distante superstição de alguns chatos, a felicidade voltou a bater à porta do mercado, agora que ele sabia que o estado está aí mesmo para cobrir-lhe qualquer imprevisto mais desagradável.

Como num daqueles formidáveis thrillers morais dos anos 1940, com Humphrey Bogart, Edward G.Robinson e Veronica Lake, a segunda chance ofertada ao vilão não foi aproveitada por ele. O vilão não se regenerou e continuou a cometer os mesmos excessos de sempre, agora até mais confiante – se o próprio mercado não resolver a parada, o estado paga a conta por ele. A conta e os bônus de seus executivos sortudos.

Bem, não me sinto nem de longe capaz de prever o que vai acontecer com a economia americana ou com a China ou com o resto do mundo. Nunca tive, nem posso almejar vir a ter, um prêmio Nobel a me garantir sobre minha estante.  Mas é evidente que Obama não deseja a bancarrota da economia americana, assim como Wen Jiabao não vai gostar nada de dormir cheio de papéis podres do tesouro ameriano debaixo de seu travesseiro. A tragédia desses novos senhores do mundo é que eles podem muito pouco, se comparado ao que já puderam um dia.

Esses anos todos de hegemonia absoluta do mercado criaram uma rede de poder inconsútil, às vezes maior e mais poderosa que a do próprio estado. Não se trata mais dos lendários “barões ladrões” que fundaram o capitalismo americano no século 19 e que estavam muitas vezes dentro do próprio estado, manipulando seus recursos e seu poder político. Trata-se agora de um poder que não se confunde com o outro, pois não é institucional, não tem eleitor a quem prestar contas, não deseja o peso e o prejuizo dos compromissos políticos, muito menos se interessa pela pequena corrupção autárquica.

Se frequentarmos com atenção o mundo das coisas, veremos que não somos, nesse universo, os únicos seres sociais com um projeto coletivo para sua comunidade ou para sua própria espécie. A formiga, a abelha, o golfinho, muitos animais vivem uma vida social tão intensamente organizada quanto a nossa. Mas enquanto eles cumprem seu papel sem consciência do que fazem ou do que são, nós somos os únicos a ter consciência de nossa individualidade. Ou seja, a ter consciência do que somos e a ter consciência da existência do outro.  

Mas a economia de mercado sem limites não pode levar em consideração o benefício dos outros. O tipo de compromissos enredados nessa economia globalizada, e portanto dependente, dificilmente permite mudanças em nome da ordem politica ou simplesmente humana. E as mudanças necessárias no mundo de hoje deixaram o terreno da pura economia, seja de direita ou de esquerda, mesmo que dentro da legalidade representativa.

O que pode mudar o mundo de hoje passa necessariamente por um valor moral – a divisão entre os que se importam e os que não se importam com o outro. E isso nenhum político, por mais virtuoso, resolverá sozinho.

carlosdiegues@uol.com.br

O bom cidadão

Carlos Diegues, 1º julho 2011

Uma coisa aprendi com meus filhos pequenos, quando tratava de tentar educá-los: meus discursos e conselhos não lhes causavam efeito algum, o que importava mesmo era o exemplo que lhes dava nas diversas situações concretas testemunhadas por eles. Por uma virtude qualquer da natureza humana, sabemos que o outro nem sempre é o que diz, mas sim aquilo que faz.

Entre as pessoas que conheci, o cineasta Gustavo Dahl, falecido essa semana, era um dos poucos em que quase nunca a fala e o ato estavam distantes. O que não queria dizer que se deixava emparedar pelas ideias que o levavam à ação. Muito pelo contrário, ele sabia que o Ser não existe – só existe o Sendo, aquilo que somos no constante embate com as circunstâncias.

Um dos fundadores do Cinema Novo, o movimento cinematográfico brasileiro de nossa geração, Gustavo sempre foi, de todos nós, o mais culto, o que mais conhecia cinema e o que melhor se expressava. Bonito, elegante, de hábil sociabilidade, sua aparência de dandy e a permanente ironia de seu pessimismo construtor o diferenciavam de nosso ardor juvenil, de nosso entusiasmo mágico pelo que construíamos. Fazia dele o mais adulto de todos nós.

Seu primeiro longa-metragem, “O bravo guerreiro”, belo e rigoroso filme político desprovido das ilusões políticas, inaugurou, ao lado de “O desafio”, de Paulo César Saraceni, a segunda fase do movimento, aquela da desilusão e da necessária reflexão sobre nós mesmos, que teria em “Terra em transe”, de Glauber Rocha, seu ápice.

Tendo sido, antes de tudo, um fino pensador e um artista delicado, Gustavo acabou escolhendo a gestão pública como destino de sua vida. Não como sacrifício, mas como missão.

E, como tal, sempre esteve na liderança da modernização do cinema brasileiro, desde seus textos e articulações nos primeiros passos do Cinema Novo, até a recuperação, fortalecimento e democratização do Centro Técnico Audiovisual (CTAv) que dirigia agora, passando pela montagem da distribuidora da Embrafilme, uma das maiores da América Latina em seu tempo, e pela criação e comando inaugural da Agência Nacional de Cinema (Ancine), na aurora do século 21.

Em suma, a obsessão de sua vida foi a de que o cinema brasileiro tinha que dar certo e, com ele, o próprio Brasil. Gustavo Dahl é um dos heróis da cultura desse país e não se impunha limites nesse heroismo, como numa citação de Niesztche que lembrava sempre: “Não é porque estamos esgotados que nossas tarefas se esgotaram”.

Acho que Gustavo sabia que não adianta procurar o sentido da vida –  ele não existe, ela não tem nenhum. Mas essa procura é o único sentido que a vida pode ter e dela construiu seu amor ao cinema e a aprovação unânime de seus pares.

Foi como testemunha dessa aprovação que me emocionei em seu velório, no início dessa semana, ao ver ali uma multidão reunida para se despedir dele. Gustavo Dahl foi, durante toda a sua vida, um guerreiro provocador e polêmico. E, no entanto,  ali estavam todos os lados e partidos do cinema brasileiro, todas as suas tendências, todas as gerações de cineastas, como a dizer que havíamos entendido não apenas os discursos, mas sobretudo os gestos exemplares que vencem as paixões do tempo.

Não pude evitar lembrar-me do episódio recente da carta da presidente Dilma Roussef a Fernando Henrique Cardoso, na celebração de seu aniversáro, e as consequências políticas dessa distensão. Um gesto generosamente democrático que engrandece a presidente e nos faz ter confiança em sua sensatez e liderança. Afinal de contas, não é preciso eliminar a diferença para fazer valer nossa fé.  Se num discurso não houver um mínimo de possibilidade de o outro estar certo, esse discurso será sempre autoritário, excludente e impositivo, não serve para nada.

Há, na história moderna, outros gestos exemplares de democracia consolidada, parecidos com esse.

Secretário-geral do Partido Comunista Francês desde 1930, Maurice Thorez fez dele o PC mais stalinista do ocidente. Em 1939, apoiou o pacto germano-soviético, tendo por isso que deixar o país, sendo chamado de traidor e desertor pelo general Charles De Gaulle.  Mas quando as tropas de Hitler ocuparam a França, Thorez voltou clandestinamente e incorporou-se ao movimento de Resistência que o mesmo De Gaulle coordenava. Com o fim da guerra, coube ao general organizar um governo de união nacional e Thorez se tornou ministro por dois anos. Na década seguinte, porém, quando De Gaulle voltou ao poder, o chefe comunista levou o PCF à liderança da mais contundente e impiedosa oposição.

Eu tinha 24 anos e estava em Paris pela primeira vez, quando Thorez morreu, em julho de 1964, e fiquei impressionado com o que então aconteceu. Primeiro, De Gaulle expediu nota oficial lamentando o falecimento de seu adversário. Em seguida, para escândalo geral, o general apareceu de surpresa no cemitério de Père Lachaise, assistindo pessoalmente ao enterro do seu eterno inimigo politico.  

O bom cidadão deve ser sempre lembrado e reconhecido como tal, não importa em que partido esteja. Como meu querido e inesquecível amigo Gustavo Dahl.

 

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Para sempre desafinados

 

Carlos Diegues, 13 de junho de 2011

 

Em 1962, Bossa Nova e Cinema Novo já se cruzavam pelas esquinas de Ipanema, nas mesas de chope e nas barracas de praia, quando ouvi dizer que João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes fariam um show juntos no Au Bon Gourmet, casa noturna na rua Barata Ribeiro, concorrente chique dos inferninhos do Beco das Garrafas.

Mesmo que, mal chegado aos 20 anos de idade, não ousasse intimidades com nenhum dos três mitos,  já conhecia Tom razoavelmente bem e cruzara por aí com Vinicius algumas vezes. Mas de João nunca me aproximara, talvez porque ele parecia nunca ter se aproximado de ninguém. E no entanto, desde seus primeiros 78 rpm, em 1958, já tinha mudado a minha vida.

Numa noite friazinha de agosto, graças aos cuidados de Tom e na companhia do fotógrafo Mário Rocha, nosso amigo comum, consegui penetrar no Au Bon Gourmet, evitando a longa fila de espera na porta e o couvert caro lá dentro. Em pé, no fundo da casa superlotada, apertado entre o bar e o corredor estreito que dava acesso aos toaletes, vivi emocionado um dos espetáculos mais lindos de que me lembro na vida.

Curiosamente, a Bossa Nova sempre fora para mim um fenômeno de inverno. Apesar de Copacabana e do “Barquinho” solar de Roberto Menescal que eu adorava, por algum motivo inconsciente eu ligava o novo samba sincopado, a batida inventada por João, ao inverno carioca e só me via a assobiar seus hits flanando por um Rio de Janeiro ventoso e gelado.

Talvez isso ocorresse devido à capa do disco “Chega de saudade”, o primeiro LP solo de João, em que ele aparece vestido em suéter pesado, a fronte trincada e o rosto queixoso, apoiando o queixo com o punho direito, como um pensador hibernal. Como hibernal era a imagem reconhecida da civilização, em contraposição à barbárie estival de um mundo selvagem, calorento e suado, que nossos filmes cultivavam.

Àquela altura, inventávamos o Cinema Novo a lançar manifestos e a fazer nossos primeiros filmes sobre um Brasil real e miserável, um Brasil que ninguém tinha muita vontade de ver. João era, ao contrário, o Brasil como sonhávamos que ele fosse – rigoroso e harmônico, elegante, discreto e preciso, raiz gerando árvore frondosa de dar sombra ao mundo inteiro. Tudo o que considerávamos grandeza superior à nossa agonia de excessos afro-ibéricos.

Terminado o espetáculo no Bon Gourmet, onde haviam apresentado, pela primeira vez em público, “Garota de Ipanema”, Vinicius ficara numa mesa com amigos, enquanto eu e Mário íamos com Tom atrás de um chope ali por perto. João viria conosco, até encontrar um taxi e tomá-lo de volta para casa.

Durante a curta caminhada, Tom me apresentara a ele que mal prestara atenção a mim, obcecado com a censura insistente e incansável que fazia ao compositor, por um cigarro que, para desgosto de João, ele acendera durante o show.

Só o vi de novo em minha vida no centro da cidade, pouco depois do show de 1962, quando o percebi de relance dentro de um carro a me acenar sorridente como se fosse um velho amigo meu. Nunca mais vi João fora de um palco.

Mas foi apenas no ano seguinte, quando ouvi a primeira e mais célebre gravação norte-americana de “Garota de Ipanema”, no LP “Getz/Gilberto”, que compreendi com exatidão a extensão do grande parto de uma era que eu testemunhara naquela noite, no Bon Gourmet.

Essa “Garota de Ipanema” começava com João e violão, naquela levada ao mesmo tempo bárbara e sofisticada. Síncopes, acordes deformados, tempos adiantados, notas retardadas, uma dicção que parecia estar inventando a música ali mesmo. O agradável caos de seu sutil e imprevisível tumulto fundador, tornando destino o que parecia acaso.

Seguia-se Astrud Gilberto cantando a mesma canção em inglês, como se a estivesse reeducando, recolocando-a num novo mundo em que deveria passar a habitar, apropriando-se dela com afinação e divisão de grande cantora branca, como uma Peggy Lee passada a limpo.

Depois de Astrud, irrompia no disco a agressiva intervenção de Stan Getz, um saxofone aos berros em improvisos sem muita imaginação, a descolorir a canção para melhor dominá-la, numa declaração de pânico maior que de celebração. Como se abraçasse a canção do jeito que seus compatriotas fariam, em breve, no Vietnam.

Por último, ressurgia Tom que, até ali, apenas acompanhara o canto de Astrud com belas e inesperadas harmonias de poucas notas, como Ravel costumava fazer. Depois de Getz, Tom voltava a um piano tocado como delicado instrumento de percussão, um pouco como Richie Powell fazia com Clifford Brown e Max Roach. Achei que estivesse querendo recolocar as coisas no lugar, recuperar a canção pelo que lhe dava grandeza.

E então ficávamos à espera da volta de João como quem espera confirmar a revelação, e descobríamos o vazio irrecuperável de sua ausência, e não ouvíamos mais nada que não fosse o seu silêncio. O mais generoso mistério dos grandes artistas é que eles são capazes de nos ensinar tudo sobre a vida, apenas pelo jeito com que praticam sua arte.

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

As cidades invisíveis

Carlos Diegues, 3 de junho de 2011

Estamos tão acostumados aos erros do poder público, convivemos tanto com as notícias de seu desleixo, incompetência ou corrupção, que temos dificuldade em reconhecer seus acertos. E chegamos a ter vergonha de apoiá-lo, mesmo quando o que faz nos parece correto.

Assim, na onda geral de um crônico pessimismo nacional, surfamos na prancha da desconfiança dos políticos e do estado. Mas, mesmo arriscando-nos ao equívoco, o pessimismo, por imobilista, é quase sempre conservador. Já pensou se Cristóvão Colombo ou Santos Dumont, por exemplo, fossem pessimistas?

Por desconfiança e por pessimismo, o apoio da sociedade civil à política das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, não tem sido tão firme, a ponto de levá-la a avançar mais rápida e significativamente.

Há uns dias, o idealizador e executor do projeto das UPPs, o secretário de Segurança José Mariano Beltrame, deu uma entrevista ao Globo fazendo um apelo dramático por esse apoio e avisando que “nada sobrevive só com segurança”. Isso é, as UPPs representam a retomada pelo estado de um território ocupado por bandidos com armas de guerra, mas isso não é suficiente para garantir a paz e o progresso social nas favelas, com a incorporação de seus moradores à cidade.

“Não será um policial com um fuzil na entrada de uma favela que vai segurar (garantir a paz)”, disse Beltrame, “se lá dentro das comunidades as coisas não funcionarem”. E por “as coisas não funcionarem” ele entende a ausência de investimentos sociais.

Quatro dos cineastas moradores de favelas cariocas que fizeram “5XFavela, agora por nós mesmos” acabam de realizar um documentário de longa-metragem chamado “5XUPP”. São cinco episódios, cada um focando um ponto-de-vista sobre a atual política de pacificação nas favelas.

