O Globo
Um artista brasileiro
Carlos Diegues

É sempre gratuito e irresponsável afirmar que esse ou aquele é o melhor disso ou daquilo. Os bons são os bons e os que não prestam são os que não prestam. Pronto. Você pode inventar uma hierarquia dos bons, até chegar ao melhor. Mas a escolha será sempre discutível, fruto de motivos facilmente rebatidos por outra organizacão mental igualmente subjetiva. Tudo pessoal demais para resistir a qualquer lógica que valha para todos.

Mas não posso deixar de dizer que Chico Buarque é o artista brasileiro que melhor sabe onde está o sentimento do Brasil. Tudo o que ele canta é sempre alguma coisa que nos lembra alguma coisa. Chico não se livra das cancões para que oucemos e dansemos. As canções que ele canta parecem escritas por nós mesmos, para revelar o que não sabíamos sobre nós.  

Seu lindo espetáculo em cartaz no Rio começa e acaba com “Minha embaixada chegou”, canção de carnaval escrita por Assis Valente para Carmen Miranda. A de Chico é uma embaixada gloriosa, que chega como um alegre recado de quem fez o que fez de sua vida. Se um corpo pudesse ter mais de uma alma, Chico Buarque seria uma delas no corpo troncho do Brasil. A que fala (ou canta) mais perto de nossos corações. Quem nunca quis ser Chico Buarque na vida?   

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Semana passada, já tinha escrito meu artigo e não havia mais tempo para reescrevê-lo, quando soube da morte de Fernando Birri, cineasta argentino de 92 anos, um dos heróis do cinema de nosso continente. Birri foi o pioneiro inventor da vertente mais radical daquilo que o mundo crítico e de festivais chamou, desde os anos 1960, de “Nuevo Cine Latino-Ameriano”.

Ele fez seu primeiro filme em 1960, “Tire Die”, documentário sobre meninos de rua na província argentina de Santa Fé, onde nascera. Birri inaugurava o gênero documental, no mesmo universo cinematográfico em que Nelson Pereira dos Santos inaugurara a ficção, em 1956, com “Rio, 40 graus”, anunciando o Cinema Novo brasileiro que Birri iria curtir tanto.

Mestre com vocação universitária, ele fundou, em 1986, a famosa Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba, em parceria com o escritor colombiano Gabriel Garcia Marques. Ao longo dos anos, a escola recebeu alunos e preparou cineastas de todo o continente, sob o comando de gente como o nosso Orlando Senna e com o apoio de profissionais consagrados internacionalmente, como Francis Ford Coppola.

Birri viveu os últimos anos na Itália e seus amigos de lá lhe prestaram homenagem, classificando-o como “o mais imaginativo, hiperbólico, irreverente, dissonante, grandiloquente, genial mas também poético, sonhador e inspirador". Era mesmo tudo o que ele era. Em 2006, o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, outorgou a Fernando Birri a nossa Ordem do Mérito Cultural.

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Ainda estávamos nos recuperando da notícia sobre Birri, quando sofremos outro golpe. Dessa vez, a má notícia veio do outro extremo do continente e tratava da morte de Daniel Talbot, exibidor, distribuidor e animador cultural norte-americano, sediado em Nova York. Foi Dan quem lançou o cinema brasileiro nos Estados Unidos, um país que nunca aprendeu a ler legendas nas salas de cinema.

Dan Talbot tinha 91 anos e foi o criador do primeiro circuito de cinema independente e de arte no país de Hollywood. Não é difícil imaginar os obstáculos e o tamanho de seu necessário empenho para superá-los. Ele começou com uma pequena sala, o New Yorker Theatre, onde revelou aos americanos a Nouvelle Vague francesa, contando sobretudo com o jovem e inquieto público universitário americano, que começava a se interessar pelo que se passava no resto do mundo em matéria de arte e cultura.

Em 1968, com grande sucesso no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), uma semana do cinema brasileiro, organizada com a ajuda de Fabiano Canosa, revelou filmes  como “Terra em Transe”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “A Grande Cidade”, “Os Fuzis”, “Vidas Secas”. Dan se interessou por esses clássicos do Cinema Novo e lançou-os através da distribuidora que acabara de fundar com sua esposa, a escritora Toby Tolpen.  


Mais tarde, agora ocupando o mais nobre Cinema Studio, Talbot ainda lançou os filmes brasileiros de uma safra posterior ao Cinema Novo, como “Pixote”, “Xica da Silva”, “Bye Bye Brasil”, “Dona Flor e seus dois maridos”, “Gaijin”. Ele também os distribuia para outras importantes praças americanas, como Chicago, Los Angeles, San Francisco, Seattle, Miami, Washington D.C., Houston, etc.


A associacão de Dan Talbot com o cinema independente de todo o mundo era bem generosa. Seu compromisso não era com o dinheiro, mas com o prazer que os filmes lhe davam. Um dia, ouvi Dan dizer ironicamente que o negócio cinematográfico não era um negócio, mas um cassino, ninguém sabia muito bem que filme ia dar. Para ele, o que interessava mesmo era “to demonstrate the full glory of movies.”


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