O Globo
O estranho caso de miss McCarthy
Carlos Diegues

Quando minha filha me mostrou revoltada o vídeo no celular, achei que podia ser uma brincadeira de mau gosto, um desses programas de youtubers que gostam de adoram agredir o politicamente correto. Um Porta dos Fundos infeliz. Mas depois entendi que se tratava mesmo de um post de alguém que tinha o hábito de frequentar a internet com esse tipo de intervenção imbecil, em relação a qualquer assunto que fosse capaz de ferir o próximo. Um praticante gratuito de um certo exibicionismo sado-masoquista.

No video, uma moça feia, meio gordinha, com cabelos cortados em franjas de um jeito bem antigo, lábios vituperinos que tentavam impedir os dentes de pularem fora e um sorriso sequestrado pelo pescoço grosso, dizia, através de palavras mal mastigadas, coisas horríveis sobre Titi, de quatro anos, filha adotiva  do casal Giovana Ewbank  e Bruno Gagliasso, astros de nossa televisão. Titi, vi depois seu retrato na imprensa, é uma criança graciosa, que os pais adotivos conheceram num país africano. A menina é portanto negra, a razão dos desvarios da moça na internet.

A moça em questão se chama Dayane Alcântara Couto de Andrade, mas se manifesta nas redes sociais com o pseudônimo de Day McCarthy, como se fosse uma cidadã norte-americana que mora no Canadá. Aos jornalistas que recebeu com entusiasmo, miss McCarthy afirmou que faz sempre esse tipo de publicação nas redes, para se vingar de quando, desde sua tenra infância,  era vítima de bullying na escola, de colegas que a chamavam de pobre, gorda e feia. Dayane disse no jornal que já nasceu “com pensamento racista”. “As pessoas me chamavam de macaca”, disse ela, “porque diziam que eu era preta e tinha o nariz de Michael Jackson”.

Miss McCarthy está, em primeiro lugar, se “limpando” da cor que atribuiram a ela na infância. Quem chama uma menininha negra de macaca, é porque quer ter e dar a certeza de que não compartilha com ela a cor que despreza e lhe envergonha. É como se estivesse dizendo a seus colegas de escola, agora crescidos e usuários da internet, que não é negra como eles pensavam. Tanto que está tomando a iniciativa de humilhar e tratar de macaca uma negra de verdade. E nós ficamos de queixo caído, sem entender de que fundo de cultura preconceituosa miss McCarthy tirou esse ódio racial.

Ao mesmo tempo em que procurava “se limpar” junto aos internautas que identificouava a seus colegas de escola, Dayane urdia também uma vingança contra o sucesso de Giovana e Bruno. Um sucesso com que provavelmente sempre sonhou para ela mesma e nunca conseguiu obter. Um casal jovem, louro, bonito, famoso e rico como aquele deve ter despertado nela um desejo insuportável, o retorno de um sonho recorrente que a levou a postar na internet as besteiras que posta com constância e dedicação. A participação de miss McCarthy nas redes sociais não pode ter como objetivo único senão a conquista do universo, do amor de todos por seu talento e beleza. Como não terá nada disso nunca, só lhe resta tentar  destruir quem o tem.

O sado-masoquismo racista que usa a humilhação dos negros como instrumento de afirmação tem, particularmente no Brasil, força semelhante ao ódio social provocado pela frustração do projeto de ascenção social. Embora sejam quase 60% de nossa população, os afro-brasileiros ainda são tratados como “minoria”. O papel sócio-cultural dado ao negro no Brasil de hoje, depois de tanto progresso democrático no país, é certamente menos protagonista, inferior até ao que já foi recentemente. E, por mais terrível que isso seja, parece contaminar a indignação justa de pensadores e artistas de origem afro-brasileira.

Enquanto Day McCarthy exibe seu racismo ignóbil na internet, alguns militantes negros condenam, por exemplo, o filme “Vazante”, de Daniela Thomas, porque se passa na época da escravidão, sem que os escravos sejam seus protagonistas; ou a exposição “Pourquoi pas?”, em que a artista negra Alexandra Loras recria cor e traços negróides em retratos de celebridades brancas. Daniela e Alexandra não têm o direito de fazer seus filme e quadros porque são brancas ou negras; mas porque são artistas e, antes de tudo, seres humanos que têm o direito de se expressar como bem entender, se não forem injustamente agressivas, nem humilhem o objeto de suas obras. A invenção restritiva do “lugar da fala” é apenas uma bobagem universitária, que só pode servir para restringir nossa liberdade de expressão. Todos têm o direito de falar sobre tudo.  

É preciso citar sempre o grande Joaquim Nabuco. Ele escreveu que a escravidão tinha sido um mal tão profundo, que o Brasil, mesmo depois da Abolição, ainda ia levar muito tempo para se livrar do que ela nos impôs, de sua sombra. Não está dando outra.


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