O primeiro, “Morro”, repercute a reação dos moradores das comunidades onde as UPPs já chegaram, em confronto com os sentimentos dos de favelas que ainda não as têm. O segundo foco, “Policia”, é sobre a preparação e o comportamento dos novos policiais destacados para servir nas UPPs. O terceiro, “Bandido”, registra o ponto-de-vista dos antigos donos das favelas, patrões de bocas-de-fumo, alguns deles já recuperados ou em vias de recuperação social. 

No quarto episódio, “Asfalto”, o documentário examina as consequências da nova política de segurança para o resto da cidade, sobretudo em relação aos bairros vizinhos das favelas. E finalmente “Complexo”, o quinto episódio, dedica-se ao complexo caso do Complexo do Alemão vivendo um momento único, entre a ocupação militar de novembro passado e a instalação, cerca de um ano depois, de uma UPP.

Tendo coordenado e acompanhado as filmagens desse documentário, posso garantir que Beltrame tem toda razão e que as questões fundamentais das favelas cariocas estão longe de serem respondidas pela simples presença de uma UPP em cada uma delas.

A democracia não é feita somente de liberdade. Para existir plenamente, ela precisa também de oportunidades iguais, afim de que cada um possa exercer livremente a sua própria liberdade, da forma que lhe for mais conveniente.

Para que possam se beneficiar das mesmas oportunidades que o resto da população, essas comunidades precisam ter acesso aos direitos básicos de cidadania como saneamento, saúde e educação, precisam ter acesso ao emprego segundo seus próprios impulsos íntimos. Se o ensino for o mesmo, isso é, se a oportunidade for igual para todos, não há porque não encontrar numa favela um futuro advogado ou engenheiro, um matemático ou um astrônomo. Por mais nobres que sejam a arte e o esporte populares, ninguém pode ser condenado, em suas vidas, ao tamborim e à bola.

Não deve ser de exclusividade do estado esse programa de oportunidades iguais. Ele é também um dever da iniciativa privada, gerando dinamização da economia local, conhecimento, emprego e renda através de sua própria atividade. Num país que cresce a respeitáveis índices, levando essa população a um poder de consumo mais adequado ao do resto da sociedade, esse não é apenas um dever mas também uma esperteza das empresas que o praticarem. Como algumas já vêm praticando.

Uma UPP, ao instalar-se em uma dessas comunidades, leva à sua população justos e merecidos direitos de cidadania, mas também deveres resultantes da chegada da lei e da ordem.

Depois de décadas de vida à margem da sociedade legal e muito longe do guardachuva do estado, como farão, por exemplo, os modestos e populares mototaxistas para tirar suas habilitações, acostumar-se a usar capacete, conhecer as regras de condução de suas máquinas e continuar a ganhar suas vidas com o que sabem fazer?

Que farão agora os moradores que, não tendo sido traficantes, viviam de uma economia dependente da atividade deles, tais como venda de cerveja e quentinhas, coordenação de bailes funk e outros serviços locais? E os jovens pés-de-chinelo que, por não terem como estudar nem ganhar suas vidas, serviam de mula, vapor, fogueteiro e outros cargos desarmados e desimportantes na rede do tráfico? Vamos esperar que, por necessitados e ociosos, procurem outro ramo do crime?

O que fazer, em suma, para substituir o controle social que os traficantes armados exerciam sobre as favelas dominadas por eles, como verdadeiros senhores feudais? Em Nova Brasilia, uma respeitável senhora da comunidade nos dizia preferir o regime anterior porque agora, quando alguém lhe rouba alguma coisa ou a ameaça de algum mal, ela não tem mais a quem recorrer.

Italo Calvino, em "As cidades invisíveis", escreveu essa coisa linda:  "Após o sonho (com a cidade), partiram em busca daquela cidade. Não a encontraram, mas encontraram uns aos outros. E decidiram construir uma cidade como a do sonho". Não é isso o que Beltrame, muito justamente, nos sugere fazer com as favelas cariocas? Para garantir a paz, precisamos parar de pensar nas favelas como um espaço de guerra.

carlosdiegues@uol.com.br

 

Que tempos são esses?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Diegues, 20 de maio de 2011

Cora Rónai tem toda razão, é muito pouco provável que Dominique Strauss-Kahn não tenha sido vítima de uma cilada.

Como é que um homem inteligente, elegante e cheio de habilidade, responsável pelo maior guichê de financiamento de nações (com as quais precisa dialogar com  jeitinho), líder socialista à frente de todas as pesquisas sobre as próximas eleições na França, como é que uma sumidade politica e intelectual como essa vai perder a cabeça assim, numa manhã novaiorquina em que se preparava para voltar para casa, provavelmente cheio de problemas para resolver e tocar suas vidas doméstica e pública.

Mesmo que DSK estivesse diante de uma deusa inédita, não acredito que um homem desse seja capaz de perder a compostura de tal modo, sem pensar nas consequências de sua avidez sexual. Até mesmo para  certos senadores brasileiros, há sempre um limite de despudor em que devemos acreditar.

Mas... o que é mesmo que um líder socialista francês faz à frente do FMI, famigerado acrônimo de sufoco de povos subdesenvolvidos, besta fera que nós aprendemos a demonizar desde meninos, quando o movimento estudantil apoiava o rompimento decretado pelo moderadíssimo presidente Juscelino Kubistchek? Esse mistério talvez seja mais interessante a decifrar que o da camareira da CIA (ou do Front National), ele talvez nos ensine mais sobre os tempos em que vivemos.

Na obra prima de cinema de Jean Renoir, “A regra do jogo”, de 1939, o personagem Octave, interpretado pelo próprio diretor, afirma a certa altura, meio melancólico, que “o insuportável na vida é que todo mundo tem razão”. Além de ser a cara de toda a obra de Renoir, essa frase nos remete a um período da história que, de certo modo, até se parece um pouco com o dessa segunda década do século 21. 

Em 1939, como hoje, pululavam por aí fundamentalismos guerreiros que haviam atraido populações inteiras, enquanto homens mais sensatos tentavam evitar o pior. Como todo fundamentalismo exige a eliminação da diferença, esses homens simplesmente desapareceram ou se recolheram, imobilizados pela onda direitista que assombrava a Europa, a Ásia e também a nossa América Latina. Uma onda então aparentemente vitoriosa.

Com o tempo e tudo o que ia acontecendo no mundo do século 20, essas divisões políticas entre esquerda e direita foram perdendo o sentido. Qual a diferença ideológica entre as balas que matavam inocentes, durante o stalinismo ou o nazismo, nos grandes campos de concentração que se espalharam pela Europa e pela Ásia, ou pelas prisões políticas de Vargas, Trujillo ou Perón?

Mas, às vezes, a gente fala do desaparecimento do sentido, quando na verdade foi apenas o conceito de sentido que mudou.

O horror soviético durante a Guerra Fria, por exemplo, serviu para domar a potencial barbárie do capitalismo pelo resto do mundo. Apesar do horror, havia sempre viva a utopia comunista que, ameaçando o Ocidente, obrigava o capitalismo a se comportar melhor, a fazer concessões sociais que acabaram resultando nas sociedades de bem-estar européias.

Ninguém desejava e ninguém aprova a destruição das torres gêmeas ou qualquer outra forma de terrorismo. Mas quem sabe o 11 de setembro não foi também um horror que acabou ajudando a evitar a monotonia destrutiva do consenso repressor? Não sou o primeiro, muito menos o único a supor isso.

Quando direita e esquerda foram perdendo o sentido, quando suas fronteiras começaram a perder nitidez, devido sobretudo à vitória do capitalismo e ao fim das velhas utopias, Norberto Bobbio levantou a hipótese de que a qualificação agora serviria mais a um conceito ético que ao político. A esquerda reabilitaria os principios básicos de um humanismo moral, enquanto a direita estaria comprometida com o descaso pelo outro, o autismo social.

Mas hoje, por toda parte, novamente esses conceitos morais se misturam, aderem um ao outro sem muita vergonha de se desdizerem ou de serem acusados de mudar de lado. 

No último filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”, um empresário americano, bonachão e em férias, a quem dificilmente poder-se-ia acusar de fanatismo, defende o caráter cidadão, patriota e honesto dos membros do Tea Party, a extrema direita do Partido Republicano, embora admita não votar neles.

Do mesmo modo, Marine Le Pen, a nova estrela da direita francesa, líder do Front National fundado por seu pai, prega algo que chama de “capitalismo popular”, ganhando com isso o apoio de setores da classe média e dos trabalhadores, além de trazer para seu partido professores, jornalistas, intelectuais e até ex-comunistas que jamais poder-se-iam imaginar em tal companhia.

E no Brasil, o prefeito de nossa maior cidade funda um novo partido que, segundo ele, “não será de direita, nem de esquerda, nem de centro”, borrando definitivamente qualquer diferença entre o bem e o mal. Não é portanto de se espantar que essas novidades cheguem a uma festa como o Festival de Cannes, onde uma de suas estrelas, o premiado cineasta dinamarquês Lars Von Trier, declara publicamente sua simpatia por Adolf Hitler.

Como dizia o jovem rei de Shakespeare, “que tempos são esses, sir John”.

carlosdiegues@uol.com.br 

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Um país bem Amado

Carlos Diegues, 5 de maio de 2011

Sendo leitor dela desde muito cedo, a literatura brasileira sempre foi para mim um espaço sagrado que mais tarde, como cineasta, quase nunca ousei invadir. Primeiro por influência de meu pai e depois por gosto pessoal, passei grande parte da infância e toda a adolescência conhecendo o Brasil através de seus escritores. Posso dizer que, de maneira nada organizada, fui e voltei de Gregório de Matos a João Cabral, indo e vindo no tempo e no espaço sem nenhuma disciplina.

Nessas leituras, revelou-se para mim o mais recorrente e belo projeto inconsciente do país. Um projeto que, embora nunca realizado de fato em nossa história, estava sempre presente no que de melhor eu lia. A ideia de um povo guiado pelos sentimentos, um Brasil pícaro e carnavalizado, potencial inventor de uma civilização fundada na sensualidade e no humor, que seria capaz de superar a miséria várias vezes centenária com um drible de conciliação.

Com a desilusão do tempo, fui aprendendo que nada daquilo era verdade, que o mito nunca se tornara realidade. O espírito de Macunaíma não se encontrava no mundo real, a antropofagia de Oswald não passava de piada de salão, a ética do sertão de Rosa era uma ilusão em nossa crescente urbanidade, o carnaval durava pouco e o futebol revelava-se inconstante. O lado feio de nosso caráter costumava prevalecer e o desenlace penoso de nossas crises o demonstrava sempre, sem piedade. Mas, mesmo sabendo que não era daquele jeito, nunca deixei de pensar como seria bom, se fosse.

Onde existe um mito, existe sempre um projeto inconsciente, um desejo qualquer. E, para mim, a quintessência daquele projeto ideal, às vezes expresso com grande inspiração e brilho acadêmico por homens de ciência como Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro ou Roberto da Matta, sempre esteve na obra ficcional de Jorge Amado.  

É como se sua obra fosse uma eterna militância, um permanente manifesto a favor do entendimento e da felicidade, em prol da instauração definitiva de um Brasil que sempre se deu bem nos poucos momentos em que tentou plagiá-lo. Um pensador baiano dizia que Jorge Amado e Dorival Caymmi inventaram, com seus livros e canções, uma Bahia que nunca existiu; e, por tão bem sucedidos, a Bahia resolveu imitá-los, se empenhando para tornar realidade o que estava na ficção dos dois. É do compartilhar desse pertencimento a uma cultura tão especial que a obra de Jorge tira sua grandeza e nos inunda de alegria.

O trabalho literário é antes de tudo um trabalho de linguagem. A linguagem, porém, não é essência nem ornamento, mas moeda de troca entre o autor e seu leitor, entre o autor e o mundo. Só que, enquanto a moeda de verdade serve para comprar, a linguagem serve para vender – vender uma trama, uma emoção, uma imagem, uma idéia, uma metáfora, uma sensação, qualquer coisa que ali se deseja expressar. E quanto mais inédito seja o que se deseja expressar, mais nova e original deverá ser a linguagem que o expressa. Sem essa referência, a linguagem se torna um instrumento da preguiça criativa ou um exercício vazio e narcisista de desocupados.

A linguagem dessa literatura latino-americana barroca e pop de hoje, que faz a glória de Gabriel Garcia Marques e Mario Vargas Llosa, foi na verdade fundada, desde muito antes, por Jorge Amado e o cubano Alejo Carpentier. Foram eles que inventaram a fluência caudalosa, a palavra gorda e suada, as orações grávidas de sentidos, os personagens propositadamente incompletos, o populismo democrático, a rejeição ao psicologismo e ao épico apolíneo, grande parte do que veio a se chamar “realismo mágico”. Os primeiros sinais da literatura contemporânea que identifica os romances escritos em nossos países.

As qualidades de Jorge como escritor nunca se reduziram ao típico humanismo de esquerda daqueles anos. Ele criou uma literatura relaxada em que a tensão entre o real e o imaginário, a ideia e o desejo, o erudito e o popular, inspirava o entusiasmo do leitor, acrobata arrebatado a atravessar vitorioso uma corda bamba de turbulências na vida. A academia, a partir de determinado momento, começou a subestimá-lo e impôs ignorá-lo, desconfiada talvez de seu imenso sucesso popular. Como Dickens, Balzac ou Eça. Quando os poetas concretistas de São Paulo, os mais rigorosos críticos do Brasil, aplaudiram “Quincas Berro d’Água” como um êxito literário, recebi a notícia como uma vitória pessoal de seus leitores.

Daqui a um ano, em agosto de 2012, estaremos comemorando o centenário de nascimento de Jorge. Vamos nos preparar desde já para celebrar a data, não nos faltam argumentos para isso. Transcrevo, por exemplo, esse trecho de Mario Vargas Llosa: “Em poucos escritores modernos encontramos uma visão tão ‘sadia’ da existência como a que propõe a obra de Jorge Amado. Geralmente (...) o talento dos grandes criadores de nosso tempo tem se debruçado, especialmente, sobre o destino trágico do homem, e explorado os abismos sombrios por onde ele pode precipitar-se. (...)  Jorge Amado, ao contrário, como é comum nos clássicos (grifo meu), exaltou o reverso daquela medalha – a cota de bondade, alegria, plenitude e grandeza espiritual que a existência também comporta, acaba sempre em seus romances ganhando a batalha em quase todos os destinos individuais”.

Podemos portanto dizer que Jorge Amado é o nosso clássico por excelência e assim será até que o Brasil tome jeito e siga o espírito de suas tramas. Ou o exemplo de seus personagens. A mim, eles me ajudaram a configurar o mundo em que eu gostaria de viver e me estimularam a lutar por esse mundo.

carlosdiegues@uol.com.br

 

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Um Novo Humanismo

Carlos Diegues, 20 de abril de 2011

Segundo o consagrado pela ciência, o universo deve sua origem a uma grande explosão, o Big Bang. Nós e tudo que nos cerca somos formados pelo material que se liberou e se expandiu dessa explosão inicial.

