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O Globo
O voto da semana
Carlos Diegues

Estamos a uma semana da eleição mais tensa e histérica do Brasil moderno. Não é que as outras tenham sido sempre saudáveis. Mas essa pode se tornar o clímax de todos os erros que cometemos antes, desde o Império, quando o imperador isento e bonachão deixava que os dois partidos, o Liberal e o Conservador, ficassem dando golpes um no outro.


Nasci sob o Estado Novo ditatorial de Getúlio Vargas. Só já maduro fui descobrir que, na primeira eleição depois de sua queda, o Brasil havia eleito, como presidente da redemocratização, o Ministro da Guerra do ditador. Depois, na eleição seguinte, foi o próprio ex-ditador, responsável por crimes hediondos, que voltou ao poder, por votação democrática. Embora, devido à idade, ainda não votasse, em 1955 me engajei com entusiasmo adolescente na campanha de Juscelino Kubistchek, o rei da simpatia.


A primeira eleição em que tive idade para votar de fato foi a de 1960. Fui um dos poucos de minha turma politizada que votou no marechal Lott e não em Jânio Quadros, como quase todo mundo. Diziam que até o presidente da UNE, líder e responsável pela frente popular mais vasta na história do movimento estudantil, havia se encantado com o demagogo farsante que, com sua inexplicável renúncia, atirou o Brasil numa crise que gerou o golpe militar de 1964.  


A ditadura militar durou 21 anos. Quando veio a nova redemocratização, a sequência política ficou parecida com a de Vargas: o presidente da redemocratização tinha sido presidente do partido da ditadura. Na primeira eleição direta e democrática que tivemos a seguir, elegemos outra vez um aventureiro, que outra vez deixou o governo antes de completar o mandato legal. Só que, agora, a Justiça é que o tirava do trono que não merecia ocupar.


E então, numa graça inesperada, vieram dezoito anos de euforia pública, durante Itamar, FHC e Lula. O Brasil se tornava uma nave de esperança, flutuando na direção que sempre pretendemos para nós – um país menos desigual, com mais oportunidades para todos, acabando com a inflação endêmica, tratando melhor a habitação, a educação e a saúde de seu povo, fiel a um sistema democrático que nunca tentou violar, se dando ao respeito universal.


Não importam os partidos que fizeram esse tempo, nem as queixas que cada oposição a cada governo fazia de seu adversário. O que importava mesmo era a alegria de viver num país onde, mesmo merecendo essa ou aquela correção de rumo, havia um horizonte de luz à nossa espera, em cuja direção valia à pena navegar. Nós todos acreditávamos nesse horizonte e podíamos viver desse orgulho.


Mas o sonho acabou e o Brasil virou o que é agora – um país sem caráter, de desigualdades e desemprego, de pobres desassistidos, de economia em recessão, sem expectativa de recuperação num prazo humano. Um país violento, desorientado e caótico, de líderes egoistas à beira de uma catástrofe bárbara. Agora não se trata mais de escolher entre políticos e partidos, nem mesmo de escolher entre a direita e a esquerda, como muitos simplificam tentando nos convencer. O que está em jogo hoje é a disputa entre civilização e barbárie, duas formas distintas e distantes de viver e conviver.

O desgaste do gosto pela civilização está contaminando o mundo inteiro, não podemos deixar que esse mal chegue ao Brasil. Civilização significa sabedoria e conhecimento, regras e leis que servem a todos, respeito ao outro, amor universal. 

A democracia é o único sistema político possível numa civilização respeitável. E ela não é a imposição do modo de vida da maioria, mas o regime em que as minorias têm garantido seu direito à diferença.  O contrário disso é o fim do diálogo que sempre faz a humanidade crescer na crise, o estado humano por excelência. Nosso voto é um instrumento indispensável para impedir a substituição desse diálogo crítico pela vontade do mais poderoso.


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