O Globo
A indústria do simbólico
Carlos Diegues

No Brasil, quando se fala em cultura, se pensa logo na Lei Rouanet. Para elogiá-la ou, o mais comum, para demonizá-la como instrumento de corrupção e malfeitos. Nada mais injusto.


A Lei Rouanet, criada em 1991 pelo diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet quando Secretário de Cultura, viabiliza a produção cultural da qual participam decisivamente três diferentes sujeitos responsáveis, que a fazem passar pela vontade democrática dos setores concernidos da sociedade: o produtor cultural que propõe seu projeto, o poder público que cria as regras para seu financiamento e os agentes privados que vão deduzir de seus impostos o que lhes é permitido por lei investir. Claro, nenhuma lei é perfeita e há sempre como aperfeiçoá-las. Mas negar a importância e o valor da Lei Rouanet é recusar o que se faz de mais avançado em quase todo o mundo civilizado onde circulam regras parecidas, do capitalismo neoliberal dos Estados Unidos ao capitalismo de estado da China.


Poucos depreciadores apressados da Lei Rouanet se dão conta de que ela não abarca todas as formas possíveis de cultura. A produção de filmes brasileiros, por exemplo, não é atendida por ela. Nosso cinema é financiado exclusivamente através da Lei do Audiovisual, a lei 8.685, aprovada em 1993 durante o governo Itamar Franco.


As resistências ao financiamento público da cultura brasileira têm origem em preconceitos políticos e ideológicos. Pela natureza do que ela significa como manifestação do que vai na alma da população, por seu caráter simbólico de afirmação do que somos, pela sua ousadia em tentar representar-nos como nação e povo, a cultura é vista como uma atividade perigosamente identitária e portanto excludente, capaz de produzir disposições com as quais nem sempre concordamos. E, quando não concordamos, reagimos de forma radical contra o que ela pretende nos dizer, como se a reação fosse indispensável à nossa sobrevivência. Mas a cultura não é, nem pode ser, uma arma letal de luta política e sobretudo ideológica. Ela não pode servir para nos separar, mas para nos revelar e celebrar nossa multiplicidade. A bem vinda diversidade de nossa formação e de nossas circunstâncias.


Graças ao reconhecimento desse espaço, estamos vivendo um excepcional momento de qualidade no cinema brasileiro. Produzimos cerca de 180 filmes por ano, número do qual nunca chegamos nem perto em nossa história, com uma diversidade regional, geracional, de gênero, política e cinematográfica que corresponde ao país em que vivemos, dos igarapés amazônicos às favelas cariocas, das cidades históricas de Minas aos Pampas gaúchos, das praias do nordeste aos arranha-céus paulistanos.


Uma nova geração de cineastas brasileiros está fazendo com que se redescubra nosso cinema pelo mundo afora, através de prêmios, destaques e lançamentos qualificados. No Brasil, as receitas desses filmes nas salas de cinema raramente correspondem à sua qualidade. Mas quando esses mesmos filmes passam na televisão aberta ou fechada, sua audiência é sempre excepcional. É que o público da televisão está em casa, não precisa de dinheiro para o transporte e o ingresso, nem para a Coca-Cola e a pipoca tradicionalmente mais caras do mundo. O cinema brasileiro vai bem; o que vai mal é a economia do país.


Existem nações que podem nos servir de exemplo. Lee Chang-dong, consagrado cineasta sul-coreano que já foi ministro da Cultura de seu país, diz que, quando fez seu primeiro filme e a produção da Coréia do Sul engatinhava, há mais de 25 anos, o público local costumava afirmar que não via filme nacional “nem que lhe pagassem”. Hoje, com seu desenvolvimento econômico e industrial, a Coréia do Sul é a principal nação produtora de cinema na Ásia, superando China e Japão, com sucessos locais e internacionais.


Um estudo da insuspeita PriceWaterHouse, realizado entre 2001 e 2010, concluiu que a indústria de lazer e cultura foi a atividade econômica que mais cresceu no mundo durante o período, a uma taxa de 7,5% ao ano. Em 2010, a cifra de negócios da atividade atingiu US$ 1,7 trilhão (um trilhão e setecentos bilhões de dólares). A projeção para o crescimento do setor, entre 2010 e 2019, atinge qualquer coisa em torno de US$ 2,3 trilhões (dois trilhões e trezentos bilhões de dólares). O cinema e o audiovisual em geral representam cerca de 60% dessa cifra.


Apesar de contido pelos cerca de cinco anos de recessão econômica, o mercado brasileiro de lazer e cultura também cresce. A produção de conteúdos diversos para abastecer esse mercado deixou de ser um fenômeno apenas simbólico, de afirmação de nossa identidade, para se tornar também um negócio em benefício da população. Aqueles conteúdos serão consumidos a um ritmo cada vez mais intenso, na medida da recuperação de nossa economia. Essa indústria a serviço de vidas humanas que necessitam de lazer e cultura depende de nós todos. Como escreveu o ensaísta e poeta espanhol Miguel de Unamuno: “Somos mais pais de nosso futuro, do que filhos de nosso passado”.


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