Como se sabe, qualquer material formado por uma explosão tende naturalmente a, no tempo, diminuir sua velocidade de expansão até se retrair. Mas, no caso de nosso universo, os astrocientistas ainda não conseguiram explicar porque, ao contrário disso, sua expansão continua a se acelerar indefinidamente. Não conseguem entender que força estranha é essa, mais poderosa que a grande explosão inicial, capaz de produzir essa aceleração permanente, rompendo com a lógica de tudo que conhecemos.

Se o universo se expande cada vez mais aceleradamente, é natural que tudo que se encontra em seu interior acompanhe esse mesmo ritmo, se expanda nessa mesma velocidade. Inclusive a mente humana e sua capacidade de entendimento do que está à sua volta. Como não conseguimos suportar a vertigem desse movimento constante, dessa ideia de que nada nunca se completa e se acaba, como não conseguimos suportar a ideia de crise constante,  estamos sempre em busca da fantasia de um fim, de um triunfo final capaz de coroar a passagem do homem pelo universo.

Durante muito tempo, Deus ou os deuses ocuparam esse espaço triunfal. Era apenas deles e de seus desígnios que nós dependíamos, não adiantava se aporrinhar com outros projetos que não fossem os da estrita obediência à vontade divina e suas consequências. Mas, um dia, assim como Copérnico pôs o sol no centro do universo, o grande salto para tempos mais modernos colocou o homem no centro das ideias humanas, substituiu o conformismo diante da vontade divina pela curiosidade por nosso próprio destino, pelo direito de nos realizarmos nessa vida mesma, pela busca da felicidade.

A insegurança do homem tornou-o uma espécie de travesti de Deus, prevendo para si mesmo um destino triunfal, tema de todos os humanismos desde o paraíso cristão, do conhecimento científico total à sociedade sem classes, da harmonia absoluta com a natureza à singularidade de nossa origem. Da miséria humana ao triunfo final de nossa virtudes ou de nossos esforços, quando tudo então se apascentaria no triunfo.

Como a ciência não para de nos passar rasteiras, como a história é uma senhora bêbada a ziguezaguear por aí, como a natureza nos trai e decepciona constantemente com seus agressivos terremotos e tsunamis, como não somos muito diferentes de todos os acasos que formaram o universo à nossa volta, nossa frustração nos constrange e nos desorienta. Afinal de contas, como dizia o personagem literário, descobrimos que “o céu é muito superestimado”.

Talvez esteja chegando a hora de pensarmos um novo humanismo, dessa vez não triunfalista, sem aquele final apoteótico de sempre. Um humanismo construído com nossas fraquezas, capaz de transformá-las em matéria de nosso entendimento mútuo nesse universo em constante, acelerada e infindável expansão. Nós somos os únicos,  nesse tão movimentado universo, que temos consciência de sermos indivíduos, que sabemos onde estamos e com quem estamos. E talvez seja isso o que chamamos de alma.

Não precisamos tornar trágica a nossa relação com o fracasso de nossas ilusões de divinização. Não precisamos sofrer porque não somos capazes de vencer o acaso, de impor ao mundo nossos projetos de absoluto. Precisamos de “um olhar menos nostágico diante do presente”, como escreveu o professor Denilson Lopes, num pequeno e admirável livro chamado “A Delicadeza – estética, experiência e paisagens”. Devemos, como ele acrescenta, “caminhar diante do peso das coisas com a leveza na alma”. Levar tudo a sério, mas com muita alegria. Ou como está em Niesztche:  “O que é bom é leve, tudo divino se move com pés delicados”.

Antes de o mundo estar aí para ser estudado e transformado, como sempre quis a ciência ocidental, ele aí está também para nossa fruição, para ser admirado sem necessário proveito material. E não existe cânone algum que nos obrigue a dominá-lo, utilizá-lo, transformá-lo sempre num instrumento de nosso poder divino sobre o que existe.

Por exemplo, o meu sentido que mais se excita diante do mar é o da visão. Me satisfaço com ela embora admita dar, de vez em quando, um mergulho em suas águas. Mas velejar é algo tenso demais para mim, alguma coisa que nunca me atraiu. Se dependesse de mim, portanto, a América nunca teria sido “descoberta”. Ainda bem que outros seres humanos não pensavam assim como eu sobre o mar.

carlosdiegues@uol.com.br

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O Horror da Diferença

Carlos Diegues – 8 de abril de 2011

Como ele está morto e nunca em vida conversou com alguém sobre o assunto, jamais saberemos os motivos e as circunstâncias psíquicas que fizeram com que o rapaz entrasse na escola de Realengo e praticasse aquele massacre de crianças. Todos temos o direito de fazer suposições, mas jamais conheceremos a verdade, é inútil insistir.

Talvez nos reste apenas tirar das circunstâncias da tragédia algum ensinamento, seguindo umas poucas pistas a nosso dispor. A mais importante delas está certamente na carta deixada pelo assassino, um pouco subestimada pelo que andei lendo nos jornais.

Ali está, antes de tudo (ou “primeiramente”, como o autor a inicia), uma ostensiva divisão do mundo entre os “puros” e os “impuros”, não podendo esses nem ao menos tocar em seu corpo. Mais do que fazendo uma declaração religiosa fundamentalista, Wellington está assim se referindo à incompatibilidade entre ele e os outros, sendo esses os que não merecem viver no mesmo mundo que ele.

Talvez estivesse até dividido entre esse “eu” e “o outro”, sendo ele mesmo as duas coisas. Wellington atirou de preferência em meninas, como se estivesse eliminando preferencialmente o desejo que o tornava “impuro”. Ou seja, que o tornava “o outro”. Mas isso, mais uma vez, é apenas uma suposição.

Como também poderia estar se vingando do que outras crianças podem ter feito com ele no passado, nas mesmas salas de aula em que perseguiu suas vítimas. Alguns relatos dizem que Wellington teria sido alvo de bullying (será que o verbo “bolinar” é um anglicismo decorrente de “bullying” ou os dois vocábulos têm igual raiz latina?), quando estudou naquela mesma escola dos 11 aos 14 anos de idade e era conhecido como Sherman (referência ao nerd de “American Pie”) ou Suingue (por mancar de uma perna).

O que é evidente, a partir das poucas pistas deixadas, é que a tragédia na escola de Realengo está repleta, por todos os lados, de graves e clássicos sintomas de intolerância, uma incapacidade de suportar a diferença, um horror dela que nos impede de viver em paz com o outro.

Nesta mesma semana em que Wellington invadiu a escola atirando em crianças, uma menina chamada Adriele, de 16 anos, foi assassinada no interior do Mato Grosso do Sul por dois rapazes que não se conformavam com o romance dela com a irmã deles. Na semana anterior, Michael, da equipe do Vôlei Futuro, era objeto de brutal manifestação coletiva de homofobia, num ginásio de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, por ter-se declarado homossexual. Uma tradição de nosso esporte: há cerca de 10 anos, o jogador Lilico já tinha sido excluido da seleção brasileira de vôlei pela mesma razão.

Por esses mesmos dias, o deputado Jair Bolsonaro falava na televisão da “promiscuidade” que não permitia a seus filhos, a de se relacionar com uma mulher negra como Preta Gil. Assim como um pastor evangélico afirmava, em sua pregação religiosa, que os africanos eram fatalmente herdeiros de maldição lançada por Noé, em nome de Deus, logo depois do dilúvio.

Um pouco mais longe de nós, outro religioso, dessa vez na Flórida, queimava em público um exemplar do Alcorão, o livro sagrado dos islamistas. O que provocou, em represália, o assassinato de dezenas de pessoas no Afeganistão, vítimas de homens-bomba.

Se o culpado for sempre o outro, se o mundo estiver dividido sempre entre os puros e os impuros, não evitaremos nunca novos Wellington, nem que toda a polícia do país passe a trabalhar exclusivamente na porta de nossas escolas. A resistência à diferença, o horror a ela, sempre foi causa ou pretexto de todos os genocídios na história da humanidade.

Às vezes, ela se disfarça sofisticadamente em ideologia ou visão de mundo, com teorias cheias de argumentos. Como no nazi-fascismo de Hitler, Mussolini, Pinochet e tantos outros; ou no comunismo de Stalin, Mao, Pol-Pot e tantos outros. Mas, no fundo, todas essas formas de autoritarismo que encharcaram o século 20 de sangue partiram sempre da ideia de rejeição da diferença, por medo ou ignorância, por má ciência ou simples superstição.

Um certo cinema, sobretudo o norte-americano de ação, nos encheu e ainda nos enche a cabeça de estímulos a esse combate à diferença. As batalhas intergaláticas de humanos decentes contra alienígenas do mal apenas substituem a incompatibilidade clássica entre o branco civilizador e o indígena selvagem do Velho Oeste, sucedendo aos épicos de guerra contra os insensíveis amarelos do Sudeste Asiático e os pérfidos árabes do Oriente Médio. 

Neste sentido, um filme como “E.T.”, de 1982, fez mais pela democracia americana do que muito discurso de liberais locais. No filme de Steven Spielberg, a amizade entre a menina interpretada por Drew Barrymore e o extra-terrestre monstruoso, perseguidos pelas máscaras e tubos higienicamente brancos dos eugenistas  comandados por Pete Coyote, era uma perfeita metáfora do que poderia ser o mundo sem o medo do outro.

Ninguém nasce racista ou homofóbico, ninguém nasce com preconceito algum. A educação que recebemos ao longo de nossos primeiros anos de vida é que nos torna assim ou assado. E isso é portanto uma responsabilidade de todos, da sociedade onde vivemos e no seio da qual seremos preparados para a vida. 

Não adianta usarmos a fechadura mais rigorosa das leis contra o racismo e a homofobia, enquanto deixarmos prevalecer entre nós o horror da diferença. A intolerância vai sempre acabar entrando pelas frestas de portas e janelas de nossa vida social, como entrou na escola de Realengo.

carlosdiegues@uol.com.br

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Os pássaros de plumagem colorida

Carlos Diegues, 25 março 2011

Fiquei com certa pena de Barack Obama, em sua estada no Brasil. Quando ele saltou daquele aviãozão, encenando relaxamento e sorriso, acompanhado de Michelle de verde e amarelo, das filhas magrinhas de olhos saltitantes (mas contidas por fora, como convém às princesas), da sogra e da madrinha de uma das meninas (ah, se fosse um senador brasileiro!), compreendi logo que tentava aproveitar o compromisso oficial para dar uma respirada. Entre uma notícia de radiação atômica em Fukushima e de mais um bombardeio sobre Benghazi, Barack vinha tomar fôlego na terra tropical que conheceu quando, ainda jovem, viu “Orfeu Negro” num cinema de Nova York, levado pela mãe suspirante.

Em seu livro “A origem de meus sonhos” (“Dreams from my father”, no original), Obama diz que a mãe insistira em levá-lo e à irmã àquele filme onde “brasileiros negros e mulatos cantavam, dançavam e tocavam violão, como pássaros despreocupados de plumagem colorida”. Bem, é verdade que ele diz também que, no meio da sessão, achou que já tinha visto o bastante e sugeriu à mãe que fossem embora do cinema. A mãe recusou mas o jovem Barack teve o apoio da irmã Maya, que comentou: “Um tanto antiquado, não é? “. 

Obama veio ao Brasil para firmar acordos comerciais e técnicos, uma agenda pra lá de séria. No plano político, veio conversar com Dilma sobre o Irã (no que, vimos ontem, foi muito bem sucedido) e sobre o Conselho de Segurança da ONU (no que, já sabemos, ela ainda não foi bem sucedida). Mas veio também na esperança de virar, por uns poucos dias, um daqueles pássaros despreocupados de plumagem colorida. Não conseguiu. Eles mudaram a vida de sua mãe, mas essas coisas míticas não acontecem com todo mundo, em qualquer situação. Nem sempre.

Bem que ele tentou, escolhendo programas que alguém deve ter-lhe assinalado como obrigatórios para turista de boas intenções. Mas acabou subindo ao Cristo Redentor à noite, perdendo o deslumbre de cores, formas e ritmo de espaços que a rica geografia da cidade oferece ao sol, vista do Corcovado. Como também não o deixaram sair do automóvel, quando foi à Cidade de Deus, uma favela horizontal de construções convencionais, tão diferente dos “cênicos morros verdes” das favelas verticais que conheceu no filme de Marcel Camus.

Na CDD, os moradores o esperavam ansiosos, com faixas e painéis que haviam desenhado para ele e que ele não chegou a ver (uma delas dizia lindamente: “Welcome to God City”). Meus amigos da CUFA (Central Única das Favelas), baseada na CDD, me contaram que fizeram tudo para tirar o homem e sua familia de dentro do automóvel blindado, levá-los a passear pelas ruas do bairro e conhecer o líder local Celso Athayde, o hip-hop de MVBill, o teatro de Anderson Quak, o cineclube de Rodrigo Felha, a UPP do Capitão Medeiros, as diferentes virtudes e especialidades de moradores do local. Como o FBI não deixou, os visitantes tiveram que se contentar com uma sessãozinha de capoeira de crianças e um bate-bola sem graça num beco sem saída.

Adorei o discurso de Obama no Theatro Municipal. Foi um discurso de galanteador, de quem quer conquistar o interlocutor, uma homenagem ao Outro. Gostei da alegria sem gravata com que ele entrou no palco, o sorriso de quem já esperava a recepção da casa e da família que o recebia, e ainda queria mais. Gostei até das citações meio mal citadas, dos elogios a Lula e Dilma, da lembrança do samba de Jorge Ben Jor e até do trecho de Paulo Coelho que, confesso, não entendi muito bem. E sobretudo vi em seus olhos gosto pelo que dizia, a se derramar em ondas sucessivas de simpatia sobre a praia macia dos cariocas presentes.

Nossos jornais disseram que foi tudo muito superficial e protocolar. O jornalista Jânio de Freitas chamou-o de “discurso de churrascaria” e o nosso Merval Pereira anotou decepcionado que se havia perdido uma oportunidade política de não sei o quê. Eles têm provavelmente toda razão do ponto de vista dos interesses nacionais. Mas será que, no fundo, foi para isso mesmo que Barack Obama e sua família vieram ao Brasil?

Ainda entre nós, o presidente norte-americano foi obrigado a esquecer seus devaneios e cair na dura realidade da vida que escolheu: em vez de dançar, cantar e tocar violão, como viu fazermos no filme de Camus, ele ordenou, daqui mesmo, que se bombardeasse a Líbia, que se acabasse de uma vez com o ditador de lá e seus parceiros. Por seu lugar no mundo, Barack teve que voltar ao mundo real e o mito se tornou uma névoa do passado, propriedade exclusiva de sua mãe e de sua lembrança dela.

