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O Globo
O maior teatro popular de rua
Carlos Diegues

Semana que vem, começa o Carnaval. Quer dizer, começa na folhinha, na data oficial do calendário, porque nas ruas ele já está rolando há algumas semanas. Tenho a impressão de que, mesmo que o prefeito da cidade fosse um comissário do Partido Nazista, a essa altura não tem mais quem impeça a realização da festa.

Vamos, por enquanto, deixar política e moral para lá, pensar apenas em de onde vem e para onde vai o Carnaval como experiência cultural, formadora da nação.

Vindo de tradições ibéricas e da própria Commedia dell’Arte, o Carnaval se consolidou no Rio de Janeiro através das tias baianas, Vindas quase sempre da Bahia, essas matriarcas negras de comunidades populares que usaram a música como instrumento de poder, acabaram por re-inventar o samba na nossa cidade. O Carnaval veio também de seu oposto aparente, as procissões católicas impregnadas por espírito popular de mestiçagem religiosa e musical. Essas procissões pareciam desfiles de rancho, os precursores das escolas de samba cariocas, como está em “Memórias de um Sargento de Milícia”, de Manoel Antonio de Almeida, escrito e passado no final do seculo XIX.

Religiosas ou não, o que essas manifestações coletivas acabaram por criar, formalizado a partir do início dos anos 1930, foi o maior teatro popular de rua da cultura ocidental – os desfiles de escolas de samba que, em 1984, foram parar no Sambódromo, um equívoco cometido por dois gênios brasileiros, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer.

O Sambódromo tentava “disciplinar” o Carnaval, completando um cada vez maior aprisionamento das escolas de samba a um formato oficial. Algumas delas souberam dar a volta por cima, com a sabedoria e o talento de carnavalescos como Fernando Pamplona, Joãozinho Trinta ou Fernando Pinto. Em “Por que perdeu?”, livro excelente de Marcelo de Mello, podemos conhecer as injustiças de alguns resultados oficiais que, no entanto, não acabaram com o brilho da lembrança e dos ensinamentos para o futuro dos ganhadores virtuais.

Essas intervenções “corretoras” da espontaneidade da invenção popular que é o Carnaval, como o projeto recente de um “Blocódromo” (que felizmente não pegou), são tentativas de controlar o que já nasceu, por definição, incontrolável, tentando escapar de qualquer controle, mesmo que nem sempre seja bem sucedido.

Os blocos agora voltam a crescer pelos bairros da cidade. E começam a ter que improvisar e experimentar soluções para o que nunca conheceram antes. Como, por exemplo, a intervenção inesperada e indesejada da violência urbana contemporânea. Há poucos dias, na Tijuca, o enfrentamento entre policiais e bandidos, na passagem de um bloco,  matou com um tiro o garçon Samuel, conhecido no bairro por Samuca, que queria apenas ver o bloco passar e talvez, se possível, cair no samba atrás dele.

Peter Beck, fundador da empresa Rocket Lab, lançou essa semana seu primeiro Electron, foguete de baixo custo a bordo do qual está uma coisa chamada “Humanity Star”, tipo uma estrela artificial. Parece que, durante nove meses, essa falsa estrela se tornará a coisa mais brilhante no céu do planeta. Cientistas, técnicos e especialistas estão furiosos, manifestando-se contra a “Estrela da Humanidade” que vai, segundo eles, atrapalhar a observação científica, tornando-se o que chamam de uma “pichação espacial”.

Tudo bem, os cientistas devem ter razão. Mas desde que li essa notícia, não sonho com outra coisa que não seja ver o céu da Sapucaí lotado de “Humanity Stars”, fazendo daquela noite um dia iluminado de folia no céu da cidade.  

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A propósito da pesquisa da Ancine (Agência Nacional de Cinema) sobre a incidência de gênero e raça nas equipes de cinema brasileiro, me ocorreu o seguinte.

Entre 2009 e 2010, produzimos o filme “5XFavela, agora por nós mesmos”, totalmente realizado por cineastas moradores de favelas. Durante seis meses, organizamos palestras, aulas e seminários sobre os diversos aspectos técnicos do cinema, para cerca de 600 moças e rapazes que depois foram fazer o filme.

Uma vez pronto, “5XFavela, agora por nós mesmos” entrou na seleção oficial do Festival de Cannes, ganhou quase todos os prêmios no de Paulínea, foi consagrado pela crítica e pelo público quando lançado no Brasil, em 2010. Hoje, aquela rapaziada está vivendo do audiovisual, trabalhando em equipes de cinema e televisão.

Mas nenhum deles ou delas, até agora, conseguiu recursos para fazer um longa-metragem como diretor.

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Vou tirar um mês de férias de tudo, a partir dessa semana de Carnaval. Volto a esse espaço do jornal no domingo 4 de março, título do sucesso de Nando Reis e dia da entrega dos Oscars desse ano. Depois de um mês de descanso, vai ser no minimo animado. Até lá.  


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