O Globo
O sorriso do professor
Carlos Diegues

No antigo curso ginasial de meu colégio de adolescente, havia um professor de Português que nos enjoava sempre com seu ar de tristeza e pessimismo, sobretudo quando saía um pouco do currículo previsto e se punha a dissertar sobre algum acontecimento político que tivesse ocupado recentemente os jornais. Um fracasso qualquer.


Uma manhã, o tal professor chegou à sala de aula parecendo feliz, sorrindo pelos quatro cantos da boca. (Bem, sei que a boca só tem dois cantos, mas vamos exagerar um pouco, para melhor entender o professor). Como sabíamos que ele era um solteiro inveterado, suspeitamos de que se tratasse de alguma conquista amorosa em seu solitário destino. Mas não era.


Não demorou muito e o professor, sem conseguir se controlar, começou a elogiar uma vitória política qualquer, contra uma tirania qualquer, em algum lugar do mundo, talvez até no próprio Brasil. Ele arriscava assim sua pele de mestre, num colégio que nem primava tanto pela liberdade de expressão. Muito menos quando essa liberdade protegia expressão contrária ao pensamento dominante dos padres de plantão e no poder do colégio, um considerado o melhor e dos mais selecionados do Rio de Janeiro.


O dia inteiro foi de chacota e comemorações que, naquele tipo de conversa, uma coisa não existia sem a outra. O professor fazia com que seus superiores, os sacerdotes que mandavam nele, não percebessem  o que se passava na sala de aula. Aquela era uma sua vitória particular, saída da vitória política conquistada no noticiário do dia, que o fazia tão leve, sorridente e cheio de imaginação. O professor comemorava sozinho a liberdade conquistada em outro continente, por outro povo, enquanto nós, que gostávamos tanto dele (ou, no mínimo, achávamos tanta graça nele), tentávamos compreender o que se passava em sua cabeça ou em seu coração. Porque estava tão alegre o nosso sorumbático adulto exemplar.


Nunca havia visto antes uma pessoa rir tanto para dentro, como se o sorriso só servisse a ele mesmo e a mais ninguém. Nem mesmo a nós, que ele sabia que o amávamos tanto.


No dia seguinte, chegamos mais cedo para a aula, na esperança de nos alimentarmos mais um pouco daquela alegria misteriosa de nosso modelo revolucionário. Mas, para surpresa e decepção nossa, o professor chegou macambúzio e logo irritado como sempre. Não sabíamos se era o caso de comemorar o reencontro com o que já havíamos consagrado ou deplorar o fim de uma possibilidade que poderia nos tornar mais felizes.


Custamos a descobrir a razão de seu estado de espírito, que acabava por determinar o nosso estado de espirito. Antes de soar a sineta  do recreio, o professor, tendo perdido seu próprio controle, quase aos prantos enfim abria o jogo. O que havia comemorado no dia e na aula anteriores tinha se acabado, as forças locais de repressão agiram rápido e, graças à traição de um ministro ou de um conselheiro ou de um coisa que o valha, o velho regime tinha triunfado sobre a revolução. Estava tudo como sempre estivera antes, desde anteontem para trás.


Ainda discutimos entre nós o que fazer. A solução mais viável para a remissão do professor teria sido a de um colega que propôs elegê-lo nosso paraninfo na formatura da turma. Mas a formatura da turma só aconteceria dali a uns dois anos, o professor já teria se envolvido em outros fracassos políticos ou amorosos, tanto faz. As consequências depressoras o manteriam como agora o víamos. Talvez pior.  


Pouco resignados, cercamos o professor na saída pro recreio, do qual abríamos mão para ouvi-lo se explicar, exigir dele seu verdadeiro sentimento em relação ao mundo que lhe fazia tanto mal. Exigíamos dele entendê-lo melhor para seguirmos seguindo sua silenciosa liderança, nosso exemplo para o futuro sem saída pro recreio.


Suas inesquecíveis palavras, ditas entre dentes, sem vontade de dizer, não saíam certamente de seu coração amargurado, mas do que via diante de seus olhos presos ao real de todos os  continentes: “É assim mesmo, meninos. O que é feito pelo homem nem sempre avança, há sempre os que preferem retroceder”. E limpando os olhos, diante de nós todos curiosos: “A regra é essa, não adianta nada esperar alguma coisa diferente”. E depois, com uma luz difícil e um sorriso que nem ele mesmo devia saber de onde vinham: “Mas, pelo menos durante um dia, fomos vitoriosos!”. Nós todos o perdoamos e aplaudimos muito nesse final.


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