Foi um pouco o que aquele filme mítico fez conosco, com a minha geração, contemporânea a ele. Todos nós havíamos adorado a peça de Vinicius de Moraes, “Orfeu da Conceição”, e quando “Orfeu Negro”, supostamente baseado nela, apareceu, ficamos revoltados com a traição ao texto do poeta e à realidade de nossas favelas. Cadê a perfeição do Soneto do Corifeu, o desbunde sensual e delirante do Monólogo de Orfeu, o carnaval caótico de uma gafieira, a tragédia exuberante do morro carioca, as cruéis relações sociais entre nós, a revolução cultural que nós fazíamos naquele momento no Brasil, para sermos nós mesmos?

Ao invés disso, passeava pela tela uma ilusão de felicidade ingênua onde só a morte era capaz de interromper o bem estar, uma recusa de olhar para aquilo que chamávamos então de realidade. Nós ainda não sabíamos que o visível é apenas a parte menos interessante do real.

Sempre pensei que o sucesso internacional de “Orfeu Negro” só foi possível graças àquele momento, o do auge da Guerra Fria, quando os cidadãos americanos corriam a construir abrigos nucleares domésticos e a bomba atômica podia cair sobre nossas cabeças a qualquer instante. No meio desse delírio distópico, aparecia um filme gentil que dizia que, num lugar de sol permanente, no alto de uma colina verde que dava para o mais belo mar do mundo, havia uma raça de artistas que não tinha a mesma cor dos brancos e louros que ameaçavam se dilacerar. E esses pássaros de plumagem colorida só pensavam em fazer amor, cantar, dançar e tocar violão.

Como nós vivíamos aqui e sabíamos que não era bem assim, decretamos que aquele filme era uma farsa. Mas a mãe de Barack acreditou nela e isso mudou sua vida. E gerou Barack Obama que, por um instante, deve ter-se perguntado e à sua familia se isso não poderia também acontecer com ele.

carlosdiegues@uol.com.br     

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Pão e Circo com Direitos

Carlos Diegues, 10 março 2011

Nos últimos oito anos, Gilberto Gil e Juca Ferreira acertaram várias vezes à frente do Ministério da Cultura, sobretudo em sua modernização, cujo ponto alto foi a criação dos Pontos de Cultura. Mas infelizmente a sombra do voluntarismo e da volúpia de intervenção do estado na criação artistica andou sempre rondando algumas decisões do MinC de Gil e Juca, desde o desastrado projeto da Ancinav.

No final do ano passado, esta sombra caiu mais uma vez, agora sobre o projeto de uma nova lei de Direitos Autorais, estendendo sua repercussão aos primeiros dias da nova ministra Ana de Hollanda. E é incrível como alguns intelectuais e certos setores da sociedade civil se apressaram a receber com ressentimento e quatro pedras na mão o gesto democrático da nova titular da pasta, que apenas propõe a revisão do projeto para torná-lo mais de acordo com o que pensam seus beneficiários. Ou vítimas potenciais.

Talvez por saudades da truculência e do despotismo de  administrações e regimes anteriores, essas pessoas confundem a serenidade, tolerância e doçura da ministra com falta de energia ou de decisão, com “autismo”. É óbvio que Ana de Hollanda está apenas querendo por à disposição do julgamento de todos os duvidosos termos do projeto elaborado por alguns.

Guardo com cuidado um trecho do discurso de posse da presidente Dilma Roussef, uma rara referência à cultura feita por pessoa pública de sua importância e responsabilidade: “A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade. Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais, e expandir a exportação de nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo”. A presidente sabe que quem fabrica essa “alma de um povo” são os homens que a criam. E, assim como os que nos alimentam e produzem comida contra a miséria do povo, eles precisam ser remunerados para cumprir seu papel com pertinência e dignidade.

Ninguém tem dúvida de que as novas tecnologias de produção e difusão artísticas vão exigir novos modos de remuneração autoral, sobretudo diante de uma nova cultura pós-industrial em marcha acelerada. Tenho até uma certa simpatia pelo Creative Commons, embora não veja nele nada que não esteja na lei atual, onde todo artista tem o direito de abrir mão, total ou parcialmente, de seus direitos autorais. Mas crucificar Ana de Hollanda porque ela pôs em discussão a opção compulsória pelo CC e decidiu levar isso a um democrático debate público, só pode ser má-fé.

No passado longínquo, os artistas não eram senhores de sua obra. Michelangelo Buonarotti pintou sua obra-prima, a Capela Sistina, por encomenda do Vaticano, a poderosa “major” da época, e teve que discutir plano a plano, a cada pincelada que ali dava, com seu “producer”, o Papa Julio II. Os artistas não tinham como viver, se não fosse trabalhando para os poderosos, reproduzindo suas imagens e costumes para grandeza deles, de seus partidos e de suas religiões. E Príncipes e Papas descobriram que era uma boa ideia patrociná-los.

Mesmo que isso contrarie os pensadores da esquerda infantil, o que libertou os artistas desse controle foi o pensamento iluminista, que descobriu o valor diferenciado do indivíduo, simultaneamente ao mercado criado pela revolução industrial, que pagou por sua originalidade e contribuição ao progresso.

Sem o mercado, não haveria a arte moderna, livre dos interesses do poder, independente da consagração dos barões. Não haveria Dickens ou Balzac, Manet ou Picasso, Ravel ou Stravinski. Mesmo um gênio como William Shakespeare não era bobo de tentar contrariar Elisabeth I e a dinastia dos Tudor com suas peças, embora tenha sido exatamente ele o primeiro a compreender, em seu famoso e fundador Theatre, a importância do público para a conquista de sua liberdade.

O mercado estabeleceu o direito do artista dizer o que pensa sobre o estado do mundo, independente do que pensam os que mandam nele. Primeiro através da produção de protótipos e depois de reproduções, com uma multiplicação de valor que acabou sendo decisiva até mesmo para o PIB das nações. No momento em que surge no horizonte planetário as luzes de uma nova cultura pós-industrial, cognitiva e virtual, ainda de dificil descrição, o Brasil segue engatinhando no portal das economias criativas.

Como remunerar tudo isso com justiça, se ainda pensamos num estado que teria o direito de desapropriar o que saiu de nossas cabeças e que portanto só pode nos pertencer?

Li recentemente uma entrevista de Lewis Hyde, respeitado pensador do mundo virtual, em que ele diz que “assumindo que existe uma verdadeira incongruência entre ganhar a vida e fazer arte (por que?, digo eu escandalizado), muitos artistas escolhem uma vida de pobreza voluntária,  vivem com pouco e constroem sua obra”.  Ora, essa ideia de “pureza” do artista como resultado de sua indispensável pobreza, esse seu exílio do mundo concreto, em vez de ser uma visão do futuro, não passa de uma tentativa de empurrá-lo para antes do Renascimento, uma tentativa de medievalização da arte, uma conspiração de fundamentalistas da tristeza em sua eterna melancolia do paraíso perdido.

Anos atrás, em um de meus filmes, “Um trem para as estrelas”, fiz um personagem popular, interpretado pelo grande Zé Trindade, dizer a um jovem músico que começava sua carreira: “Não se esqueça, meu filho, quem precisa de arte é o público, artista precisa é de dinheiro”. O que significa mais ou menos que, assim como quem dá o pão precisa ser remunerado, quem dá o circo não pode morrer de fome. A nobreza da arte que não cobra pela sua produção é um malicioso golpe dos poderosos, afim de manter os artistas dependentes do rei e portanto incapazes de dizer se Sua Majestade está nu.

carlosdiegues@uol.com.br

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Uma Revolução Pós-Industrial

Carlos Diegues, 25 fevereiro 2011

Há mais de um mês que a cidade do Rio de Janeiro plana no espaço dela mesma, encantada por um verão de céu euforicamente azul e brisa suave que nos incentiva a encarar o incansável sol. Assim como se a natureza tentasse se desculpar pelas tragédias que provocou recentemente na vizinha serra fluminense.

Mas parece que ninguém quer mesmo ouvir falar desse assunto, só mestre Zuenir Ventura, em sua coluna, ousou tocar outro dia na epifania estival que ilumina essa nossa cidade. Deve estar havendo um complô de silêncio organizado por sábios de extrema responsabilidade, afim de que não nos esqueçamos, nem por um instante, das dores do mundo. Mesmo que a beleza (essa hipótese de felicidade) também faça parte dele.

Atualmente, sábios, jornais e a sensatez do mundo preferem que prestemos atenção exclusiva, por exemplo, às revoltas sucessivas no mundo árabe, com reportagens frenéticas e fotos dramáticas, mesmo quando de pura celebração. Há muito tempo que não tínhamos uma tal revelação coletiva dos esgares de uma mudança na história, um parto histórico da humanidade em plena transformação.

No passado mais longínquo, os líderes tribais ou feudais eram heróis sublimes, a brandir suas espadas em nome das quais seu exército de combatentes era capaz de morrer sem nem saber porque. Depois, a partir da era industrial, os líderes se tornaram tão políticos quanto militares, empreendedores de ideais, verdadeiros CEOs de suas revoluções, organizando a massa para o sucesso de suas empresas. Mas os combates a que estamos tendo o privilégio de assistir, talvez sejam os sinais da primeira revolução pós-industrial da história.  

Conhecemos de sobra os ditadores e monarcas autoritários ameaçados de perder o poder no mundo árabe, são todos filhos do petróleo queimado em benefício da era industrial. Mas mal conseguimos saber quem se encontra do lado oposto ao de Mubarak, de Kadhafi ou do rei do Bahrein, não temos notícia do nome de nenhum grande líder majoritário dos que se revoltaram contra eles.

Na lógica industrial, o valor do produto determina a riqueza de cada um, é preciso acumular resultados para ganhar mais poder, um poder naturalmente centralizado. Mas no capitalismo pós-industrial, “imaterial e cognitivo”, como diz Cezar Migliorin (escrevendo sobre cinema pós-industrial, na revista virtual Cinética), “não é mais no produto/matéria que se encontra o centro do valor, mas no conhecimento, na forma de se organizar e modular uma inteligência coletiva”. A lógica da riqueza industrial está na escassez do produto; a pós-industrial, na abundância do conhecimento.

Como ainda não estamos muito acostumados a isso, os serviços secretos das potências mundiais dão tratos à bola para descobrir porque está acontecendo o que eles não conseguiram prever e porque esses acontecimentos não estão sendo financiados ou armados pelo inimigo delas, como era natural durante a Guerra Fria, o apogeu da disputa industrial.

Por outro lado, a imprensa de um modo geral e os principais analistas políticos de todo mundo simplificam suas observações com a ideia de que é o “povo” que está nas ruas, um povo anônimo e impessoal, um povo idealizado fruto de nosso voluntarismo, sublimado por velhos mitos coletivistas que nunca conseguiram nos explicar nada.

O que está nas ruas dos países árabes, o que ocupa Benghazi, a praça Tarhir ou a Pérola do Bahrein, são os protagonistas de uma fragmentação cultural libertária, anunciada e desenvolvida pela globalização através da internet, suas redes sociais, blogues, sites, emails e tudo mais que já está ou ainda virá por aí, com seu compartilhamento de informações em alta velocidade e sem limites geográficos. A internet como plataforma de iluminação e lançamento (não confundamos plataforma com programa), através da qual gozamos formas inéditas de relacionamento com o mundo e depois da qual nunca mais seremos os mesmos.

O milagre dessa revolução pós-industrial é o milagre do conhecimento, do gosto pelo conhecimento livre e portanto da democratização de nossa existência. Essa é a grande novidade capaz de reunir tanta gente nas ruas, praças e cidades de países com décadas e até séculos de repressão autoritária. Procuramos quem os manipula e não encontramos ninguém, é apenas como se esses novos consumidores de conhecimento estivessem nos dizendo: “aprendemos a pensar e viver por nossa própria conta, e gostamos disso”.

Isso não significa que a lógica do capitalismo industrial vá desaparecer. Assim como o advento da indústria, na passagem do século 18 para o 19, não acabou com o comércio, a agricultura ou o artesanato em seus formatos clássicos, o mundo pós-industrial do século 21 seguirá coexistindo com aquilo que dominou o século 20. Em permanente estado de tensão pois, embora os contrários não se excluam necessariamente, as grandes transformações tendem a se multiplicar.

A má notícia é que os grandes centros de poder mundial (político, econômico ou miltar) não ficarão indiferentes a essa revolução. É claro que ela não afeta somente o rei Abdullah da Arábia Saudita ou a ditadura teocrática dos aiatolás do Irã. Perdido no meio do dinâmico noticiário sobre os acontecimentos no mundo árabe, estava ontem mesmo, num canto de jornal, o pequeno título de curta matéria: “China bloqueia rede social para evitar organização de protestos”. Nem todo poderoso é como Kadhafi, capaz de se oferecer como mártir de seu próprio horror - ninguém que tenha algum poder o entrega de graça.

Enquanto sopra a brisa na orla carioca e o sol nos afaga com esse verão de sonho, assistiremos ao início desses novos tempos, torcendo por um dos times mas sabendo que nenhum deles joga sempre de um lado só.

 

carlosdiegues@uol.com.br

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O Avô de Flora

Carlos Diegues, 11 fevereiro 2011

No mundo real, a olho nu, só existe o indivíduo. Assim, cada vez que morre um indivíduo, o mundo desaparece com ele.

Esse desastre é tão insuportável que  nem mesmo a inexorabilidade da morte nos convence da certeza dela em relação a nós. Por isso mesmo, estamos sempre inventando a expectativa de grandes desastres coletivos, catástrofes milenaristas sob as quais disfarçamos nossa angústia da morte única e solitária, imaginamos enganar a solidão da morte.

Podemos exercer a dor dessa expectativa comum em nome da solidariedade, esse amor coletivo que humaniza o homem. Mas o que nos faz sofrer de verdade é a morte do indivíduo, de alguém cujo valor definitivo se mede pelo que se sucede a seu desaparecimento. Aquela pessoa que só então descobrimos amar mais do que imaginávamos.

Raphael de Almeida Magalhães faleceu há dois sábados, aos 80 anos, vítima de infarto fulminante e inesperado para um homem que, durante toda a sua vida, nunca havia passado uma só noite num hospital. E que a viveu em plena e permanente exuberância.

Peladeiro lendário, líder da seleção do Santo Inácio, artilheiro da praia pelo Ouro Preto do Lido, parceiro de bola de Garrincha e Nilton Santos, dirigente campeão pelo Fluminense, Raphael chegou a ser comparado a Pelé por muitos que o viram jogar.

Seu amor pelo futebol pode ser encarado como uma versão orgiástica de sua paixão pelo Brasil, obsessão que nunca o abandonou. Dono de vasta cultura humanista e de uma capacidade extraordinária de análise, podia passar horas a discutir um mesmo fato de nossa realidade, visto sob todos os ângulos e disciplinas possíveis.

Com menos de 30 anos, Raphael foi vice-governador de Carlos Lacerda, em cuja administração participou da criação do Guandu, do túnel Rebouças, do aterro e do parque do Flamengo, e de outras obras que mudaram a cara da cidade. E sobretudo da imposição da educação como atividade prioritária do estado. Foi ele também quem idealizou e instalou a CAIC (Comissão de Auxilio à Indústria Cinematográfica do Estado da Guanabara), o primeiro mecanismo de financiamento público de cinema criado no Brasil.

Eleito deputado, Raphael foi preso pelos militares, em 1968, por liderar a resistência ao fechamento do Congresso. Orador de grande sedução, fino articulista, fanático pela tolerância e pelo entendimento, um dos grandes animadores e articuladores das campanhas das Diretas e da Anistia, foi um dos fundadores do PMDB original, sigla criada como estratégia de convergência democrática contra a ditadura.

Constituinte em 1988, participou da elaboração da Constituição Cidadã, sobretudo em seus aspectos social e previdenciário, área da qual fora ministro em 1986, no início do processo de democratização do país. Raphael era um dos últimos sobreviventes entre os protagonistas desse processo.

Esse grande e generoso brasileiro foi também um grande e generoso ser humano (é difícil distinguir a linha tênue que separa, entre os grandes homens, o território público do privado). Tive a sorte de acompanhá-lo de perto durante os últimos 30 anos, tempo em que estou casado com sua única filha, Renata. É de nossa filha e sua neta, Flora Diegues, 24 anos, o depoimento abaixo, lido por ocasião de missa em sua memória.

“Meu avô era um desses raríssimos homens que não se deixava abater pelos percalços da vida. Costumava dizer que era preciso procurar uma brecha de felicidade mesmo nas situações mais difíceis; e que esta, quando encontrada, nos servisse de guia para enfrentar as dificuldades.

Raphael amou profundamente a vida. Tinha horror a enterro, hospital, velório, ou qualquer outra coisa que colocasse esse amor em risco. Ele viveu exatamente como quis: feliz. Do começo ao fim. Sem deixar que nada nem ninguém o atrapalhasse. Eu agradeço todos os dias por ter tido a oportunidade de conviver  com um homem tão grandioso que me fazia relembrar, todas as vezes em que nos encontrávamos, que o mundo valia a pena e que a humanidade, apesar de toda nossa falta de jeito, é o maior milagre da natureza.

Ele se foi e, contraditoriamente, nos deixou tristes. Mas como, para mim, meu avozinho querido nunca estará relacionado a tristeza (ele ficaria danado se assim fosse), minha lição será outra.

É preciso compreender, ou pelo menos aceitar, o ciclo da vida. Como está no poema de Fernando Pessoa, “assim como é belo o poente, é bela a noite que fica”. A felicidade e a infelicidade vêem juntas, no mesmo pacote, sem uma não existe o sabor da outra. As pessoas morrem como acabam as estações. Não tem jeito e não tem como fugir, estamos todos perto da morte, mesmo eu que estou aqui como representante da nova geração dessa família. A vida é curta e acaba. Então o importante passa a ser como fazermos para tirar proveito  dela, a cada instante. Entender que o que temos são apenas minutos seguidos de minutos, respirações, pausas, caminhadas, decisões...

É preciso viver intensamente; é preciso acreditar nos nossos ideais, lutar por eles mesmo que depois mudemos de idéia; é preciso conhecer o outro, respeitar suas idéias mesmo que elas sejam completamente diferentes das nossas, a gente sempre aprende com os outros, sempre; é preciso fazer as coisas com prazer, o sucesso e o fracasso são só consequências; é preciso amar loucamente, nem que para isso tenhamos que esperar mais de 10 anos por alguém; é preciso dedicar–se à família porque são seus membros o nosso verdadeiro porto seguro. Isto eu aprendi com meu avô”.

carlosdiegues@uol.com.br

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Os Caminhos Abertos

Carlos Diegues, 28 jan 2011

Quando minha geração começou a fazer cinema, entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960, com umas duas dezenas de títulos a gente dava cabo de sua história. Os filmes que tinham circulação universal vinham apenas dos Estado Unidos e de mais alguns países da Europa Ocidental. Havia uma cinematografia em outras poucas nações, mas ela só tinha circulação doméstica, como os melodramas mexicanos na América Latina, ou, vez por outra, ondas sem presença permanente, como no caso da produção japonesa.

Costumávamos ver a produção alternativa em festivais ou nas cinematecas do  mundo, como a de Paris e o MoMA de Nova York, quando por essas cidades passávamos. Na primeira vez que fui a Paris, com 23 anos de idade, passei 45 dias enfurnado na cinemateca de Henri Langlois, vendo três filmes por dia e me alimentando de baguetes de presunto e queijo, que adquiria às pressas no café da esquina. Estamos falando, é claro, de uma época em que não havia vídeo-doméstico, nem filme na televisão.

Hoje, graças ao sucesso universal do cinema e às novas tecnologias, filma-se em todo lugar do mundo, da Coréia do Sul à Romênia, do Burkina Faso ao Equador. E, quase sempre, em todas as camadas sociais de cada um desses países. De um modo ou de outro, esses títulos também circulam pelo mundo afora e agora, para conhecer a história do cinema, não bastam apenas 200 filmes ou o confinamento temporário numa cinemateca, mas anos de dedicação total.

Ao contrário do que imaginávamos, em vez do domínio exclusivo de uma cultura mais forte, o mundo assiste a uma variada produção cultural de origem diversa, vinda de grandes ou pequenas comunidades criativas de artistas que procuram se impor através de sua singularidade. As fronteiras que se abriram para a importação da cultura hegemônica, se abriram também para a exportação dessas singularidades.

Não podemos mais distinguir os filmes pelos gêneros clássicos e, daqui a muito pouco tempo, também não conseguiremos mais distingui-los por nação. As nações não deixarão de existir e estarão presentes nos filmes; mas, através do cinema, elas revelarão sua diversidade natural e se confundirão. O filme de um imigrante árabe francês será (e já é) muito mais parecido com o de um cineasta operário do sul dos Estado Unidos, do que com os de um Luc Besson ou os de um Christophe Honoré.

Para tentar entender esse fluxo do cinema contemporâneo, podemos dizer que, diante de tanta novidade histórica, estética e tecnológica, os filmes avançam para seu público em quatro diferentes nichos de difusão.

O primeiro, e mais conhecido de todos, é o do grande espetáculo infanto-juvenil, quase sempre norte-americano, difundido em todo o planeta, garantindo e unificando o hábito social do cinema. Esse cinema está construindo, para o bem e para o mal, a mitologia dos heróis universais que pretendem fazer, desse mundo, um só mundo. Um pouco como a Commedia del’Arte fez, quando se expandiu pela Europa e depois pelas colônias européias, entre a baixa Idade Média e o Renascimento, com seus Pierrôs, Arlequins e Colombinas que acabaram virando coisa nossa. Cada vez que vejo uma criança vestida de Homem-Aranha ou portando a capa do Super-Homem, imagino logo o futuro delirante da humanidade.

Ao lado desse grande espetáculo mundialmente vitorioso, as cinematografias nacionais procuram, através de comédias e melodramas locais, os meios de se identificar com os cidadãos de seus países. Como, para isso, precisam se diferenciar a partir dessa identificação exclusiva, acabam não sendo entendidas fora desses limites, não conseguem viajar, ficam restritas ao público local que conhece o significado social e cultural de um filho de Francisco ou de um Chico Xavier. Na França, o recordista histórico de bilheteria, a comédia “Chez les Chitis”, sobre conflitos de costumes entre o sul e o norte do país, fez 18 milhões de espectadores domésticos, mas não conseguiu se impor fora dele, nem mesmo em seus vizinhos europeus.

Enquanto isso, os festivais de cinema se multiplicam pelo mundo afora e se transformam em meio concreto de difusão cinematográfica. Apesar da hegemonia de Cannes, Berlim, Veneza e Toronto, surgem, a cada dia, novos pequenos e médios festivais, sejam nacionais ou internacionais, estimulando a invenção de outras formas de fazer cinema. Só no Brasil, eles são hoje cerca de 180, nas mais diferentes cidades do país.

Todos esses festivais competem, entre si, pela novidade que os destaque dos outros. Nessa busca por estilo, inovação e originalidade, eles acabam criando um circuito alternativo, alimentado por filmes que têm dificuldade de ocupar o circuito convencional. É uma dialética que, ao mesmo tempo, faz prosperar os festivais e revela filmes e cineastas que de outro modo não seriam conhecidos e muito menos reconhecidos. O último ganhador da Palma de Ouro de Cannes, o filme tailandês “Tio Bonmee”, nunca foi lançado no grande circuito mundial (à exceção da França), mas tem sido a pièce de résistance de muitos festivais e sobretudo da programação alternativa que vive à margem do mercado mais amplo.

Lá em cima, inventei um quarto nicho por puro voluntarismo. Desejo que um cinema brasileiro, igualmente generoso e profundo, alerta às contingências humanas e voltado para o estado do mundo, invente uma alternativa aos caminhos descritos. Meu desejo é que o cinema brasileiro construa, nesse vão da história contemporânea, alguma coisa que seja ao mesmo tempo sincera e mágica, prazerosa e agressiva, que seja uma forma de conhecimento capaz de nos entreter (ou um “entretendimento”), numa infinidade de alternativas que será nossa contribuição para que a humanidade seja melhor.

 

 

 

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Negociar com a Natureza

Carlos Diegues – 14 janeiro 2011

Em “Burden of Dreams”, documentário exemplar de Les Blank sobre a produção de “Fitzcarraldo”, obra-prima obsessiva e masoquista de Werner Herzog, o grande cineasta alemão presta um depoimento assustador, no meio da floresta amazônica que ele tentava em vão submeter à realização de seu filme.

Com os olhos inflamados e a voz áspera, Herzog, o santo guerreiro, afirma para a câmera que, cada vez que ouvia os sons desordenados da floresta, enlouquecia com o desejo de discipliná-la, pôr uma ordem em sua anarquia natural, impedir a fornicação geral dos elementos que se destroem mutuamente.

Não tenho dúvida de que, como criadores iluminados, os  melhores artistas fazem de suas obras um rascunho do que fariam no lugar de Deus. Todo grande artista tende sempre ao desejo de corrigir os equívocos do Senhor e é assim mesmo que deve ser. Desconfio que o pecado mortal, a primeira afirmação de identidade do homem, aquela que causou a expulsão do paraíso, tenha sido mesmo essa volúpia de ordenação do mundo.

Quando inventou a cultura e, com ela, costumes e instrumentos, casas, cidades, meios de transporte, e tudo o mais que o diferenciava dos bichos e das plantas, o homem se tornou um adversário da natureza. Para fazer o que imaginava, teria que enfrentá-la e certamente ferí-la. A ilusão perversa era a de que ele podia dominá-la, controlá-la, organizá-la segundo simplesmente seu proveito próprio. Tornamo-nos um perigoso virus a ameaçar a saúde do mundo, destinado a degradá-lo pela contaminação de nossos gestos, pelo desejo de dar uma nova ordem à natureza.

Não foi para isso que viemos ao mundo e que nos desenvolvemos de tal maneira que somos seus únicos habitantes capazes de pensá-lo. Como dizia Spinoza, a natureza não tem nenhum projeto para a humanidade. Como a natureza não tem consciência de nossa existência, é impossível viver em harmonia com ela. Mas com a natureza não se brinca e não se briga, com a natureza só se negocia. A única linguagem que ela entende é a da negociação.

É bobagem achar, como Rousseau e os românticos, que os chamados “primitivos” viviam e vivem em harmonia com a natureza. Indio morre cedo, sempre morreu cedo, exatamente porque seu conhecimento de defesas contra ela sempre foi precário. Mas os indios sabem negociar com a natureza, sobretudo porque não têm a pretensão da ciência que pensa entendê-la plenamente.

Há alguns anos, fazendo um documentário sobre eles, convivi, sem nenhuma pretensão antropológica, com uma aldeia xavante recém- contactada, no vale do rio São Marcos, no Mato Grosso do Sul. Durante essa curta convivência de dias, o que mais me impressionou foi o sistemático conselho noturno, em torno da fogueira, em que os mais velhos (ouvidos e prestigiados exatamente por terem sobrevivido tanto) ensinavam aos adolescentes os termos dessa negociação com a natureza, o que podiam e não podiam fazer com ela.

Na recente tragédia na serra fluminense, a natureza andou sendo previamente desrespeitada e insensatamente enfrentada. Como na aldeia xavante, o Poder Público, escolhido pela população para cuidar de nós, como os indios idosos cuidavam de seus adolescentes, tinha a obrigação de nos explicar até que ponto podíamos ou não avançar sobre ela. Como deixar que se contrarie o comportamento da natureza, achando que se pode submetê-la assim, de graça?

A decadência do poderoso Império Romano coincide com mudança climática radical, a partir de 250 d.C., para a qual seus líderes e sábios não estavam preparados. A Revolução Francesa encontrou clima social propício à sua eclosão, depois que, em 1783, a erupção de um vulcão na Islândia, semelhante à de um ano atrás, destruiu, com suas cinzas, grande parte da agricultura no continente europeu, gerando fome imprevista e generalizada. No livro “Colapso” (cujo oportuno subtítulo é “como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”), Jared Diamond, seu autor, nos conta como guerras e disputas políticas e econômicas devastaram a pequena Ilha de Páscoa, no Pacífico Sul, a ponto de destruir uma civilização avançada que tinha sido capaz de construir aquelas gigantescas esculturas de cabeças, hoje alinhadas no deserto de pedras em que o lugar se transformou.

Ninguém se lembra de quem evita o incêndio, a natureza exibicionista do espetáculo humano exige que só celebremos os heróis que apagam o fogo e salvam suas vítimas. Mas prevenir é sempre mais eficiente e completo que remediar – e ainda sai mais barato. E remediar, afinal de contas, é admitir, reconhecer  o trágico erro.

Não é possível que, em países como Portugal e Austrália, catástrofes semelhantes, com muito mais volume de água, tenham matado respectivamente 42 e 19 pessoas, enquanto na serra fluminense, até o momento em que escrevo, são mais de 500 as que despareceram na enxurrada. Hoje, a prevenção pode chegar a tempo, ser rápida e eficiente, pode alcançar a todos. Plataformas tecnológicas como a televisão, a internet e mesmo celulares, facilitam seu acesso imediato à população.

Parece até que o Poder Público (federal, estadual, municipal, distrital, o que seja) prefere esconder as informações prévias, com medo de se responsabilizar por elas, tendo que se dar ao trabalho de conter a ocupação irregular de terrenos ou remover famílias de áreas de risco. Mas, nesse caso, o Poder Público não existe para agradar os cidadãos e sim para protegê-los, intermediando sua indispensável negociação com a natureza.

 

carlosdiegues@uol.com.br

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O Primeiro Sábado

Carlos Diegues, 31 dezembro 2010

Neste primeiro sábado de 2011, não estamos vivendo, com a posse de Dilma Roussef em Brasília, apenas mais uma sucessão presidencial. Se pensarmos bem sobre nossa história recente, podemos concluir que também estamos assistindo ao encerramento de uma etapa na vida de nossa jovem democracia republicana. E, portanto, à possível passagem a um novo período de seu desenvolvimento.

Por mais que eventualmente concordemos com suas ideias e que devamos muito justamente respeitar seu sacrifício (a morte é um argumento muito forte), não foram os militantes da luta armada que derrubaram a ditadura militar que nos governou por mais de 20 anos, não foram eles que provocaram a democratização do país. Quem o fez foi a articulação, nem sempre explícita (notem que não usei a palavra aliança), entre democratas conservadores, como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro ou Teotônio Vilella, e a vanguarda sindicalista do ABC de São Paulo liderada, em sua luta estritamente legalista, por Lula.

No momento final da democratização, a partir da campanha das diretas-já, foi-se juntando a esses um terceiro elemento decisivo, formado por lideranças militares e civis do regime moribundo que, mais moderadas, perceberam a inevitabilidade da passagem à democracia formal e garantiram seu caráter pacífico.

Tudo isso teve um preço de conveniências que foi pago nessa primeira etapa de consolidação democrática que se encerra hoje, quando praticamente todas as forças envolvidas naquela articulação tiveram, de um modo ou de outro, participação nos governos sucessivos de Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e do próprio Lula. Reparem bem onde estava cada um desses nomes e seus aliados, no processo político de distensão que vai, mais ou menos, de 1974 a 1985.

Dilma Roussef é a primeira presidente do Brasil moderno que não tem nada a ver com isso. É verdade que ela participou da luta armada, no início dos anos 1970, com pouco mais de 20 anos de idade, uma jovem universitária sem ligações com o mundo politico profissional. Mas sua formação pública, suas relações com o poder, sua aproximação com o estado e sua administração, seu conhecimento da pólis, só se dá depois do fim da ditadura, já no novo regime democrático. Dilma é portanto uma tecnocrata formada na jovem democracia brasileira, que não tem a memória e os compromissos do passado histórico a lhe pesar sobre os ombros. Algo de novo, no estilo e no caráter da presidência, há de surgir dessa novidade.

Paradoxalmente, também não creio que esteja se encerrando hoje a “Era Lula”. Seu triunfo nos oito anos de governo, a popularidade com que deixa o cargo, a dependência que seu partido tem dele, seu próprio encanto pela vida pública, nada disso permitirá que ele seja esquecido ou que se afaste do palco político. Mesmo porque tenho até a impressão de que, quando esfriarem as paixões, vamos todos, governistas ou oposicionistas, sentir certa falta dele, alguma saudade do que representa, seja qual for o desempenho de sua sucessora.

Antes de Lula, só Getúlio Vargas lançou sua sombra com tal intensidade sobre tão longo período político. Os outros dois presidentes igualmente bem sucedidos em nossa história republicana recente, Juscelino Kubistchek e Fernando Henrique Cardoso, não tiveram a mesma oportunidade. O primeiro porque foi sucedido por um demagogo irresponsável que nos levou, logo depois, à ditadura militar que a tudo silenciou. O segundo, por sua ausência de vocação para a devoção popular e por um total, incompreensível e covarde abandono de seu próprio partido.

É impossível prever de que modo a “Era Lula” vai seguir em frente, isso vai depender do comportamento de seu titular e do sucesso de sua sucessora. Tomara que o agora ex-presidente se conscientize de sua importância simbólica (FHC ainda não entendeu direito esse seu papel, por causa de sua justa angústia de reconhecimento, pela qual seu partido é o principal responsável), torço para que Lula não ceda à volúpia da eminência parda, atuando implícita ou explicitamente em cada decisão. Napoleão Bonaparte dizia que, na guerra, um general ruim é melhor do que dois bons.

Estamos começando a entrar num período em que nossa democracia não vai mais depender dos compromissos do passado, garantidos pelas forças políticas de “antigamente”. A partir de hoje, estamos prontos para depender apenas do presente e entender esse momento como uma passagem à maturidade, o fim da adolescência de nossa democracia. Uma passagem que pode ser ilustrada pelo texto de Santo Agostinho: “a verdadeira liberdade não consiste em fazer o que se tem vontade, mas fazer o que se deve porque se tem vontade”.

 

carlosdiegues@uol.com.br

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Devolve não, Chico

Carlos Diegues, 16 dezembro 2010

Anoiteceu, o sino gemeu. Então eis aí o Natal, podemos ouvir de novo “War is Over”, de John Lennon, sem temer que nos chamem de piegas. E, como na canção, ainda podemos perguntar, agora que o ano se aproxima do fim, pelo que você tem feito na vida.

Eu queria que fosse tudo como está no ensaiozinho de Jorge de Lima, “Todos cantam sua terra”. O grande poeta afirma ali que o catolicismo é uma marca profunda na formação da cultura ibérica. Mas enquanto na Espanha se manifesta por excelência através da paixão de Cristo, em Portugal se funda no auto de seu nascimento. Entre o Cristo Crucificado e o Menino Jesus, herdamos o lirismo desse, exorcizando a tragédia irreparável daquele. Preferimos as expectativas da vida às dores da morte, mesmo que redentora.

Será verdade?

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O cineasta italiano Etore Scola me disse uma vez que era mais fácil entender a Itália do pós-guerra através das comédias de Steno, Risi ou Monicelli, do que por meio dos clássicos do neorealismo. Mario Monicelli, o autor de filmes extraordinários como “Os eternos desconhecidos”, “Os companheiros” ou “O exército Brancaleone”, matou-se recentemente, com pouco mais de 90 anos de idade, jogando-se da janela de um hospital onde se internara em estado terminal, com câncer na próstata.

Está aí alguém que, em seus filmes, sempre esteve do lado da vida. Monicelli era um humanista crítico que se divertia com a existência e a fragilidade dos seres humanos. Seus personagens, sempre cheios de projetos mirabolantes, nunca acreditam de verdade que sejam capazes de realizá-los e acabam mesmo fracassando. Mas o fracasso é a descoberta da vida de fato, aquela que passa a nosso lado enquanto fazemos planos (mais uma vez, Lennon). Ele não ria de seus personagens. Ria com eles. Da vida.

Amigos comuns me contam que, sabendo de seus tumores fatais, em acelerada metástase, Monicelli pedira que o deixassem morrer logo, para evitar maiores sofrimentos. Os médicos se recusaram a atendê-lo e ele decidiu pela eutanásia por conta própria. Detesto suicidas, não sou complacente com eles, não respeito gesto tão agressivo, não vejo grandeza nele. Mas no caso de Mario Monicelli, um artista iluminado, um grande cineasta que escondia seu pessimismo por trás da graça de um permanente sorriso de solidariedade, alguma coisa me diz que ele tinha esse direito.

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O pecado original talvez seja nosso irreprimível desejo de ordenar o mundo. Acho que foi a necessidade de sobrevivência em ambiente hostil que nos obrigou a isso. E nossa secular educação cartesiana, um desejo irracional de absoluta racionalidade, acabou por não nos permitir contemplar o duplo, aquilo que é e também o seu contrário.

Não só tememos a diferença, como também não conseguimos conviver pacificamente com o conflito. Diante do outro, nosso instinto é de tentar eliminá-lo, acabar com a perturbação que nos causa. Nesse mundo contemporâneo de espetáculo e exibição, o outro que nos perturba (a diferença) pode ser também o sucesso de alguém que nos obriga a pensar sobre o valor de nosso desempenho.

Podemos amar uma estrela consagrada como Chico Buarque, contanto que ele fique no seu lugar, produza sua grande arte muito longe do palco em que atuamos. Se resolver jogar futebol, os outros jogadores não podem reconhecê-lo como craque, seria demais para a  afirmação deles nas quatro linhas da vida. Assim como pode bater em nós uma certa sensação de fracasso pessoal ou de simples ameaça, quando vemos suas peças tão oportunas e lemos os belos romances que já escreveu.

Não sou do ramo. Mas se entendi bem, “Leite Derramado”, seu romance mais recente, ganhou o tradicional prêmio Jabuti de melhor livro do ano, mas perdeu o de melhor ficção para outro. Isso gerou revolta em alguns editores, escritores, jornalistas e intelectuais, que chegaram a pedir a Chico que devolvesse o prêmio.

Mas, pelo que li no jornal, tal premiação já ocorrera antes na história do Jabuti e ninguém nunca reclamou, porque não são os mesmos os jurados que outorgam os dois prêmios, uma decisão não tem nada a ver com a outra, sendo essa a regra do jogo desde sempre. Mais ou menos como no futebol, onde o Goiás disputou a final da Copa Sul-Americana, tendo sido rebaixado à segunda divisão do Brasileirão. Ou no cinema, quando diretores de filmes laureados como os melhores do Oscar e dos festivais são ignorados na premiação de sua categoria.

Por trás dessa aparente purgação de um erro, está na verdade a necessidade de punir quem nos humilha tanto com sua indiscutível grandeza. O outro, quando é exemplar, pode ser pior do que se fosse inimigo. E um Jabuti é pouco, o Brasil deve muito mais do que isso a Chico Buarque.

Devolve não, Chico.

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E já que estamos no espírito de Natal, filmando recentemente no Acre, o único estado do país que fez guerra para ser brasileiro, encontrei numa sala de aula de ensino fundamental, escrita no quadro negro, a seguinte citação de Nelson Mandela.

“Ninguém nasce odiando outras pessoas pela cor de sua pele, por sua origem, ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

Batem os sinos.

carlosdiegues@uol.com.br

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Declaração de Voto

Carlos Diegues, 22 out 2010

Quando, em 1960, aos 20 anos de idade, votei pela primeira vez para presidente da república, devo ter sido, entre os conhecidos de minha geração, um dos raríssimos eleitores do Marechal Lott, sisudo militar fragorosamente derrotado pelo jovem e carismático Jânio Quadros. Na volta da democracia, 29 anos depois de minha estréia nas urnas, votei em Lula contra Collor. Em seguida, por duas vezes em Fernando Henrique e mais duas novamente em Lula (a perspectiva de alternância de poder faz bem ao regime democrático e obriga os mandatários a serem mais sensatos). Não me arrependo de nenhum desses votos e, nos dois em que fui vencido, o desempenho de Jânio e Collor no poder me deram toda razão.

Estou convencido de que vivemos, nesses últimos 18 anos, o melhor momento da história da república. A partir dos dois anos de Itamar Franco, quando tudo começou, o país viveu, durante mais os dois mandatos de Fernando Henrique e os dois de Lula, seu mais longo período de consolidação democrática, estabilidade financeira, crescimento econômico, melhoria dos serviços públicos e uma inédita distribuição de renda. Tudo isso de maneira talvez parcimoniosa demais para nosso gosto, mas  sempre permanente e regular.

Mas é claro que, no vendaval de paixões provocado por uma eleição como esta, nada disso é relevante para os competidores que se dilaceram. E todos, em algum momento, perdem o pé do estribo em que se equilibram sobre a montaria de seus partidos, nessa corrida doida. Partidos que não têm muita coisa que os oponha, a não ser idiossincrassias políticas, às vezes provincianas, quase sempre nascidas em tempos imemoriais.

É uma aberração histórica, possivelmente incompreensível para os pesquisadores do futuro, que Fernando Henrique e Lula tenham precisado fazer alianças com Antonio Carlos Magalhães e o PMDB para a tal “governabilidade”, uma expressão sofisticada para indefinição programática, falta de caráter político. E uma ameaça que parece querer nos lembrar que uma força maior que o voto popular está esperando o governante na esquina, afim de golpeá-lo se não cumprir as regras de forças ocultas, que ninguém sabe precisamente quais são e porque são.

O presidente Lula é um democrata e nessa condição exerceu seus dois mandatos. Basta lembrar seu comportamento no episódio do terceiro mandato que certamente obteria, em nome da “governabilidade”, se assim o quisesse. Bati de frente com seu governo algumas vezes, sobretudo no início dele, quando contestei as regras para a cultura estabelecidas sem participação do MinC, e, depois, durante o delírio autoritário do projeto da Ancinav. No primeiro caso, em poucos dias o presidente tinha reconhecido o equívoco cometido por alguns de seus auxiliares e devolvido a administração cultural ao ministério da área, como cabia. No caso da Ancinav, assim que o projeto chegou a uma reunião ministerial, foi, por indicação do presidente, rejeitado por unanimdade.

Não posso deixar de gostar dele. Lula é um protagonista do Cinema Novo, com toda a saudável complexidade do conflito brasileiro entre o arcaico e o moderno, uma pertinente representação simbólica do Brasil, um personagem de “Vidas Secas” que foi parar em “Terra em Transe”. Mas não gosto quando ele assume um lado Padim Ciço e se deixa anunciar “pai dos pobres” e outros sebastianismos milagreiros que não colaboram com o estágio da civilização brasileira. Sempre que entra em cena um pai protetor, elimina-se a vontade dos filhos, sua capacidade de pensar por eles mesmos.

 Mas um presidente em exercício é presidente de todos os brasileiros, inclusive daqueles que lhe fazem oposição. Não pode pedir a extinção de partidos, demonizar a imprensa que não o apoia, se tornar juiz de um jogo de bolinhas de papel e balões de borracha produzido pela irracionalidade e violência de fanáticos que não devem ser estimulados. Lula vai ficar na história como um dos grandes presidentes do Brasil e já virou um ismo representativo de uma era. Não pode pisar na bola na saideira da campanha eleitoral.

 A grande Rosa de Luxemburgo dizia que a liberdade é  antes de tudo a liberdade de quem discorda de nós (ela acabou traída pelos radicais de seu partido socialista e assassinada pelos social-democratas de Weimar). Décadas depois, o não menos grande Isaiah Berlin, ignorado pelos radicais do liberalismo que ele defendia, completava o pensamento de Rosa dizendo que a liberdade do lobo não pode justificar o extermínio dos cordeiros. Esses são os únicos limites intransponíveis da liberdade democrática.

 carlosdiegues@uol.com.br

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 Um Amor Antigo

Carlos Diegues – 8 out 10

Nesse inesperado inicio de outono primaveril, ensolarado e doce, chego a Paris, vindo de Biarritz e Lyon, e encontro uma imprensa cheia de notícias sobre o Brasil. Umas são boas, outras deixam a desejar. Reajo a essas como o herói de “O estrangeiro”, de Albert Camus, que, apanhado de surpresa com o anuncio da morte da mãe que não vê há algum tempo, reage com um sentimento difuso de culpa: “C’est pas de ma faute” (não é culpa minha).

Em compensação, os jornais anunciam com entusiasmo o prêmio de público de “5XFavela, agora por nós mesmos” no festival de Biarritz; os analistas de economia elogiam o ministro Guido Mantega por sua posição corajosa a favor da valorização da moeda chinesa; Bernardo Carvalho recebe de Libération uma crítica muito elogiosa a seu romance “Ta mère”; Le Monde estampa na primeira página uma caricatura de Lula a dançar satisfeito com sua candidata, enquanto Sarkozy observa o casal, com vergonha e lágrimas nos olhos, e nós podemos ler, sob os primeiros, a legenda que diz “somente 4% dos brasileiros estão descontentes com o presidente Lula” e, sob o marido de Carla Bruni, “72% dos franceses descontentes com Sarko”.

Nenhuma rádio, canal de televisão ou publicação impressa perdeu a oportunidade das eleições brasileiras para fazer um balanço do que acontece hoje em nosso país. Alguns desses veículos publicaram edições especiais, como fizeram Le Monde, Courrier International e outros, com farto material sobre sociedade, política, economia e cultura brasileiras. Dessa vez, não se falou em carnaval, nem em futebol. Na maior parte dos casos, as matérias se concentram na ideia de que o Brasil está acabando com sua secular miséria, embora ainda seja um país pouco igualitário. Entre a frota de helicópteros sob o céu de São Paulo e a violência nas favelas cariocas, flutua intacto o prestígio mágico de Lula.

O caso de amor entre o Brasil e a França é bem antigo. Antes da hegemonia de nosso americanismo, a partir do pós-guerra, nossas elites sonhavam com Paris como um Olimpo holístico. Nossos ricos proprietários para lá se dirigiam em suas férias familiares e nossos melhores intelectuais, já que nem sempre podiam fazer o mesmo, voltavam seus olhos e seu imaginário para o que julgavam ser o centro da inteligência e do conhecimento humanos. A recíproca também sempre foi verdadeira, embora os sonhos não fossem os mesmos.

Para os franceses em geral, o Brasil sempre foi um espaço de férias selvagens. Mas, para os mais requintados, sempre fomos, desde o filósofo Jean-Jacques Rousseau (que nos pensou) ou o pintor-viajante Jean-Baptiste Debret (que nos registrou), aquilo que eles deixaram de ser quando perderam a inocência em nome da razão. Não foi à toa ter sido a França, com seus cineastas e críticos, artistas e intelectuais, a descobrir e espalhar, para o resto do mundo, o valor do Cinema Novo brasileiro e, depois, o do Tropicalismo, mesmo tendo sido igualmente responsável pela utopia naïve de “Orfeu Negro”. 

Hoje, quando a opinião pública local julga a França decadente, a Europa em grave crise e o mundo à beira do desastre, o Brasil surge para ela como uma nova esperança de alguma coisa que não conhece mas presume existir. E, para garantir a vigência concreta desse sonho, somam, às estatísticas positivas que possuem sobre nós,  o impressionante carisma de um presidente que nos devolveu, a nós mesmos e ao mundo, o valor simbólico do país, perdido desde a ditadura militar.

No dia seguinte ao que cheguei em Paris, fui convidado a dar uma entrevista na rádio France Inter, um talk show semanal. Aceitei na expecatativa de que, na hipótese mais exigente, iria falar sobre esse fértil momento do cinema brasileiro. Mas o que a jornalista queria de nós (além de mim, o programa convidara também o fotógrafo Sebastião Salgado e a pesquisadora Dominique Dreyfuss), era mesmo nossa opinião sobre a ascensão do país a potência mundial, um país de moeda cada vez mais forte, com impressionante reserva de petróleo recentemente descoberta e uma classe média crescente, num futuro sem miséria. Mais que tudo, queria saber o que seria de nós sem Lula, o mágico milagreiro que nos levara a tanto e agora se despede.

Tenho a impressão de que causamos um certo aborrecimento à jornalista e a seus produtores, quando confirmamos que o Brasil vive de fato um momento excepcional de sua história, mas que ainda há muito a fazer. Para isso, contamos com nossa reserva de pré-sal e tudo mais. Mas contamos sobretudo com nossa imensa reserva de energia e alegria, que espero comecemos a usar logo.

carlosdiegues@uol.com.br

 

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Tráfico de Violência

Carlos Diegues, 24 set 2010

 Chegando de Maceió, meus pais foram morar no bairro de Botafogo, de onde, pelo resto de suas vidas, nunca mais sairam. Durante minha adolescência, moramos na rua da Matriz, cujos limites iam da igreja de São João Batista, na rua Voluntários da Pátria, à subida do morro Dona Marta, na São Clemente. Como eu estudava no Colégio Santo Inácio, nessa mesma rua, voltava a pé para casa e quase sempre acabava ganhando vaga na pelada liderada pelos meninos do morro, disputada no terreno baldio que dava então acesso à favela. Foi ali, jogando bola com eles, que comecei a compreender a natureza das diferenças sociais, bem como as semelhanças que nos faziam iguais. Foi ali também que experimentei um cigarro de maconha, cortesia de um menino mais velho, num tempo em que a droga ainda era inocente.

 Hoje o uso de drogas se tornou um costume universal que, embora combatido, resiste e só faz crescer. Se a droga gera algum bem estar no individuo que a usa, haverá sempre quem queira experimentá-la e quem acabe por torná-la um hábito. É assim que nascem os costumes, é assim que o mundo gira. Se não fosse desse jeito, a humanidade já teria desistido de se entorpecer, desde que descobriu os efeitos do vinho. E já que haverá sempre consumidores, sempre haverá os que procuram se beneficiar do comércio gerado pelo consumo. Vamos ser simples e claros, sem superstições moralistas:  o tráfico de drogas, no mundo inteiro, não vai acabar nunca mais.

 As questões fundamentais sobre a droga são outras. A primeira diz respeito à saúde física e espiritual do consumidor, sua dignidade e sobrevivência, sua degradação e morte prematura. A segunda, à segurança da sociedade, daqueles que precisam ser protegidos da violência que se instaura em torno do tráfico de drogas. Não tenho dúvida de que essas questões só podem ser enfrentadas de vez com a legalização do uso de drogas e seu consequente controle social. Mas isso vai demorar muito a acontecer, pois terá que ser uma decisão universal, acordada pelas nações de todo o mundo. Se um país tomar a iniciativa da legalização sem esse consenso internacional, se tornará logo o maior fornecedor de drogas do planeta e um intolerável exportador de violência.

 Em todas as grandes cidades do mundo existe tráfico de drogas e a violência que o acompanha, resultado da clandestinidade em que tem que ser praticado. Mas, nas metrópoles brasileiras, essa violência se agrava com a presença de armas de guerra, seu alcance e seu poder destruidor. O Rio de Janeiro é, ao lado de Bagdá e Cabul, uma das poucas cidades do mundo onde a violência urbana é praticada com armas de guerra. Como não estamos em guerra, nem existe fábrica de armas nas favelas cariocas, de onde elas vêm e por que se faz tão pouco para evitar sua entrada aqui?

 As Unidades de Policia Pacificadora, as UPPs criadas pelo governo do estado, não pretendem e não vão mesmo acabar com  o tráfico de drogas, mas podem acabar com a violência decorrente dele. Através da ocupação permanente, elas podem evitar a tomada das favelas por traficantes que controlam socialmente a população e impõem suas próprias leis com armas de guerra. Recuperar esses territórios para seus moradores é uma produção da paz possível, a paz a que tem direito todo cidadão brasileiro, more onde morar.

 Esse é o primeiro serviço a que essa população tem direito, mas não o último. Para que as UPPs tenham consequência social concreta, é preciso que o resto do estado, que nunca subiu o morro, venha em seguida. Assistência social, saúde, educação, saneamento, e sobretudo emprego e renda (e aí a iniciativa privada se torna protagonista), são indispensáveis para a integração dessa população com o resto da sociedade. Só aí o estado terá condições de exigir o cumprimento dos deveres desses cidadãos, só aí as favelas cariocas poderão viver plenamente num estado de direito.

 Esse projeto, tendo as UPPs como ponta de lança, não é fácil de se realizar e muito menos terá resultado imediato. Mas poderá se dar de modo seguro, num tempo mais ou menos longo, se observadas e cumpridas todas as etapas necessárias ao processo. Sem a presença de outros serviços do estado,  além de emprego e renda para os moradores (sobretudo os jovens), a polícia sozinha jamais poderá dar conta desse recado. Mas ter dado o primeiro passo nessa direção é a grande virtude desse governo e de sua secretaria de segurança. O poder público, ao longo dos anos, já fez tanta besteira nesta área que a desconfiança natural gera em nós um certo pudor em apoiar novas propostas. Mas as UPPs são um grande acerto, aquele primeiro passo decisivo na longa caminhada para resolver uma injustiça social secular, agravada agora pelo costume das drogas. Elas precisam da compreensão de toda a sociedade para que o projeto seja bem sucedido.  

 carlosdiegues@uol.com.br

 

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 A Tragédia da Democracia

Carlos Diegues – 10 set 2010

Eu tinha 14 anos de idade quando acordei, naquela manhã de inverno de 1954, para ir à escola. Minha mãe me avisou então que, naquele dia, as aulas tinham sido canceladas e me mandou de volta para a cama. Não fui, pois o rádio da casa, aos berros, atraía minha atenção para a sala, onde encontrei meu pai ouvindo sucessivas edições especiais do Repórter Esso. A voz embargada de Heron Domingues anunciava a inesperada morte do presidente, repetindo trechos de um billhete que o suicida deixara como testamento. “À sanha de meus inimigos deixo o legado de minha morte”, começava a carta. E meu pai ouvia tudo de novo, tenso e perplexo.

Depois de me explicar o que queria dizer “sanha”, meu pai me confirmava o que eu já começara a compreender vagamente: Getúlio Vargas havia dado um tiro no peito naquela madrugada. E como precisava ouvir o resto das notícias, me pedia que não lhe perguntasse mais nada. Não fiquei tenso nem perplexo, como ele, mas fui para a rua, encontrar meus amigos e propor uma pelada, intrigado com a fragilidade do que eu julgava ser o Poder. Assim, com inicial maiúscula. Se o homem mais poderoso do país, um mito com uma história de 20 anos de condução da nação, amado por seu povo e bajulado pelos outros, acabava cometendo um gesto como aquele, então a política não era exatamente o que eu pensava dela. A política podia ser trágica.

O mesmo sentimento de tragédia tivemos todos nós de minha geração quando, dez ano depois, os militares deram um golpe de estado, derrubando o presidente João Goulart e instalando uma ditadura que durou mais de 20 anos, em diferentes fases. Nós estávamos nos preparando para mudar a história do país, certos de que fazíamos uma contribuição decisiva à civilização humana com nossos filmes, canções, peças e poemas, quando os tanques falaram mais alto que nossas redondilhas e calaram tragicamente muitos dos melhores entre nós. A política que, naquele intervalo entre o suicido de um presidente e a usurpação do mandato de outro, nos parecera uma festa em que nossos sonhos e desejos eram suficientes para a realização da felicidade geral da nação, voltava a meus olhos como uma tragédia.

Hoje, como já disse outro dia, creio estarmos vivendo o melhor momento de nossa história republicana. Há 18 anos que a democracia entre nós só faz se consolidar, a estabilidade financeira eliminou a inflação, o país se desenvolve com regularidade, uma certa distribuição de renda beneficia parte da população abandonada durante tanto tempo. No remanso desse estado de coisas, estamos às vésperas de eleições que, sendo cruciais para o país, correm no entanto em relativa normalidade, sem sobressaltos institucionais. E sobretudo, apesar de escândalos de malfeitos e ódios partidários, sem paixão política.

Nossos principais candidatos trocam denúncias factuais, repetem cifras como as crianças de antigamente recitavam a taboada, prometem gestão de excelência como se fossem candidatos a CEO de empresas. Mas não falam de política como projeto de futuro para o país, de organização de sua sociedade, de correção de erros seculares, de nossa contribuição para o estado do mundo. Mais ou menos como se tivéssemos perdido o gosto pelo Brasil simbólico, aquele que não se traduz por cifras ou picuinhas mútuas, mas por comportamento, cultura e política, o conjunto das relações humanas fora das contingências da natureza. Como somos todos mais ou menos da mesma geração, como sofremos todos as mesmas experiências que relato acima, imagino que evitem a política para evitar a tragédia.

Juntando o PT com o PMDB, o presidente Lula realizou o velho sonho de Getúlio Vargas ao fundar simultaneamente o PTB, o partido da esquerda democrática de então, e o PSD, o dos senhores da nação, grandes proprietários e clientes do estado. Mas aí, do outro lado, encontramos também a mesma urdidura partidária criada na oposição a Vargas, que juntava a UDN liberal e democrática aos herdeiros da aliança poderosa que derrubara o Estado Novo, incluída a direita mais conservadora do período. E o que é hoje a aliança entre o PSDB e o DEM senão isso?

E aí estamos votando nesse eterno retorno, sem muita alternativa. O que aliás não fará muito mal ao Brasil, seja quem for o ganhador ou ganhadora. As coisas são mesmo assim. Raymond Aron, citado por Tony Judt, dizia que “na política, a opção jamais tem a ver com a luta entre o bem e o mal, mas com o preferível e o detestável”. Cabe a cada um de nós escolher o nosso “preferível” e o nosso “detestável”. Mas vamos tentar não ter medo de que a política na democracia seja o reino da tragédia.  

carlosdiegues@uol.com.br

 

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 Uma Luz Acesa 

 Carlos Diegues – 27 de agosto de 2010

Na véspera de Natal, o morro está sem luz e, para não passar a festa no escuro, seus moradores precisam da solidariedade de um funcionário da companhia de energia elétrica que não mora na comunidade, nem conhece ninguém de lá. Esta é uma sinopse muito abreviada de "Acende a Luz", último dos cinco episódios de "5XFavela, agora por nós mesmos", um longa-metragem total e exclusivamente concebido, escrito e realizado por jovens cineastas moradores de favelas cariocas.

Não sei se foi essa a intenção da diretora daquele episódio, a cineasta Luciana Bezerra, moradora na favela do Vidigal e membro do grupo cultural local Nós do Morro, mas a última imagem de “Acende a Luz” (e, por consequência, a ultima imagem de todo o filme) reproduz, como perfeita metáfora, o próprio sentido dessa bela aventura cinematográfica - mesmo que em volta ainda esteja tudo escuro, há uma pouca luz acesa no alto do morro e ela pode muito bem se alastrar. Se nós quisermos, quem sabe ela possa iluminar toda a cidade.

“5XFavela, agora por nós mesmos” foi uma idéia que nos surgiu do encontro, ao longo de muitos anos, com jovens cinéfilos favelados dispostos a se tornarem cineastas. Entre projeções, cursos e palestras, vimos nascer e acompanhamos de perto o crescimento de uma primeira geração desses rapazes e moças interessados por cinema e fazendo, graças ao acesso às novas tecnologias digitais, seus pequenos filmes, como antigas gerações faziam redondilhas e sonetos.

Antes de carnaval e futebol se tornarem programas de espetáculo para a televisão, essas manifestações coletivas já foram produções culturais que, inventadas e/ou aperfeiçoadas por essa população do país socialmente desprezada, sempre representaram a cultura nacional para nós mesmos e  pelo mundo afora. Sempre me perguntei como era possível que um segmento da sociedade brasileira tão subestimado e tão humilhado produzisse uma cultura tão poderosamente vitoriosa, a ponto de ser tratada como a própria “cultura nacional”.

Apesar de seu extraordinário lirismo, pertinência e originalidade,  essa produção cultural das favelas era muitas vezes ingênua e autopiedosa, como se se desculpasse por um estado do mundo que nunca foi de sua responsabilidade. Hoje, não é mais assim que ela é produzida, através das organizações culturais locais que estimulam sua produção, desde a virada da década de 1980 para a de 90. O Nós do Morro, no Vidigal, a CUFA (Central Única de Favelas), na Cidade de Deus, o AfroReggae, em Vigário Geral, o Observatório de Favelas, na Maré, são algumas dessas organizações, de onde veio a maior parte dos que fizeram “5XFavela, agora por nós mesmos”. Sem elas, esse filme não existiria pois ele é o resultado do sonho que elas fizeram esses jovens sonhar. 

A matriz desse sonho começou a se formar há algum tempo, já tem uma certa idade. Ele nasceu nos anos 1960, com o Cinema Novo e sua idéia modernista de nação e povo, progresso e mudanças. É claro que não se trata mais desse mesmo discurso, passaram-se mais de 50 anos desde que Nelson Pereira dos Santos filmou “Rio, 40 graus”, o Brasil e o mundo não são mais os mesmos, o próprio cinema é outro, nossas cabeças  necessariamente mudaram. Entre um e outro momento, ergue-se, com “5XFavela, agora por nós mesmos”, uma ponte geracional que não foi construída para repetir nada, nem para fechar ciclo algum, mas simplesmente para manter vigente a permanência do cinema brasileiro e sua trajetória sem fim, na direção que ele, pelas mãos desses jovens, tomar. Uma ponte celebrando a diferença no tempo, que consagra a vontade de filmar a cara do Brasil, como ele é de fato (nosso dever), mas também como gostaríamos que ele fosse (nosso direito).   

Nós todos vivemos nos lamentando tanto e reclamando de tanta coisa, que na maior parte das vezes esquecemos de dizer como gostaríamos que fosse tudo. Não vou ensinar a meus filhos que o Brasil não tem solução, prefiro lhes dizer que o mundo poderia ser melhor. É isso o que os jovens cineastas de “5XFavela, agora por nós mesmos” nos ensinam a todos – que o mundo pode ser melhor.   

 carlosdiegues@uol.com.br

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 A Cultura da Política

Carlos Diegues, 13 de agosto de 2010

Outro dia escrevi aqui sobre as relações entre a política e a cultura. Reclamei sobretudo de que ainda não tinha lido ou ouvido, de nenhum candidato a presidente, qualquer referência à cultura. Menos de uma semana depois, os quatro principais aspirantes à presidência estavam debatendo na televisão e mais uma vez ficamos virgens de informação sobre o assunto.

O programa da TV Bandeirantes começava com suntuosa encenação musical, nos aproximando de grande orquestra iluminada no fundo do palco, enquanto os candidatos, em primeiro plano, permaneciam na sombra. Sonhei que tentavam nos dizer que, em algum momento de nossas atribuladas vidas, por mais curto que ele fosse, o êxtase artístico uniria os homens acima de suas pequenas causas.

Encerrada a promissora introdução, apagaram-se as luzes sobre os músicos e o jornalista Ricardo Boechat informava que havíamos visto e ouvido o maestro João Carlos Martins a reger a Filarmônica do SESI. As luzes se acendiam agora sobre os quatro políticos e, iniciando-se o debate, nunca mais se ouviu uma só palavra sobre a criação artística, o imaginário humano, a linguagem simbólica que nos une a todos e faz progredir a humanidade, o amálgama crítico da civilização. A cultura, enfim. 

O programa cívico nos fazia compreender que o maestro e seus músicos haviam servido de protofonia representativa daquilo que deve pensar a grande maioria dos políticos brasileiros. Isso é, que a cultura não passa de um supérfluo e dispensável momento de recreação, um ornamento social, cortina rendada que se abre a papos mais sérios. Boa mesmo para bater o bumbo que anima os palanques de memoráveis campanhas políticas.

Apesar de suas dificuldades, o Brasil é um país que se apropria muito rapidamente das novidades que surgem no resto do mundo, mesmo que às vezes não sejamos capazes de absorver corretamente o sentido mais profundo delas. Mas esse desprezo político pelo valor ontológico e estratégico da cultura não é uma moda mundial. Muito pelo contrário.

Desde que, na década de 1930, Franklin Roosevelt criou a “política dos três fff” (“flag follows film”, a bandeira acompanha o filme), o estado norte-americano procura proteger a produção cultural do país. Um pretexto para isso é que o cinema, a música, a literatura, a cultura exportada sempre leva com ela, não só o modo americano de viver e uma ideologia própria para o entendimento mútuo, mas também os produtos nacionais que enriquecem o país.

Há duas semanas, por exemplo, o New York Times anunciou que a Open Society Institute, empreendimento beneficiente do bilionário George Soros, conhecido investidor em Wall Street, estava doando 11 milhões de dólares a organizações culturais novaiorquinas, a partir de um mecanismo que lhe permite deduzir esse valor de seu imposto de renda.

Na Europa, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, enfrentou agressiva oposição da sociedade, vinda da esquerda e da direita, quando ameaçou modificar a política de incentivos culturais, uma tradição nacional consolidada durante a administração do escritor André Malraux, ministro da cultura de Charles De Gaulle. Na Inglaterra, a indústria criativa gera empregos a taxas mais altas do que a maioria dos outros setores da economia, obrigando o novo governo liberal-conservador a reforçar os investimentos na área, como informou há dias, de Londres, o colunista do Globo Rodrigo Pinto.

Na África, o músico senegalês Youssou N’Dour, um dos primeiros ídolos mundiais do pop africano, se tornou dono de uma emissora de televisão, através da qual se transforma em líder político cuja campanha é fundada na valorização da cultura local. Assim como, na Ásia, o cineasta sul-coreano Lee Chang Dong, um dos destaques do novo cinema asiático, premiado esse ano em Cannes por seu belo filme “Poetry”, foi, até recentemente, ministro da cultura de seu país. Durante sua gestão, os filmes da Coréia do Sul passaram a ocupar (e ocupam até hoje) 65% do mercado interno de exibição, dividindo com o Japão a preferência do público do resto do continente.

Na segunda metade do século 19, uma nova linhagem de pensadores se cansou de querer entender o mundo, decidiu que o importante era mudá-lo. A prática desse pensamento gerou o pior do século seguinte, suas tragédias, genocídios, opressão em todas as cores políticas. Neste século 21, através de outras formas de conhecimento, estamos retomando a idéia de tentar compreender o mundo e nossa presença nele, para melhor abordar a mudança. Não se trata mais de conhecer ou transformar, mas de mudar sabendo porque.

Como fazer isso sem levar em consideração o imaginário humano, os sonhos e aspirações produzidos por ele? Como fazer isso sem a cultura, a manifestação por excelência do homem sobre o universo?

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O Poder da Idéia

 Em 1865, o quadro “Olympia”, do pintor Edouard Manet, pai do impressionismo, foi recusado pelo Salão de Belas Artes de Paris. Exposto então no Salão dos Recusados, “Olympia” provocou escândalo sem precedentes. O quadro retratava uma mulher nua deitada na cama, enquanto uma criada negra lhe traz flores e um gato preto, aos pés da moça, nos encara do canto direito da tela. Além de mal pintado, um borrão de cores, atentado à boa pintura de uma época neo-clássica, paródica e acadêmica, “Olympia” foi acusado também de indecente e pornográfico. Jornalistas e escritores zombavam de Manet, professores e estudantes de Belas Artes indignavam-se com ele, mães de família em passeatas cobriam o quadro para que não fosse visto. Paris inteira linchava “Olympia”. 

 Somente o escritor e jornalista Émile Zola ousou defender publicamente o pintor e sua obra. Num artigo em que anunciava o nascimento de uma nova arte e de uma nova moral na produção artística francesa, Zola só lamentava a presença do gato preto no canto da tela que, segundo ele, servia apenas como ornamento desnecessário, elemento de distração no rigor poético da composição. Diante do clamor geral, o diretor de seu jornal exigiu que Zola se retratasse e, como o escritor se recusasse a fazê-lo, foi despedido e viu as portas de todos os jornais franceses se fecharem para ele. Manet, como agradecimento por seu gesto, pintou-lhe então um retrato que se encontra exposto no Museu d’Orsay, ao lado do “Olympia”. Nesse quadro,  Zola está a escrever, cercado de livros e, na parede do cômodo, o pintor reproduziu o “Olympia”, sem o gato preto no canto da tela.

 O grande escritor naturalista passaria depois à história como um dos inventores do papel do intelectual combatente, do maitre à penser, quando denunciou, com seu manifesto “J’accuse”, a manipulação política, o preconceito e a hipocrisia racista no famoso caso Dreyfus. De Émile Zola a Susan Sontag (que teve a ousadia de explicar ao americano comum o que ele não havia entendido do 11 de setembro), muitos desses intelectuais não arriscaram apenas seu reconhecimento, mas, às vezes, a própria vida no cumprimento da missão de pensar o mundo e o estado das coisas segundo sua própria consciência, conhecimento e intuição, sem se submeter à palavra de ordem majoritária de grupos, partidos ou corporações.

 É em  nome disso que não tenho partido, nunca tive um, não tenho gosto pela vida partidária. Para falar a verdade, não gosto de artistas ou intelectuais “orgânicos”, aqueles que submetem o que pensam à razão política de suas organizações. O que não impede que seja justo se interessar por política e manifestar sua opinião sobre ela. A diferença é que, mesmo sendo sincero, o político precisa dizer sempre aquilo que ficar mais próximo do que seu interlocutor deseja ouvir; e, ao intelectual, cabe mostrar o que nem sempre é visto, mesmo quando inoportuno ou inconveniente. Perturbar, com o poder da idéia, a harmonia construída pela idéia de poder.

 O paradoxo de minha adesão irrestrita à democracia representativa é que desconfio e tenho medo daqueles que desejam mandar nos outros, embora considere inevitável e desejável que elejamos nossos governantes. E já que temos que os eleger, pensemos no que seus programas podem nos oferecer. Assim, é claro que, nas próximas eleições, cada um de nós tem o direito e mesmo o dever de escolher um dos candidatos a presidente da república, segundo nossos interesses e necessidades.

 Mas, no Brasil, artistas e intelectuais são tratados como bumbos de comício, alegres animadores do carnaval de palanques, figurinhas premiadas nos álbuns de campanhas políticas. É dramático observar como em nenhum discurso, artigo, entrevista, debate ou programa de governo dos principais candidatos (vi todos na internet), há uma só referência à cultura. Nenhum deles se manifestou, até aqui, sobre o assunto. E a cultura, com toda a sua complexa multiplicidade material, tecnológica e virtual de hoje em dia, é a flor de uma nova era do conhecimento, o fator das mudanças que a humanidade do século 21 vai assistir, como nunca antes na história desse planeta.

 Desse jeito, o gato preto ornamental vai ficar para sempre no canto da tela. Os heróis do século 21 serão aqueles que não precisam escolher porque sabem que, quanto menos escolherem, menos perderão.

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A Era Dunga

 Carlos Diegues, 14 de  julho de  2010

 Talvez estejamos cometendo grave injustiça, no presente linchamento do que se convencionou chamar de Era Dunga. Em que pese o mau humor, o mandonismo e a deselegância de quem o batizou, não é desprezível, para quem deseja conhecer o país, o significado simbólico desse período de tempo em nosso futebol.

 Visto por outro viés, como complexa manifestação cultural que contamina e entusiasma nossa população, o futebol pode ser compreendido também como uma revelação do estado de espírito da sociedade brasileira num momento dado. Como na música, na literatura, nas artes.

 Sempre fizemos parte do grupo de povos visto, pelo mundo que importa, como produtor de uma cultura que faz rir e dançar. Sempre fomos os “nativos” inquietos e barulhentos, divertidos e ingênuos especialistas em “alegria de viver”. Essa era uma necessidade do colonizador clássico, aquele que se compensava vendo em nós aquilo que eles teriam deixado de ser.

 Para não deixar dúvida quanto à nossa qualidade face a seus próprios povos, éramos chamados por eles de “subdesenvolvidos”. Depois, quando, no auge da Guerra Fria, ganhamos uma certa importância política na disputa entre as potências pela conquista do mundo, passamos a ser conhecidos por “Terceiro Mundo”. Hoje, já sendo notório nosso peso econômico no concerto das nações, somos tratados como “emergentes”. A linguagem explica muito sobre quem a inventa e usa.  

 Começamos a ganhar outra personalidade e uma certa confiança em nós mesmos, a partir da euforia desenvolvimentista do final dos anos 1950. Foi aí que nos sagramos bi-campeões do mundo, com um futebol inédito que nós mesmos inventamos e que assombrou a estrangeirada. Em 1970, durante o take off do milagre econômico, novamente encantamos o mundo aliando agora, à qualidade técnica de jogadores inspirados, uma mentalidade “científica” na sua preparação. Estávamos começando a nos insinuar no universo da tecnologia moderna.

 Na década de 1990, no iníco da qual convencionamos ter começado a Era Dunga, éramos um país saindo da selvagem anarquia medieval provocada pela ditadura militar, estávamos ansiosos por uma nova agenda nacional (o que resultou no equívoco da eleição de Fernando Collor).  É como se o Brasil, anos depois do pito de De Gaulle, tivesse resolvido enfim ser um “país sério”. Em vez de só fazer dançar e gingar, começamos a propor o elogio do trabalho como merecimento da graça, a desejar a substituição da inspiração pela disciplina, a empreender em vez de improvisar.  A permanência da tática elaborada, em vez da incerta criação do instante.  

Almejamos introduzir um pouco de rigor no nosso gosto pelo jeitinho (o drible?), esse aprendizado da corrupção. E um pouco de racionalidade no delirio barroco de que nos orgulhamos tanto, esse barroco que se consagrou nas igrejas douradas construidas pela força da escravidão mais cruel e mais longa da América Latina. E, com esse espírito, fomos tetra-campeões em 1994, em Los Angeles , a capital anglosaxônica do pragmatismo protestante na cultura.

A Era Dunga representou um salto importante na cultura brasileira, um desejo de por uma pitada de iluminismo na bagunça de nossos corações. Foi durante sua vigência (e na obstinação de Felipão por sua estratégia) que voltamos a ser campeões em 2002, num período de estabilidade econômica e relativa distribuição de renda no país.

 Mas a exacerbação da virtude não é virtuosa, ela perverte o que tivermos de melhor, como vimos agora, na Copa de 2010. Ela pressupõe a vitória definitiva, como sob o comando de um deus. Mas a história não é divina e não se acaba nunca, ela continua indefenidamente em estado permanente de crise, o único capaz de produzir conhecimento para o homem. Nenhum fim é triunfal, ele se dá sempre quando a ascenção se encerra.

 Claro, não é possível ganhar sempre. Ser o melhor e não ganhar pode até ser desejável como alívio para nossas culpas, uma indulgência para nossa agressividade contra o outro. E há ainda o imponderável, o acaso que está sempre mudando nossas vidas. Na semana em que o Brasil perdeu para a Holanda, um chofer de táxi,  fazendo o elogio do futebol, me fez a seguinte observação, a propósito de sua imprevisibilidade: “Por exemplo, no basquete,  o senhor já ouviu falar em cesta contra?”.

 O futebol é o esporte que mais se parece com a vida, o único em que você pode fazer um gol contra seu próprio time. O viralata de Nelson Rodrigues não é o homem que perde, mas aquele que não tem coragem de vencer.

 

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